Eu não iria escrever sobre isso, mas…

Nota bem após a publicação:Uma amiga muito querida alertou-me para o fato de este texto parecer dizer que a mídia não deveria cobrir casos assim. Não concordei totalmente com ela, mas já que houve esta interpretação, julguei que seria interessante reforçar o ponto de vista que desejei expressar. Sou um defensor intransigente da liberdade de imprensa sim, jamais quis dar a entender o contrário; em minha opinião, os excessos que venham a ser cometidos pela imprensa são efeitos colaterais naturais e esperados da liberdade. Reitero o que vai abaixo: o caso Isabella me incomoda profundamente, além das razões óbvias, porque não acredito na sinceridade da comoção coletiva – muitos dos que hoje choram o assassinato cruel de uma criança não estão dispostos a mudar uma certa cultura da brutalidade contra os pequenos que já faz parte deste país. Este é ponto, digamos, periférico, que me incomodou terrivelmente no caso.

O caso Isabella. Toda a movimentação midiática em torno de um crime escabroso e aparentemente incompreensível já é esperado, embora este caso esteja extrapolando os limites que já exploramos antes. Se já é insuportável ter que ouvir especialistas dando entrevistas conflitantes a todo momento na TV e internet, ter de ouvir as mesmas coisas de amigos e parentes mil vezes ao dia é algo próximo da tortura. Então decidi não acompanhar o caso, não por desumanidade, mas por respeito a vítima.

Digo isso porque parece-me que as pessoas acompanham este caso como se ele fosse um episódio de CSI ou de Law and Order; como se a solução do crime fosse aparecer em 40 minutos de investigação, descontados os intervalos comerciais. Na verdade, a aglomeração incomum ao redor deste assassinato torpe diz mais sobre elas do que imaginam; é como se, ao interpretar este personagem profundamente indignado, estamos (sim, eu me incluo) tentando nos distinguir “deles”. E no meio de toda esta indignação, há sim, aqueles que por pouco, muito pouco, já quase não causaram ferimentos severos em seus filhos. Mas estar ali (n)os expia desta culpa tenebrosa – ou, melhor dizendo, no expia do medo indescritível que a possibilidade de sofrermos desta culpa no futuro nos causa.

Por isso eu não iria escrever nada sobre este caso até me deparar com um artigo de Contardo Calligaris na Folha de São Paulo, do qual me limito a transcrever alguns trechos. O artigo completo é exclusivo para assinantes e pode ser encontrado aqui.

Eles realizam uma cena da qual eles supõem que seja o que nós, em casa, estamos querendo ver. Parecem se sentir investidos na função de carpideiras oficiais: quando a gente olha, eles devem dar evasão às emoções (raiva, desespero, ódio) que nós, mais comedidos, nas salas e nos botecos do país, reprimiríamos comportadamente.[…] Pelo que sinto e pelo que ouço ao redor de mim, eles estão errados. O espetáculo que eles nos oferecem inspira um horror que rivaliza com o que é produzido pela morte de Isabella.Resta que eles supõem nossa cumplicidade, contam com ela.[…]As turbas servem sempre para a mesma coisa. Os americanos de pequena classe média que, no Sul dos Estados Unidos, no século 19 e no começo do século 20, saíam para linchar negros procuravam só uma certeza: a de eles mesmos não serem negros, ou seja, a certeza de sua diferença social.[…]A turba do “pega e lincha” representa, sim, alguma coisa que está em todos nós, mas que não é um anseio de justiça. A própria necessidade enlouquecida de se diferenciar dos assassinos presumidos aponta essa turma como representante legítima da brutalidade com a qual, apesar de estatutos e leis, as crianças podem ser e continuam sendo vítimas dos adultos.

Atualização: Só agora li o ótimo post do Alessandro Martins sobre o caso. Vale a pena lê-lo também.

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2 Respostas to “Eu não iria escrever sobre isso, mas…”

  1. Alessandro Martins Says:

    Obrigado pela indicação… acho maluco esse interesse mórbido que as pessoas têm por qualquer coisa que esteja fora da vida delas, seja um acidente pelo qual passam devagar no meio do trânsito ou por um assassinato na tevê. Não consigo mesmo entender…

    Abraços!

  2. Marcelo Lopes Says:

    É um comportamento bem estranho mesmo, Alessandro; embora eu também não o entenda, não posso me considerar completamente livre dele…

    Abs!

    Marcelo

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