Perseguindo Nisus (bifurcação), a salvação genética – Parte II

O Léo, do Dança Fragmentada, me convidou para participar de uma bifurcação do projeto Memistória. E eu aceitei, claro. Infelizmente, por culpa de uma semana por demais complicada, acabei postando a segunda parte apenas hoje. Sorry.

Para entender esta história toda, minha sugestão é ler o post original dele, aqui. E, claro, leia a primeira parte que ele escreveu, e da qual gostei muito. Tentei seguir a mesma linha, bem B mesmo, história em quadrinhos. Espero ter conseguido, apesar de ter ficado mais longo do que pretendia a princípio.

Perseguindo Nisus, a salvação genética – Parte II

Quase não conseguiu manter o cinismo do sorriso; o chefe estava a um segundo de perceber que estava apenas dissimulando o pavor. Somos os dois homens de batalhas, de lutas, deveríamos já estar acostumados a estas trocas de insultos velados antes do embate, pensou. Resolveu continuar atuando, com um tom de voz quase ofensivo:

– E o que você quer hoje, chefe?

Ele esboça um sorriso que levanta a cicatriz e aperta o olho leitoso, vítreo:

– Nada de mais; só quero te mostrar que toda sua luta foi em vão.

Nisus aperta os dedos, sente as mãos pulsarem. Será que o chefe já sabe que a menina morrera dois anos atrás? Que ela foi vitimada exatamente por ser um experimento genético mal-sucedido? E a isso que ele se refere falando em luta vã?

O chefe vira o rosto para a direita, em direção a uma porta que se abre lentamente:

– Vanessa, diga alô para o tio Nisus.

Uma menina, em tudo idêntica àquela que Nisus protegeu, levou a centros de pesquisa, hospitais, até ao louco que o criara, entra. O gênio criativo e perverso do chefe se revela nos detalhes macabros: a menina veste a mesma roupa daquele dia, da última luta. Até a cor do laço, displicentemente repousado sobre um redemoinho dos longos cachos castanhos, é o mesmo.

– Não, é loucura, você não…

– Quando a minha equipe recuperou meu corpo, a última coisa que ordenei antes de ficar inconsciente foi que revirassem o lugar a procura de cabelos, pele, saliva, qualquer coisa, qualquer resquício orgânico da menina.

Vanessa – Nisus não conseguia se acostumar a este nome – abraça as pernas do chefe e sorri, encarando-o.

– O resto foi fácil. Na verdade, eu deveria ter feito “isso” antes.

Quando o chefe termina de dizer a frase, outra menina sai da porta. E outra. Mais uma. E logo, dezenas delas, como versões minúsculas e femininas de Agentes Smith, todas pateticamente idênticas, estão ao lado do chefe, encarando Nisus, que não consegue reagir a não ser com um grito que se torna um urro:

– Todas elas morrerão! Todas! Você não percebe que o seu experimento fracassou? Você condenou todas elas a uma morte horrível, eu vi, eu sei o que eu estou dizendo!

As meninas se afastam. Uma delas grita, puxam-se de um lado para outro, cochicham assustadas. Mas não fogem.

– Eu também sei. – o chefe sorri – E sabe o que mais eu sei? – aponta para o antigo aprendiz – Que você descobriu como evitar a degeneração gênica delas. Mas era tarde demais para ajudá-la.

O doutor. Não, não há outra forma de o chefe ter descoberto tudo isso, a não ser que ele tenha entrado em contato com o doutor, o homem que tentou salvar a menina, que me ajudou, pensa Nisus. O doutor morreu num acidente de carro, eu fui ao seu velório.

– Bom, eu nem deveria esclarecer a coisa toda, mas você sempre foi meu aluno mais lento, apesar de aplicado e inteligente. Se você quer salvar estas meninas, vai ter que me entregar a cura para a degeneração delas, antes que ela comece. Mas, ah, a ironia, como eu gosto disso… Deixe-me lembrar daquela noite, das suas palavras exatas… Como foi mesmo que você chamou a menina?

Nisus, de cabeça baixa, sente o ódio vibrando em seu pescoço, nos dentes crispados, nas mãos tensas, todo o corpo pronto para atacar, impedido pela consciência e responde, quase num sussurro:

– Porta para o genocídio.

– Isso. Você salva essas meninas aqui e me dá a chave da porta para o genocídio.

Ele olha para elas. Em todas, a inocência que ele já vira definhar em salas de cirurgia, tumores internos capazes de enlouquecer um soldado, UTIs, bombardeio de antibióticos poderosos e inócuos, até o fim silencioso, ela abraçada ao seu ombro, quase irreconhecível.

– A decisão é sua, Nisus.

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5 Respostas to “Perseguindo Nisus (bifurcação), a salvação genética – Parte II”

  1. léo e só Says:

    Olá Marcelo.

    Ficou bem supimpa! Coisa de quadrinho mesmo; digna de um Warren Ellis com seu Autohrity ou Planetary (eu sei, sou um fã convicto de uma história com ação e elementos estranhos.
    gostei muito da referência ao agente Smith, nada mais B e conhecido do que aquela famosa cena.
    Agora é só estender o convite para alguém, mas já vou avisando, a continuação ficou tão boa, que coçou a minah mão. hehe. :D!

    abs

  2. marie tourvel Says:

    É minha vez, Léo, minha vez. Darei continuidade. Só me dá um tempinho, já que estou na senzala desde ontem. Até o anoitecer termino a continuação e colocarei em meu bloguinho. Aguardemmmm. Beijinhos a todos…

  3. léo e só Says:

    Olá Marcelo e Maire.

    que legal vc dar continuidade!!! sem pressa, sem pressa,.

    e boa páscoa pra vocês :D!!

  4. Marcelo Lopes Says:

    Léo,
    Que bom que gostou! Eu tb pensava em reunir elementos bem esquisitos mesmo, porque eu gosto…hehe!
    E agora a história está em ótimas mãos: a Maire vai continuar!

    Abs!
    Marcelo.

  5. Marcelo Lopes Says:

    Marie,

    Não tenha pressa, mas estamos ansiosos…hehe..

    Abs!
    Marcelo.

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