Donnie Darko

Tanto o nome quanto a imagem no banner deste blog vieram do filme Donnie Darko , espécie de cult movie juvenil nerd produzido em 2001 pela atriz Drew Barrymore e dirigido e escrito pelo iniciante Richard Kelly. Já o havia assistido uma vez, mas de forma desatenta, e a bizarra história me pareceu mais complexa do que realmente é. Reassiti a produção poucas horas atrás com mais cuidado – e, obviamente, já sabendo de antemão as surpresas da trama. Há vantagens óbvias na segunda sessão de um filme de que se gosta: maior atenção aos detalhes, um leve amadurecimento do olhar; vantagens que superam o risco da decepção tardia.

Antes de qualquer coisa: Donnie Darko não me decepcionou. Continuo achando que a atmosfera do filme só se beneficia do fato de ele se passar no final dos anos 80 e usar de músicas daquele tempo na sua trilha sonora – basicamente, INXS, Echo and the Bunnymen, Joy Division, Tears for Fears e Duran Duran. Aliás, a atmosfera que Kelly imprime com disciplina aqui talvez seja a coisa mais interessante do filme. Assim como em outras produções, como Ponte para Terabítia (sim, eu estou apontando para o meu próprio blog, que vergonha), a adolescência em Donnie Darko é algo confuso, estranho, um tanto tediosa e irritante, menos aborrecida para se atravessar graças a uns poucos amigos. A direção de Kelly é segura, quase acadêmica, já fazendo uso de alguns truquezinhos de estilo (câmera acelerada sem muita razão aparente) que hoje são carne de vaca louca, escolhendo enquadramentos que reforçam os dois pontos de apoio do roteiro: a solidão de Darko e seu crescente distanciamento da realidade.

Para quem não assistiu, a história (sem spoilers, juro) é a seguinte: Donnie(Donald) Darko é um adolescente em crise, que faz terapia, tem um histórico de problemas na escola, ainda que mais inteligente do que a média de seus colegas e que, de uns tempos para cá, tem sido visitado por um sombrio coelho antropomórfico gigante. Sim, eu estou falando sério. A partir disto, o roteiro enfia no mesmo caldeirão uma velha louca que escreveu um livro sobre viagens no tempo, buracos de minhoca, o velho embate entre o destino e a escolha individual, uma professora bacana, uma maluca e um guru da auto-ajuda ao pior estilo de O Segredo, interpretado por Patrick Swayze.

Boa parte da atenção que o filme despertou deve-se a trama nada acessível ao espectador que não prestar uma atenção absurda à ela; alguns detalhes são intencionalmente ocultos e, dizem, melhor explicados na versão do diretor (a que nunca assisti), mas o básico mesmo é o seguinte (atenção: se você não quer saber o que acontece em Donnie Darko, pule para o próximo parágrafo; o trecho que vem agora é tão spoilorento que cheira mal): toda a história se passa num outro universo, que foi criado quando um evento no universo normal aconteceu, digamos, de forma não prevista. Deste momento em diante, foi criado um (adivinha?) Universo Tangente, cuja existência se encerrará quando os dois eventos se encontrarem novamente, e o nosso mundinho puder continuar. Entendeu? Não? Tudo bem, é isso mesmo. Leia as frases anteriores mais uma ou duas vezes e mais uma Scientific American sobre viagens no tempo que tudo se explicará – ou não, como diria Caê.

É claro que a fama de Donnie Darko vem da união aparentemente absurda de tantos elementos e da forma engenhosa com que o roteiro brinca com as expectativas criadas pela situação. Espera-se que Darko pire de vez, que tudo seja uma alucinação de sua mente esperta e distante ou simplesmente acorde de um pesadelo bisonho. A graça está na confirmação de um acontecimento bastante comum na ficção científica, mas que parece completamente deslocado no mundo do filme – a adolescência num subúrbio de classe média norte-americana dos anos 80. E antes que alguém lembre-se da deliciosa série De Volta para o Futuro, vale a pena dizer que as abordagens são completamente opostas, e o sobrenome Darko não está lá à toa. Vale também dizer que, no melhor estilo Labirinto do Fauno, o espectador pode preferir que tudo seja apenas uma fantasia.

Eu não pesquisei (a preguiça é a mãe dos blogs) para saber se Richard Kelly se inspirou no filme Harvey, produção de 1950 estrelada por James Stewart em que um homem precisa convencer seus parentes e pessoas próximas de que o coelhão que ele vê é real. Fazendo uma pesquisinha rápida (opa, contradição?), descobri que o Harvey do filme de 1950 e livro homonônimo é considerado um puca, uma entidade do folclore celta, com características animais, capaz de falar com humanos e influenciar suas ações e decisões, exatamente o que o coelhão sombrio Frank faz com Donnie. Alguns ainda ligam o nome do personagem Puck, de Sonhos de uma Noite de Verão, a esta criatura.

A propósito: o parágrafo que você acaba de ler é uma cortesia do Google e Wikipedia.

Para encerrar, a belíssima versão de Gary Jules para Mad World, que acabou se tornando marca registrada de Donnie Darko .

Gary Jules – Mad World

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3 Respostas to “Donnie Darko”

  1. léo e só Says:

    olá Marcelo.

    Sempre olhei pra carinha do filme, sempre torcinha a carinha pro danado; até que um dia no orkut! sim, no orkut! achei boas notícias sobre ele.

    Como me influencio facinho, asisti sem dó, e olha não me arrependo nada!
    abs

  2. Marcelo Lopes Says:

    Pois é, Léo,

    A mesma coisa comigo. Eu sempre li sobre este filme, mas tinha uma baita preguiça de assistir. Um belo dia, passei num saldão de DVD num shopping aqui de BH e vi o tal Darko olhando para mim. Comprei e não me arrependi.

    Abs!

    Marcelo.

  3. léo e só Says:

    olá isto Marcelo:

    vão fazer uma continuação do Darko. Ai jesus! :(!

    http://withlasers.blogspot.com/2008/05/continuao-para-donnie-darko.html

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