Você já pensou na sua aposentadoria?

Pois é, eu já.

Trabalho numa empresa de grande porte, com alguns milhares de funcionários. Ela acaba de lançar um programa motivacional que consiste, a grosso modo, em prover mecanismos formais para que os profissionais que estão prestes a pendurar as congas possam transferir a experência acumulada em anos e anos de labuta para os moleques, digo, possíveis sucessores. Eu ainda pertenço a turma dos moleques e, no andar da minha atual carruagem corporativa, jamais serei sucessor de coisa alguma, logo, o programa pouco me afeta diretamente hoje em dia. Mas não deixou de me surpreender a gana com que muitos senhores e senhoras protegem o tal conhecimento adquirido com a longa experiência e relutam firmemente em repassá-lo.

O quê se ganha com isso? O que fazer com um conhecimento (em raríssimos casos, até mesmo sabedoria) que não lhe será mais útil? Ou estou enganado, e conhecer os meandros da burocaria do setor de RH será útil na hora de fazer as malas para viajar para Pindamonhagaba? Ou decifrar as sutis expressões corporais dos oponentes no buraco (jogo)? O sujeito que resiste a transmitir o que sabe na verdade reluta em abandonar o seu trabalho formal. Compreende-se também, afinal, poucos, pouquíssimos de nós, se prepara para largar o emprego-de-oito-horas-diárias; a iminência do prazo final deve ser uma perspectiva aterradora para alguns. Logo, defenderão com unhas e dentes o que descobriram com esforço e sacríficio. O que não deixa de ser um ato de egoísmo, de apego inútil a algo que pouco lhes fará diferença agora.

Tenho sido bastante seletivo com o que aprendo, ou pretendo aprender. Não tenho neurônios suficientes para uma enciclopédia, então cuido para que a informação que eu absorva me traga: 1) prazer intelectual; 2) prazer besta; e que, 3) tenha relação com os meus valores e as coisas que eu devo saber e fazer. Só para divagar um pouco, vocação, no seu significado religioso original, é aquilo que se deve fazer, mesmo que cause imenso trabalho e até dor; logo, não está necessariamente ligada a aptidões inatas: é neste sentido que uso o termo “devo saber e fazer”. Aprendi a selecionar melhor as, digamos, disciplinas que preciso e desejo aprender, especialmente na minha profissão de TI: no momento, estudar sobre gerência de projetos me parece mil vezes mais interessante do que aprender a programar em Lisp (não se preocupe se você não entendeu, meu mundinho profissional é bizarro para quem o vê do lado de fora). O mesmo vale para meus interesses pessoais: se tenho, para citar contemporâneos, António Lobo Antunes, para quê perder tempo com Dan Brown? Por outro lado, para não virar um chato, mantenho uns doze ou quinze neurônios gordos e bem-alimentados, que sempre gritam bem lá do fundo do cérebro: “Cala a boca, relaxa e se diverte!”, o que me permite apreciar obras feitas apenas para distrair. Lembra o prazer besta de que falei? É isso.

No entanto, e aqui está o que acredito ter sido uma conquista pessoal, estou disposto a abrir mão deste conhecimento quando ele não fizer mais sentido para mim. Posso, e me sentirei até feliz, em transmiti-lo a alguém que faça bom uso dele. E chegamos ao título do post: sim, eu já pensei em minha aposentadoria. E pensei nela motivado pela pergunta de um amigo de um amigo meu: “E você, Marcelo, sabe o que fará quando se aposentar?”. Demorei alguns segundos apenas, depois de consultar os neurônios chatos e os doze ou quinze palhaços da turma do fundão, e o que formulei foi, na verdade, uma declaração de valores. Gostaria de poder me dedicar a uma vida inteiramente intelectual, cercado de livros e bons amigos. Não quero mais me envolver com a criação e gerência de sistemas de informação, mas usá-los para escrever e me conectar com outras pessoas. Gostaria de ter uma biblioteca, não muito grande, mas essencial, com os livros de que gosto mesmo se eu não os tiver lido. Se Deus me permitir, algo a que Lhe seria eternamente grato, gostaria de, como hoje, não estar sozinho (Todo mundo cantando comigo: When I get older losing my hair/Many years from now/Will you still be sending me a valentine?/Birthday greetings bottle of wine…) e ter alguns poucos e bons amigos. Se eu vier a ter netos, quero entretê-los com histórias de naves espacias, duendes e dragões e não com impropérios ridículos sobre como tudo era melhor no meu tempo. Disse também que eu moraria ainda numa grande cidade, ao contrário da maioria que deseja se mudar para o interior, porque velhinhos precisam de bons hospitais ao alcance de um telefonema. E que desejo ter algum dinheiro, mais do que o suficiente, para tudo isso.

Mas não mencionei o que está nas entrelinhas: quero me livrar de todo o conhecimento que não me for mais interessante; passo todo ele, se eu o tiver, com prazer para quem desejar ouvi-lo. Quero ter a grandeza do desapego ao que deixar para trás: emprego, rotinas, chefes, burocracias, relações impessoais. Desejo ficar apenas comigo mesmo, minha companheira, meus amigos, livros e filmes. Uma felicidade sem arroubos, apenas tranquila e delicada, como um sorriso leve que quase não percebemos se formar quando nos encontramos com aquela a quem dedicamos nosso silêncio mais amigo, cúmplice e amoroso.

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