Há uma gota de Charlie Brown em cada mané ou da realidade metida no meio da ficção

Se eu tenho escrito com alguma frequência (é, o trema foi abolido na última reforma ortográfica) sobre as coisas que permeiam obras de arte, não significa que eu as negue. Todo artista sofre uma grande influência do seu meio, seu tempo, das outras obras que lhe são caras. O que vai distinguir o grande artesão do mediano e da multidão de descartáveis será sempre sua habilidade em traduzir tudo isso, somado a suas idéias, numa obra que possa resistir aos anos. É bastante óbvio para qualquer um que a realidade influencia os escritores, e isso inclui sua vida pessoal; para citar um lugar-comum, experiência não é o que o tempo fez com a gente, mas o que a gente fez que o tempo que já passamos. Daí que ecos das biografias surjam aqui e ali, nas obras artísticas, o que é bastante comum e absolutamente normal.

Para citar um caso bem conhecido, sabe-se que Tolkien negou veemente, em suas cartas, que a guerra pelo Um Anel tivesse alguma relação com as duas Grandes Guerras do século XX – ele participou da Primeira e nela perderia seus melhores amigos. É também verdade que a oposição entre a natureza industrial de Mordor e o restante da Terra Média, verdinha, verdinha, pode ter origem na mudança ocorrida em sua infância, tendo se mudado da África do Sul para a Inglaterra urbana. Mas os exemplos mais curiosos (e melancolicamente românticos) que descobri nos últimos dias são mesmo os de Charles Schultz e Herman Raucher.

Comecemos pelo menos conhecido: Raucher é o roteirista de O Verão de 42 , que aqui recebeu o título Houve uma vez um Verão. O filme ficou mais conhecido pela belíssima música-tema de Michel Legrand e narra a adolescência de três amigos, ao mesmo tempo em que um deles se apaixona por uma mulher mais experiente, cujo marido está no front. O roteiro oscila entre os desastrados e rudes moleques que começam a perceber que estão crescendo e a delicadeza triste do relacionamento entre os dois, que culmina na cena em que ela, logo após receber a notícia de que o marido morrera na guerra, acolhe o garoto com imensa ternura e desespero. No dia seguinte, ela deixaria a ilha e nunca mais se veriam. Pois bem, o mesmo aconteceu com Raucher. Cito o post do Inagaki a respeito: “Herman Raucher, roterista do filme, de fato passou férias em uma ilha em 1942, teve um amigo chamado Oscy (que veio a falecer no front da Guerra da Coréia) e, vejam só vocês, envolveu-se com uma mulher mais velha chamada Dorothy. Exatamente do mesmo modo que foi mostrado no filme, na manhã seguinte ao encontro amoroso dos dois, Dorothy deixou a ilha (e um bilhete destinado a Herman) e eles não mais se encontraram.”. Anos depois, Raucher receberia várias cartas de mulheres que teriam sido a sua Dorothy, e uma delas chamou-lhe a atenção pela exatidão dos detalhes. Ainda assim, ela não se permitiu aproximar mais uma vez e desapareceu, agora definitivamente.

Schultz ficou recentemente famoso por causa de uma biografia que teria revelado detalhes pouco admiráveis (e humanos) de sua personalidade retraída. É terrivelmente tentador compará-lo a Charlie Brown, mas é uma analogia bastante redutora, talvez até simplista. De qualquer forma, a Garotinha Ruiva (ou The Little Red Haired Girl) foi inspirada numa mulher real, o que motiva esta comparação. Donna Johnson foi namorada de Schultz por longos três anos, mas ela recusou sua proposta de casamento e ainda por cima acabou casando-se com outro sujeito pouco tempo depois. Schultz obviamente ficou arrasado, mas mantiveram a amizade até a morte de Charles, em 2000 (Aqui você pode ver uma foto de Donna em 2001, com cara de vovó simpática e abraçada a um Snoopy de pelúcia). Minha geração conhece os Peanuts pelo desenho animado aqui conhecido como “Snoopy” ou “Turma do Snoopy” ou algum outro nome criativo surgido no SBT. Este desenho não é fiel, de forma alguma, à idéia que Schultz fazia de sua Garotinha Ruiva. Ela jamais apareceu nos quadrinhos, a não ser em um único quadro em 1950 e sua ausência gráfica representa o amor platônico, impossível, doloroso e jamais realizado. Surpreendentemente, Minduim teve uma namorada, por um breve período nas tirinhas; seu nome era Peggy Jean , e apareceu por volta de 1990. Será mesmo preciso dizer como este caso terminou? Peggy revela que possui um namorado e vai embora.

Sei que fugirei um pouco do tema, mas sou obrigado a dizer que a maior qualidade de Peanuts é exatamente esta tristeza que, vez ou outra, irrompia das situações mais cotidianas e simples. Não me parece preciso dizer que o mundo infantil criado por Schultz seja uma versão das neuroses adultas; acredito que ele via o mundo dos seus pequenos do mesmo tamanho que eles próprios, com seus conflitos, pequenas alegrias e tragédias. A genialidade de Peanuts está na sua capacidade de dar a estes eventos a dimensão do mundo de seus protagonistas. E não é sempre assim? Aquilo que nos enternecia ou feria anos atrás perde seu tamanho com o tempo e torna-se uma lembrança incômoda que tendemos a desprezar (erroneamente) nos mais jovens do que nós.

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2 Respostas to “Há uma gota de Charlie Brown em cada mané ou da realidade metida no meio da ficção”

  1. marie tourvel Says:

    Fiz um post sobre o Summer of 42 há tempos atrás. Lembro sempre de papai quando ouço falar deste filme. Papai encontrou o disco do Michel Legrand só em NY, porque bati o pé que queria ouvir aquela música sempre. Tenho até hoje o bolachão. Que saudade… Beijos, querido

  2. O peso da herança « Universo Tangente Says:

    […] Há uma gota de Charlie Brown em cada mané ou da realidade metida no meio da ficção, sobre a verdadeira história da Garotinha Ruiva. […]

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