Mensagem para Você

É bastante comum, e certamente já aconteceu com todo mundo: quando lhe indicam um livro, um filme ou uma peça, o bem-intencionado a descreve como possuindo uma “mensagem bonita”. Eu sempre fico na dúvida sobre o quê isso quer dizer; se a pessoa está sendo irônica ou se realmente acredita na necessidade de uma obra de arte “passar uma mensagem”. Na maioria das vezes, se enquadra no segundo caso. Nada contra, claro. Aliás, pouco me importa o que as pessoas procuram num livro – e, não, não é uma postura arrogante da minha parte, mas de tolerância pessoal. Se o seu intento é emular Oprah Winfrey e extrair verdades práticas e comezinhas dos livros de Toni Morrison, esteja a vontade. Só não conte comigo.

Em parte, esta tara pela mensagem parece-me ligada a uma cultura muito forte no nosso tempo, que, na falta de termo melhor, chamarei de “praticização da existência”, um palavrão feio e ridículo para dizer o seguinte: as coisas só têm valor se delas puder ser extraído algum resultado prático, imediato. Parece absurdo, mas numa era de informação, estamos nos tornando criaturas com pouca capacidade de abstração. Eu, que trabalho com Tecnologia de Informação, vejo isso continuamente: pessoas inteligentes e curiosas com imensa dificuldade em entender coisas como “arquivo de computador”, “post no blog” e “arquivo mp3”, só para citar alguns exemplos. Por outro lado, vemos pipocar uma quantidade imensa de canais de televisão, livros e sites que tentam nos ensinar a resolver problemas práticos – de separar as roupas antes de colocar na máquina de lavar a melhor roupa para ir a um casamento.

Por outro lado, há o ópio dos intelectuais, claro. Para uma parcela considerável dos intelectos tupiniquins, uma obra de arte só tem valor se dela puderem ser extraídas lições sobre as luta de classes, a supremacia do socialismo e a maldade inerente ao capitalismo – um amontoado de idéias anacrônicas de relativo sucesso entre parte das hostes estudantis e seus mestres. Já li interpretações marxistas até de Matrix. De qualquer forma, não é sobre este tipo de mensagem de que trato aqui. Voltemos.

No nosso tempo, é preciso encontrar uma função prática para a arte, e é neste buraco sem fundo onde entram as tais “mensagens”. Geralmente, espera-se encontrar numa obra de arte um subtexto edificante ou redentor, que sirva de lição ou alívio para o leitor. É perfeitamente compreensível que se busque um contraponto menos dramático às nossas vidinhas atribuladas, e eu mesmo conheço boas pessoas que ficariam aterrorizadas diante da idéia de ler um romance que não é “de (argh!) bem com a vida”. Isso acaba naturalmente afastando muita gente boa da grande literatura de ficção que, convenhamos, em sua maioria narra histórias que são uma desgraceira só; basta ver as atribulações a que são submetidos Anna Karenina, Hamlet, Raskolnikov ou Dom Casmurro. De resto, parece-me que o conceito de catarse está sendo tragado rapidamente pela ditadura da auto-ajuda: não apenas estamos nos tornando alérgicos a (inevitável, meu Deus) possibilidade de sofrer como a rejeitamos agora até mesmo na ficção.

Há ainda uma absurda idéia do que seja arte; também ela submetida agora ao crivo da praticidade. Não custa citar Oscar Wilde novamente, e é sempre bom relembrar: arte não serve para nada. Lembro-me bem de uma vez ter sido indagado sobre qual a mensagem que as vaquinhas coloridas da Cow Parade queriam passar; fiquei sem resposta e simplesmente balbuciei um “nada” entre os dentes. Minha interlocutora insistiu e eu quase citei o dândi loucão inglês, mas me contentei em explicar que “cada artista dava a tal vaca o significado e a cara que bem entendesse”, ou coisa parecida. O que ela talvez não tenha entendido é que, se a arte não serve para nada, significa exatamente que ela se amolda à vontade do artista e que depende unicamente dele (e não do tempo, da história, da luta de classes, etc, etc e mais um etc) conferir-lhe qualidade e, digamos, profundidade.

“Mensagem”, ou coisa que o valha, não piora nem melhora uma obra de arte ruim. E fica bem melhor naqueles arquivos Power Point com filhotinhos de cachorros e trilha sonora de Kenny Gee do que na estante de uma boa livraria.

A propósito: Este artigo de Leandro Oliveira, Romance de Idéias.

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8 Respostas to “Mensagem para Você”

  1. léo e só Says:

    olá Marcelo( é meio esquizofrênico dar olá duas vezes).

    Não é só na literatura esse problema . O teatro sofre e muito com isso.
    As obras, artistas e públicos estão perdendo o mais bonito da arte, a complexidade.

    abs

  2. marie tourvel Says:

    Oi, Marcelo, querido, conheço um amontoado de gente que diz que tal livro, tal filme, tal peça, possui uma mensagem. Bobagem. Se eu procurasse mensagens cifradas nos livros que li, estava lascada. Li de tudo nessa vida, mas ainda não consegui aprender a mexer na droga do computador direito. Cê me ensina? Beijos

  3. Marcelo Lopes Says:

    Léo,

    Li seu post sobre o impacto das leis de incentivo no teatro e talvez haja alguma relação nisso aí. De qualquer forma, quando leio os jornais, tenho a impressão de quase só haver peças de humor que parecem saídas do Zorra Total.

    Abs,
    Marcelo.

  4. Marcelo Lopes Says:

    Marie,

    Acho um porre esta história de “mensagem”, sempre acho que a obra está me tratando como criança, querendo me dar uma lição de moral. Só falta o leitor ser convidado a procurar pelo Geninho no meio do texto (sim, isso foi uma citação ao desenho animado He-Man…).

    Abs,
    Marcelo.

  5. Mércia Says:

    Oiê!

    Veja as peças do Rodin, a arquitetura bizantina ou as pinturas renascentistas. Precisam de explicação? De mensagem subliminar? A gente vê, aprecia, se emociona, percebe o quanto um ser humano pode ser genial e fica com essas sensações para o resto da vida. Isso é arte. O resto é brincar de ser artista. Daqui a alguns anos as pessoas vão se lembrar da Cow Parade como simplesmente umas vaquinhas pintadas colocadas pela cidade. Pura brincadeira.

    Mercinha

  6. Marcelo Lopes Says:

    Mércia,

    E nós, belo-horizontinos, jamais devemos nos esquecer que já tínhamos nossa vaquinha pintada muitos anos antes da Cow Parade!
    Acredito eu, com meu conhecimento de enciclopédia de bolso, que o primeiro nível de relacionamento com qualquer obra de arte é emocional – pulemos o sensorial. É difícil apreciar uma obra que não nos diz nada e, não raramente, desprezamos obras fantásticas porque simplesmente não nos disseram coisa alguma emocionalmente.
    Depois, claro, podemos pensar, racionalizar, estudar e descobrir detalhes que nos fazem apreciar ainda mais a tal arte. É interessante ler um livro como “Para Entender a Arte”, de Robert Cumming, porque ele nos mostra também toda uma gramática e referências que os grandes artistas colocaram em suas pinturas. Isto é uma mensagem? De certa forma, sim. Mas elaborada de uma forma muito mais elegante e interessante do que algumas vulgaridades contemporâneas.
    Só para encerrar, existe gente que sabe tudo sobre uma arte e não gosta dela? Sim, há. A maioria dos especialistas em literatura age apenas como um biológo dissecando uma minhoca; sem amor algum a arte que domina tão bem. É uma pena.

    Abs,
    Marcelo.

  7. léo e só Says:

    olá Marcelo.

    Só agora li seu olá.

    É realmente terrível, de um lado a coisa mastigadinha, mastigadinha; do outro, os artistas que acham que fazer arte é complicar tanto que só com manual técnico é que vai; no meio nós o público, que ou fica só com clássicos ou faz garimpo.

    abs

  8. De novo, o sentido da arte? « Universo Tangente Says:

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