Eu quero envelhecer!

E não é que o Reinaldo Azevedo implorou: “Gente, vamos envelhecer“? O curioso é que tenho pensado bastante nisso. Os cínicos dirão, fazendo um muxoxo (eu sempre quis escrever muxoxo): “Dá um tempo, moleque. Nem chegou aos quarenta e já está falando sobre envelhecer? Vai assistir Heroes, sim?” Não deixam de ter alguma razão, mas peço apenas uns poucos parágrafos para defender minhas idéias.

Desde que mais de um amigo, todos da minha faixa etária, escorregando uns anos para cima ou para baixo, disse que não se sente com trinta anos, me surpreendi com a constatação de que meu sentimento é diametralmente oposto. E acrescento: gosto muito disso. Estou razoavelmente satisfeito com minhas escolhas, não tenho vontade de voltar atrás em minha história pessoal, gosto de perceber como o Marcelo de 2008 é diferente, digamos, do de 1998. Não nego o meu envelhecimento, meus cabelos brancos e entradas, nem as ainda leves rugas circundando os olhos (quanto à barriga, devo, não nego; diminuo quando puder, digo, quando começar a academia). De qualquer forma, é sobre o amadurecimento intelectual (e espiritual, de valores, bagagem, etcéteras) que desejo falar, algo que deveria ser encarado como desejável e absolutamente natural. Mas não é isso que vemos por aí.

Quantos pais conhecemos que se portam (ou tentam se comportar) como os próprios filhos adolescentes? Eu sei de alguns e digo com toda a sinceridade que, se fosse filho de uma destas figuras, pediria para ele crescer ou o esconderia de meus amigos e amigas. Algum tempo atrás, vi um homem de seus quarenta anos brigando com a mãe porque precisava de mesada – ele não era portador de necessidades especiais, na verdade, aparentava ser um sujeito articulado e desenvolto, embora metido em camiseta sem manga, bermuda e chinelão de dedo. Claro, ele é um exemplo caricato, exagerado e deprimente de um mundo que se recusa a crescer, mas talvez seja surpreendente saber que esta espécie não é tão nova assim. No livro Morte em Vezena, Thomas Mann narra o quase-encontro do personagem principal com um homem maduro cujas atitudes e vestes emulavam, da forma mais abjeta possível, seus acompanhantes jovens. A versão cinematográfica empresta imagem e maquiagem ao tal senhor, e confesso que ele não parece muito diferente do sujeito que o Tio Rei encontrou na fila do cinema, guardadas as óbvias diferenças de época.

Quero dizer então que devemos todos apagar nossos MP3s da Legião Urbana, queimar bonés e camisetas e ler Schopenhauer ao som de Gustav Mahler sentados na poltrona do vovô? Eu jamais disse isso. Quem me conhece beeeem de perto sabe que posso ser um completo e total palhaço às vezes (e quem me conhece ainda mais de perto com certeza acabou de pensar: “só às vezes?”), e com isso quero dizer que crescer não significa se tornar um chato. Mas acredito piamente que não deveríamos negar nem adiar as mudanças naturais que batem a porta da nossa mente, de nosso espírito. Mudanças que só nos fariam bem.

Peço a Deus (é, eu acredito) que eu possa envelhecer com suavidade, sem grandes tropeços, que eu tenha a oportunidade de aproveitar cada época com os instrumentos que ela me provê, e que todo tempo vivido sirva de arcabouço para apreciar o futuro incerto. Que, se eu tiver filhos e netos, jamais lhes diga que “no meu tempo era melhor”, porque os tempos passam, as pessoas e valores mudam e toda comparação se torna anacrônica. Que eu tenha o bom gosto de não torrar-lhes a paciência com histórias das minhas peripécias juvenis sem graça, mas que saiba encantar-lhes a alma com narrativas de deuses, guerras e personagens fictícios ou reais – não peço muito, não preciso ser Edward Bloom. O avô que jamais conheci, pois morreu na infância de minha mãe, era um homem simples e culto, que gostava de falar de planetas e história, e sempre olhava o céu com grandes olhos azuis (ah, se eu tivesse herdado esse gene!) à espera do Halley que o fascinara ainda moleque. Talvez eu seja mais parecido com ele do que penso – lembro-me de que um amigo de um amigo certa vez me perguntou como eu planejava viver a minha aposentadoria. Respondi que queria ter a sorte de me dedicar, única e exclusivamente, às pessoas próximas de mim e a livros e filmes de que gosto. Hoje eu emendaria: mas antes, quero envelhecer no tempo certo.

Ok, ok. Este último parágrafo ficou meio piegas, meio auto-ajuda e um quinto digno de Paulo Coelho. Nem vou mencionar o fato de conter um e outro trecho inspirado por idéias originalmente lidas no blog do Paulo Polzonoff, mas vai ficar assim mesmo. Qualquer coisa, a caixa de comentários está aí embaixo. Sinta-se a vontade.

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7 Respostas to “Eu quero envelhecer!”

  1. marie tourvel Says:

    É, Marcelo, querido, o Polzonoff anda meio auto-ajuda, sim, mas ele é bom. E você pode ser auto-ajuda quanto quiser, já que é ótimo. Eu quero envelhecer, mas só um pouquinho, tá? Beijos

  2. léo e só Says:

    olá Marcelo.

    Envelhecer é bem bom para todo mundo que é meio “freak”, pelo menos no meu caso. Eu, que nunca me enturmava, e adolescente só vive em coletivo, era só um pobrinho coitado. Agora não, e tenho dó nos que não conseguem envelhecer. HEHE.
    O problema e´qeu esses “tiozinhos adolescentes”, depois de 20 anos, se tornam verdadeiros “velhinhos infantis”. E tudo pode ter começado com o tiozinho da sukita. Eu sabia, era um mensagem subliminar. :)!

  3. léo e só Says:

    olá Marcelo.

    E não é que eu me toquei de uma coisa. Puro achismo!
    Quem tem medo de envelhecer , ou não quer envelhecer, simplesmente, foi alguém bem sucedido na juventude.
    Uma atleta; um pessoa bonita; um adolescente perspicaz para a idade dele, mas que na vida adulta é apenas um bom homem; enfim , gente que logrou algum sucesso na adolescência, e não quer perder isso já mais. Nem que para isso, esqueça que o tempo passa.
    Será?
    abs

  4. Marcelo Lopes Says:

    Marie,
    eu tb não quero envelhecer muito não, só a quantidade certa – ou um pouco menos do que isso, hehe. Eu tb gosto muito dos textos do Paulo, sempre estou por lá.
    Abraços!

  5. Marcelo Lopes Says:

    Léo,
    É verdade, acho que subestimamos o tiozinho Sukita presepeiro! De qualquer forma, concordo em parte com vc: tendemos a preservar o que nos agrada; para alguns, isso é a juventude.
    Mas não sei se é uma regra geral que os freaks são os que desejam envelhecer… eu, por exemplo, era um freakzinho adolescente e hoje… bem… é, foi um péssimo exemplo mesmo.
    Abraços!

  6. Mércia Says:

    Envelhecer ou amadurecer? A gente pode ser um moleque maduro, como você (isso foi um elogio!), ou um velho infantil e babaca. Eu sei que vou envelhecer, isso é fato, e almejo por amadurecer um pouco mais a cada dia.
    Um abraço.
    Mércia

  7. Marcelo Lopes Says:

    Mércia,

    (caraca, demorei a responder, hein?) Você tem razão, quando eu disse envelhecer estava querendo dizer amadurecer. E obrigado pelo elogio!!!

    Abs!
    Marcelo.

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