Duas coisinhas sobre os brasileiros

Tenho profunda inveja de quem pensa o Brasil a sério; de Euclides da Cunha a Gilberto Freyre, esta ocupação parece-me fonte de dores de cabeça terríveis em busca de conclusão alguma, ou das piores conclusões possíveis. De certa forma, é levar uma vida de anti-Policarpo Quaresma: onde o pobre coitado personagem de Lima Barreto via grandeza, a prudência mandar ter cautela e alguma ironia. Aos que ainda não têm a grandeza intelectual dos três citados, também é recomendado fazer observações sobre os pequenos fatos na esperança de que eles reflitam uma natureza maior, uma característica facilmente identificável em boa parte de uma população. É brincar de sociólogo de botequim, claro, mas é bastante divertido – se você estiver errado, ao menos sua observação servirá como piada anos depois.

Deixando de lado a introdução meio besta, o que eu queria dizer mesmo que descobri uma das razões para a existência do brasileiro: para emporcalhar o mundo. Este genial insight ocorreu nos corredores de um hipermercado, onde mais? Entre potinhos de iogurte, pedaços de pães de queijo semi-devorados, garrafas PET na prateleiras de papéis absorventes. Na rua, papéis sujos de gordura, pacotes, latas de cerveja e refrigerante. Mudem urgentemente o foco das críticas ambientais; se amarrássemos as mãos dos bananeiros, boa parte da poluição dos rios e mares diminuiria em poucos meses. Sempre achei incrivelmente ridículos os depoimentos de brazucas recém-chegados do exterior que elogiam a limpeza das ruas de lá – como se estes cuidados fossem fruto de alguma entidade fantasmagórica que flutua no ar nas cidades estrangeiras e não de seus próprios habitantes. Basta estes mesmos sujeitos voltarem para a terrinha e começam a jogar tralha pelas janelas de seus carros.

Outra conclusão, bem mais antiga, diz respeito às referências do bananeiro médio. Por alguma razão bizarra, estão presos a todas as esquisitices dos anos 70 e seu o símbolo mais bem-acabado é o personagem Agustinho Carrara, da série global A Grande Família , interpretado por Pedro Cardoso. (Des)Combinando calças listradas com camistas listadas, o personagem, desastrado e canalha, é uma tradução visual das obsessões com um tempo que já se foi com sua breguice contaminante. Odair José, Waldik Soriano, Agnaldo Timóteo, uma coleção de cantores que atormentaram a infância de muitos (eu incluso) em rádios AM chiando suas músicas desconcertantes. Além de opalões, dojões, fusquetes, brasílias, camisas curtas e justas no corpo, cabelo e barba desleixada. Esta predileção setentista não é exclusividade das, digamos, camadas menos abastadas da população, está espalhada até entre os bacanas. Basta ver o figurino dos personagems de um recente comercial de refrigerante, que já se tornou marca registrada de Remelentos & Mafaldinhas (copyright by Reinaldo Azevedo) país afora, e item de série da finada banda Los Hermanos. Assim como muita gente morre de saudades do cinema-safado-brazuca, não é raro ouvir um ou outro sujeito suspirando pela ordem imposta daqueles anos – brasileiro até hoje não se dá bem com democracia .

São observações que não valeriam um livro, claro, mas dão para encher um post. Ou nem isso. Só para parafraser o que DeGaulle não disse, definitivamente este não é um post sério.

Para confirmar a segunda parte deste post, um grupo de pessoas perto de minha casa está, neste exato momento, cantando “Ainda Queima a Esperança”, composição de 1971, de autoria de Raul Seixas e Mauro Motta (eu sabia que esta música era do Raul, mas não sabia sequer o seu nome; os demais dados vieram do Google, claro), que ficou famosa na voz de Diana – não por acaso ex-mulher de Odair José.

Anúncios

12 Respostas to “Duas coisinhas sobre os brasileiros”

  1. feijoadadoce Says:

    e viva a cafonisse de um brasil de calça listrada que lança suas epigas através da janela do ônibus em vias públicas.ao menos serve-se de mal exemplo..

    sem mais.

  2. ana luiza Says:

    Então, por favor acrescente mais umas coisinhas ” brasileras” à sua listagem :
    1) brasileiro só sabe ficar alegre se estiver em multidão.Em multidão ele grita, festeja, berra.Sozinho, ele não fica feliz.A gente tem de aguentar quando o time de futebol ganha, quando é carnaval. etc.
    2) brasileiro adora, mas adora mesmo, colocar o som bem alto do rádio do carro e sair griando pela janela :CÓ-RIN-THI-ANs. Também nuna entendi.Note-se: quanto menor e mais micho for o carro, mais alto o som e berro.
    Se vc puder, me expliqe. Muito obigada.

  3. léo e só Says:

    olá Marcelo.

    Pois é, os anos setenta nos persegeum, não so anos setenta, mas, acho, aquele espírito: somos brasileiros, caminhamos para o primeiro mundo, somos os úncios tri-campeões e ainda lutamos contra um ditadura. Da moda ao gostos.

    Nossa, é bem irritante esse eterno espírito de infant-terrible setentista. Parece até que foi o único período histórico realmente de monta nesse nosso bananão. Fazer o quê? Nosso líderes e formadores de opiniões são desse time. Ai, que porre :(!

    Bom, do lixo nada tenho que declarar. Aqui em Taubaté não tem lixeira, e quando tem, a rapaziada joga no chão, mas não anda dois metros em direção ao lixeiro.

    abs

  4. Marcelo Lopes Says:

    feijoadadoce,

    Pois é, mas infelizmente, servir de mau é… um péssimo exemplo.

    Abs!

    Marcelo.

  5. Marcelo Lopes Says:

    Ana,

    1. Dizem que o brasileiro é um ser mais gregário do que outros povos. Eu diria que ele sofre é de síndrome de rebanho: se não está metido numa muvuca barulhenta, irritante e que o dispense da chatíssima tarefar de pensar, não se sente brazuca.
    2. Eu estabeleci uma correlação nada científica: o volume do som do carro é inversamente proporcional a qualidade do veículo. Aqui em BH é “Zeeeiro!” e “Galooo” até falar chega. Na verdade, é ima consequência da síndrome de rebanho descrita acima. O brasilero berra o nome do seu time numa tentativa de chamar a atenção de outros da mesma tribo, para que possam berrar todos juntos.

    Abs!

  6. Marcelo Lopes Says:

    léo,

    Eu também tenho profunda aversão a esta estética setentista-bacaninha. Será que, fazendo análise psicológica de buteco, o brasileiro se prende àquele tempo para não ter que encarar que: 1) Continuamos terceiro mundo; 2) O futebol tricampeão até foi em frente, mas a seleção perde o brilho ano após ano; e 3) Aqueles que diziam lutar pela tal democracia só queriam mesmo uma sinecura bem gorda para chamar de sua?

    Abs!

    Marcelo

  7. marie tourvel Says:

    Putz, Marcelo, só li hoje esse post. Fala a verdade pra mim, cê anda lendo muito o Letras, né não? Aquilo lá é pura breguice setentista e oitentista, por que não? E andou lendo também posts antigos de Mr. Guavaman. Quando ele falava muito em Belchior e Timóteo. Que delícia de post. Adorei. Beijos

  8. Marcelo Lopes Says:

    marie,

    Eu sempre leio o letras, adoro seus posts bananísticos, só preciso tomar vergonha na cara e comentar mais lá. Quem é amigo, comenta (isso parece nome de campanha de blogueiros, mas deixa assim mesmo…)!

    Abs!,

    Marcelo

  9. luciola Says:

    estava no google com “peggy crazy” como busca (não me pergunte porquê) quando vi uma imagem de didi mocó maquiado como mulher. cliquei. apareceu teu blog. resolvi ler. gostei dos outros posts, mas esse, cara, fez com que eu me questionasse acerca do teu bom senso. na verdade, eu ainda não sei se foi de brincadeira a crítica, mas, como até aqui não vi nada de brincadeira, resolvi comentar.

    concordo plenamente que nossas ruas são sujas pra caralho, em maior ou menor grau de imundice, mas não acha exagero comparar a europa com um país subdesenvolvido? é a educação do povo que constrói o país, como nós não tivemos educação, a merda taí. não critica assim esse país, você sabe que o comportamento de um adulto idiota é mais responsabilidade dos pais do que propriamente do adulto idiota.

  10. luciola Says:

    ok, deixando bem claro que eu tenho vontade de socar gente que insiste que ponta de cigarro no chão serve de enfeite.

  11. Marcelo Lopes Says:

    luciola,

    Tem um bocado de ironia no meu texto sim, é claro que querer enxergar os problemas gigantescos do país a partir da sujeira das ruas das metrópoles é uma redução grotesca 😉
    Mas… eu também falo exatamente do comportamento do brasileiro que tem educação (ao menos formal) e condições financeiras para viajar ao exterior, que admira tudo que funciona lá, mas ao voltar para a terrinha, continua boicotando as ações que poderiam melhorar as coisas aqui, entende?
    Quanto a questão da culpa pelo fato de não termos tido uma educação que preste, acho sim que o problema é bem maior do que isso. De qualquer maneira, cada caso é individual e não concordo com a ausência genérica de culpa pelo fato do sujeito não ter recebido educação adequada.

    Abs!

    Marcelo.

  12. Marcelo Lopes Says:

    luciola,

    Com essa da “Peggy crazy”(nem pergunto), você acaba de ganhar o troféu “Busca mais estranha que veio cair no meu blog”! 😀

    Abs!

    Marcelo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: