Herdeiros

Meu pai não me deixou herança; na verdade, o tema me desperta pouco pouco interesse. Jamais imaginei que meus pais ou qualquer outro familiar tivesse a obrigação de me legar terras, imóveis ou papagaios que saibam xingar em alemão. Não é uma questão de grandeza, pois sou tão pequeno quanto qualquer outro: apenas aconteceu de eu não dar importância alguma a questões de herança. Tivesse sido eu beneficiário de alguns bens, de pouco ou vultuoso valor, e minha opinião seria diferente? Provavelmente sim, embora eu tenha a impressão de que algumas pessoas são mais influenciadas pelos valores que adquiriram ao longo da vida do que pelas circunstâncias temporárias – e ainda acredito que eu seja razoavelmente assim. É curioso dizer isso, porque hoje em dia estou indiretamente ligado a uma pequena disputa que está caminhando para um desfecho adequado e desinteressante do ponto de vista dramático.

Sempre me interessaram os herdeiros, não de fortunas, mas os de obras artísticas. E, mesmo estes, apenas como personagens, jamais tentei pensar neles como pessoas comuns. É um clichê recorrente imaginá-los como filhos frustrados de gênios, resignados a usufruir do (geralmente modesto) legado financeiro que os direitos sobre as obras ma/paternas lhes proporcionam. Talvez seja um julgamento cruel, mas talvez também guarde um pouco, ou um bocadinho, de verdade. Não citarei casos por uma razão muito simples: não conheço pessoalmente os envolvidos, apenas o que li em jornais e blog. Mas posso citar o personagem daquele livro do Nicky Hornby, Um Grande Garoto/About a Boy, que, na verdade, eu não li, apenas assisti a adaptação cinematográfica com o Hugh cara-de-chiuaua-barrado-na-porta-da-igreja Grant e a ótima Toni Collette. Grant interpreta Will Freeman, um sujeito egocêntrico e imaturo que vive dos direitos autorais da música de Natal comporta pelo próprio pai. Sua relação com esta herança é ambígua: se por um lado, não se nega a aproveitá-la prolongando indefinidamente a adolescência, por outro, não suporta sequer ouvir a tal canção, que acaba funcionando como um grilo falante a atormentar-lhe a consciência.

De certa forma, meus personagens herdeiros estão neste limite também, ou melhor, eu os imagino assim. Em especial num país em que, para voltar à seara que conheço um pouco mais, a literatura rende tão pouco, com as exceções de praxe, viver da herança de direito autoral de um escritor é, para não ser grosseiro, um exercício de modéstia material. Mesmo que o autor tenha a sorte de entrar no pacotão dos livros escolares, a coisa não rende muito. Há uma mistura de ressentimento, infelicidade e completo despudor em se fazer uso deste ganha-pão minguado e sofrido. Digo mais uma vez: Assim imagino os meus personagens de uma história que um dia escreverei, não é de forma alguma uma opinião, ou um achismo, sobre pessoas reais que eu sequer conheço.

Não sei se isso interessa a alguém além de mim, mas eu me lembrei agora mesmo de que já escrevi um conto com um personagem assim, uns seis ou sete anos atrás. Talvez, se eu o encontrar, acabe publicando aqui no blog mesmo. Ou, o que é mais provável, me perca em longas revisões até chegar a uma versão que me agrade. Neste dia, terei me esquecido de que já havia pensado em publicá-lo na internet e ele voltará a gaveta, digo, pasta do Windows.

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