O dia em que Shakespeare escreveu uma mensagem de auto-ajuda

Isso aconteceu há mais ou menos um ano, quando recebi um arquivo PowerPoint (se Dante estivesse vivo, colocaria os criadores de spam num dos círculos dos quintos dos infernos e os obrigaria a ler mensagens em Ponto do Poder até o final da eternidade) intitulado “Um dia você aprende que…”. A leitura da tal mensagem deixava bastante claro que era mais provável ter sido escrita por um urso manco, vesgo e poliglota da Tasmânia do que por Shakespeare. Aliás, nem é preciso ter lido ou assistido a uma das peças do bardo: bastava lembrar-se dos filmes recentes de Franco Zeffirelli ou Kenneth Branagh para perceber que havia algo de muito errado naquela atribuição de autoria.

Pois bem: graças ao trabalho de Vanessa Lampert, do blog Autor Desconhecido Não Existe (estou me segurando para não fazer uma piada besta envolvendo o Padre Quevedo), descobrimos a verdadeira história deste texto. O poema chama-se After a While, é de autoria de Veronica Shoffstall e foi publicado em 1971 quando ela tinha meros 19 anos no livro de conclusão do ensino médio. Isso mesmo: algum tresloucado resolveu espalhar que um poeminha adolescente de caderno de escola seria obra de Shakespeare. Até hoje, muita gente deve achar que ele era um gênio porque previu não apenas o surgimento do gênero da auto-ajuda, mas também a dominação mundial das caixas de entrada de e-mails por arquivos PowerPoint.

A autoria equivocada de textos existe desde sempre; ainda há discussões acaloradas entre especialistas sobre quais seriam verdadeiramente as obras de Homero, milênios depois de terem sido escritas. A internet só ofereceu meios de disseminação mais rápida do engano. O problema é que, ao lado da autoria equivocada está o enxerto vergonhoso. Não contente em atribuir o texto ao primeiro famoso que lhe vem à cabeça, o sujeito resolve enxertar ali suas próprias intervenções criativas; o resultado final é sempre muito pior do que o original. Felizmente, neste post, o Alessandro Martins diz que vai continuar o ótimo trabalho da Vanessa, descobrindo os verdadeiros autores de textos que circulam pela internet. Metade das crônicas atribuídas a Martha Medeiros e Luís Fernando Veríssimo mudarão de donos.

Só para encerrar, como de praxe, com algo que parece não ter nada a ver com o post: Sempre fiquei intrigado com estes livrinhos “1000…para…antes de morrer”. Mesmo o mais ferrenho adepto da divertida cultura de almanaque não deixará de se sentir um tanto frustrado por não cobrir sequer a metade da lista de lugares imperdíveis indicados pelo “1000 lugares para se visitar antes de bater as botas” ou das obras em “1000 livros para se ler antes de abotoar o paletó”. Talvez eu me sinta assim porque não acredito em reencarnação; um espírita deve comprar um livro destes e pensar: “bom, se não der nesta vida, na próxima eu chego pelo menos até a página cento e cinqüenta”. É uma moda literária que passará logo e nem deixará rastros, mas antes do esquecimento total, pretendo lançar o meu “1000 tosqueiras a se fazer antes de partir desta para pior”, que contava até agora com apenas duas ações:

1. Levar um vegetariano para almoçar no Porcão;

2. Bagunçar o topete de um emo.

Pois toda esta história inspirou a criação da tosqueira número três:

3. Enviar o arquivo PowerPoint “Um dia você aprende que…”, com música de Kenny Gee e suposta autoria de Shakespeare, para o e-mail do Harold Bloom (é, eu sei, piadinha infame só para quem gosta de literatura).

Ademais, o único livro de auto-ajuda que deve valer a pena é este aqui, a julgar pelo título e autores.

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10 Respostas to “O dia em que Shakespeare escreveu uma mensagem de auto-ajuda”

  1. Alessandro Martins Says:

    Jamais leve um vegetariano para almoçar em um restaurante vegetariano. A maioria deles – não todos – prepara comida sem tempero, como se fosse para doentes.

    O melhor lugar para levar um vegetariano é uma churrascaria. A mesa de frios é ótima e sempre há opção de massas muito bem preparadas.

    😉

    Abraços do Alessandro.
    (vegetariano).

  2. Alexander Says:

    Muito interessante o post, Marcelo. Embora eu já tenha sentido um certo “descasamento de impedância” em algumas das (pouquíssimas) mensagens desse tipo que eu já li, nunca tinha pensado nisso.

  3. marie tourvel Says:

    Eu recebi este e-mail, Marcelo. Só que a música era Piazola, as imagens, quadros de Van Gogh. Ok, achei bonitinho, vai. Sua indicação de livro para auto-ajuda é ótima. Tem um, que não classificaria exatamente como auto-ajuda, mas é muito bom, “Sobre Falar Merda” de Harry G. Frankfurt. Mas até que poderia estar nas boas casas do ramo como auto-ajuda. Afinal fui a uma livraria noutro dia e encontrei Proust na prateleira de auto-ajuda.:) Sobre tosqueiras para se fazer antes de virar presunto, tem uma que não me sai da cabeça: discutir com 4 ou 5 amigos a profundidade da obra de Sidney Sheldon. ´Quer participar? Só não vale falar mal da série I dram of Jeanie, tá bom? Beijos, querido

  4. léo e só Says:

    olá Marcelo

    Que tal levar um emo vegetariano no Porcão, e lá, cortar uma daquelas franjas. ISSO!!! Radical de mais:)!

    abs

  5. Marcelo Lopes Says:

    Alessandro, só posso dizer isso: vivendo e aprendendo, hehe. Eu não tenho nenhum amigo vegetariano, então não sabia deste detalhe… O curioso é que eu, mesmo sendo um incorrigível onívoro, prefiro a salada com o mínimo de tempero possível ou mesmo nenhum. Todo mundo acha isso meio esquisito aqui.
    Abs!
    Marcelo.

  6. Marcelo Lopes Says:

    Alex, vou adotar esta expressão: “descasamento de impedância”, gostei. Espero que não cobre direitos autorais…
    Abs!
    Marcelo.

  7. Marcelo Lopes Says:

    Marie, eu jamais falaria mal de I dream of Jeanie. Desde menino eu torço para achar uma garrafa daquelas! Ah, eu já quase participei de um debate profundo e inspirador sobre Dan Brown, mas Sidney Sheldon ainda é imbatível!
    Quanto a mensagem, vc teve sorte de receber esta versão, a minha tinha fotos dos bebês da Anne Gedes e uma musiquinha frouxa. Não, não sou um insensível, claro que gosto de bebês, mas, depois de 2 anos recebando arquivos PPS, vc já viu todas as fotos de nenês fofos produzidas desde 10.000 a.C.
    Abs!
    Marcelo

  8. Marcelo Lopes Says:

    Léo, rolei de rir com a sua sugestão! É a versão punk das tosqueiras!
    Agora, falando sério (ou não): Se eu fosse pai hoje em dia, faria promessa: ajoelharia no milho e recitaria Camões de trás para frente toda noite para que meu filho não resolvesse virar emo…
    Abs!
    Marcelo

  9. Mara Says:

    Que bom que as vezes acesso os sites que possam me entorpecer de tanto entendimento sobre literatura.Tornam-se liricos ao declarar tanta sabedoria.Insensível é aquele que não mede palavras para fazer-se entender ….
    Muito bem…Isso mesmo …

  10. Marcelo Lopes Says:

    Mara,
    Muito obrigado, mas ainda estou a léguas de entorpecer alguém com conhecimento em literatura. No máximo, dá para ficar alegrinho…
    Abs!
    Marcelo

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