Adeus ao criador do Rocketeer (Rock o quê, meu filho?)

Sim, bem-vindos ao meu lado B. Eu li e leio quadrinhos, embora hoje em dia isso seja cada vez mais raro. Curiosamente, quando eu era (era?) moleque não gostava muito das histórias de super-heróis. Lembro-me de ter lido uma reimpressão do Flash Gordon de Alex Raymond e só. Em 1990, um colega de escola me emprestaria o Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller e, bom, aí eu comecei a ler este tipo de coisa. Mais ou menos nesta época, eu assisti a um filme muito, muito bacana: Rocketeer.

Como quase todo herói que se preza, Cliff Secord (interpretado por Bill Campbell) era meio lerdo. Um belo dia descobre uma roupa especial composta por uma jaqueta bacana, um capacete estiloso e uma mochila-foguete feia de dar dó. Descobre que a jaqueta e sua bunda não flambam quando ele liga o foguete, e ele logo aprende a voar (todo mundo cantando comigo: “Pense numa coisa bem boa/Que num instante você voa/Lembre o Natal a chegar/Pense em nuvens a passar e logo pelo ar/Vai voar, vai voar, vai voar…”), a combater o mal e proteger a namoradinha, interpretada por Jennifer Connely, do vilão canastrudo Timothy Dalton.

O filme era, na verdade, uma adaptação dos quadrinhos clássicos criados pelo desenhista Dave Stevens em 1982, que fazia uma homenagem às histórias pulp dos anos 30 e 40. Hoje em dia isso virou clichê, mas no longínquo segundo ano da penúltima década do milênio passado ainda era novidade. Stevens morreu de complicações ligadas a leucemia, e tinha apenas 53 anos. Era tarado fascinando por pinup girls e sua musa era a óbvia Bettie Page, que inspirava todas as suas ilustrações de mulheres. Mas sua grande criação ainda é Rocketeer: deliciosamente simples e quase ingênuas, suas histórias eram aventuras perfeitas para pirralhos e adultos que não têm vergonha de se divertir com coisas do gênero.

Não consigo mais ler quadrinhos comuns, a não ser histórias fechadas como a japonesa Death Note. É tudo grande demais, confuso demais, quase impossível de ser entendido por quem não passa horas lendo e fazendo conexões mentais amalucadas entre edições publicadas com meses, anos de diferença: virou uma arena habitada exclusivamente por nerds altamente especializados. I´m getting too old for this shit, diriam acertadamente Mel Gibson e Danny Glover. Apesar disso, não acredito em superioridade de uma arte perante a outra; acredito que há uns poucos artistas capazes de explorar a linguagem, as possibilidades e até mesmo as limitações (Jimi Hendrix fazia música com a baixa qualidade dos equipamentos de então) que uma arte oferece e criar grandes obras. E isso vale até para os quadrinhos. Basta ler Avenida Dropsie, Maus, Watchmen ou Persepólis para ver exemplos perfeitos disso.

Mas estas são obras voltadas para um público menor, mais seletivo. No imenso mercado das leituras em quadradinhos, a simplicidade, o senso de diversão e o frescor de personagens como o Rocketeer de Dave Stevens fazem muita falta.

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2 Respostas to “Adeus ao criador do Rocketeer (Rock o quê, meu filho?)”

  1. léo e só Says:

    Olá Marcelo.

    Eu Também li muito quadrinhos, aliás aprendia gostar de histórias com quadrinhos. Mas hoje, acompanhar mensalmente a publicação é loucura mesmo. As editoras criaram uma verdadeira máquina de faturamento.

    Pra entender uma única história, é preciso comprar todos os quadrinhos durante o ano, fora as edições especiais que “explicam” coisas que não foram explicadas nas mensais. É um absurdo. Saudade daquelas simples HQs.

    Hoje prefiro gastar um pouco mais com histórias fechadas.

    Semana passada li Maus, e realmente aquilo é bom demais, é mais profundo e complexo do que muito roamnce considerado “bam-bam-bam”

    abs

  2. Marcelo Lopes Says:

    Léo,
    Maus é uma obra-prima. Sou fã também.
    O que eu acho engraçado sobre as editoras de quadrinhos é que parece-me um consenso de que há pouquíssima renovação de leitores – a molecada lê cada vez menos HQs. A gente pode culpar o MySpace, o MSN e o PS2, mas esta máquina de faturamento das editoras tem uma participação bem generosa nisso tb.
    Mas, enfim, estamos falando apenas do mercadão norte-americano… ainda existem o europeu e o japonês e os independentes dos EU e A.
    Abs!
    Marcelo.

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