O mal existe

Esta é a primeira frase de um comercial que apresenta algumas das atrações do Discovery Channel, duas sobre supostos poderes paranormais (que tais produções levam solenemente a sério) e outra sobre pesquisa com psicopatas e assassinos seriais. Mas não adianta muito reprisar esta chamada: o homem contemporâneo, moderninho, do Orkut e do Blackberry, não acredita mais no mal – infelizmente.

O ótimo João Pereira Coutinho, na Folha de São Paulo de hoje, discorre sobre as reações que seu artigo anterior, sobre Josef Fritzl, causaram. Fritzl é o monstro austríaco que aprisionou, estuprou e engravidou sua própria filha por 24 anos, no porão de sua casa. Dos seis filhos vivos (o último, natimorto, ele incinerou), três foram criados na escuridão apodrecida e úmida do porão, transformado em bunker anti-nuclear com a devida autorização do estado austríaco. À sua mulher, ele disse que a filha fugira de casa seguindo uma seita; os outros três bebês ele levou para o mundo exterior, dizendo ser netos abandonados em sua porta pela filha receosa de voltar para casa. Em casa, Fritzl era dominador e autoritário, mantinha o porão trancado e qualquer um, familiar ou não, bem longe da sua câmara particular de torturas. O sujeito só foi preso quando um dos três filhos-netos mantidos na sua caverna privada deu entrada no hospital quase morto.

De que outra definição, tão pura e simples de maldade, a gente precisa para reconhecer a sua existência? Quantos limites de horror precisam ser atravessados para que possamos admitir, finalmente, a fecunda linhagem do mal na nossa humanidade? Não me interessa tanto a explicação para sua existência, seja teológica ou biológica, espiritual ou material, basta-me apenas desejar que o homem moderno um dia se livrará a armadilha intelectual que o faz rejeitar a óbvia, apavorante e tristemente humana existência da maldade.

Cito alguns ótimos trechos do texto de J.P. Coutinho; a íntegra, infelizmente só para assinantes do UOL ou Folha de São Paulo:

“E chegamos ao problema do mal. Por que motivo uma parte generosa dos leitores não tolera a palavra “mal” para explicar o caso?”

“Questão de civilização, creio. A estrutura intelectual do Ocidente, na qual vivemos e pensamos, assenta na idéia otimista de que o mal nasce da ignorância. Ou, inversamente, só o conhecimento permite uma vida virtuosa, como diria Platão pela boca de Sócrates. Quando os seres humanos se aproximam da luz da razão, a ignorância deixará de ter lugar nas suas condutas. Porque o mal é fruto da ignorância.”

“Estamos na presença da ‘medicalização do mal’, uma constante nos sistemas jurídicos das democracias liberais.”

”É essa ‘medicalização do mal’ que tem crescentemente substituído a idéia terrível (e antiiluminista, e antiotimista, e anticivilizacional) de que o mal é sobretudo uma forma de estar no mundo. Não é fruto da ignorância, da escassez, da doença. É uma qualidade intrínseca da nossa humanidade. E, ao ser uma qualidade intrínseca, é também tocada por uma sombra de mistério: exatamente como as restantes qualidades humanas -o amor, a compaixão, o sacrifício- que nenhum tratado filosófico, médico ou psicanalítico será alguma vez capaz de explicar inteiramente.

Os seres humanos são capazes de tudo; de matar, torturar ou humilhar com pleno conhecimento das suas ações. Eles são, como no poema de William Ernest Henley, curiosamente citado pelo bombista Timothy McVeigh minutos antes de ser executado, ‘senhores do seu destino’ e ‘capitães da sua sorte’.

Mas o lado redentor é que eles também são capazes do oposto: de amar e de ser amados; de dar alento a quem precisa; e de condenar, sem fugas ou desculpas, condutas objetivamente desumanas.”

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4 Respostas to “O mal existe”

  1. marie tourvel Says:

    Olha, Marcelo, esse J P Coutinho já virou meu amigo sem conhecê-lo. Ele é amigo de um amigo, então virou amigo, entendeu? E como escreve bem e como gosto de ler seus textos.
    E os do Universo Tangente também adoro. Demoro a aparecer, pois me falta tempo, mas adoro este espaço, viu? Beijos

  2. léo e só Says:

    olá Marcelo.

    Eu li esses textos do JP. Bem bons. Mas te pergunto. Será que não está faltando um pouco do velho maniqueísmo, o bem contra o mal, na formação dessas nossas gentes?

    abs

  3. Marcelo Lopes Says:

    Marie,

    Eu também demoro a aparecer lá no seu espaço e também o adoro! E o JP Coutinho é bom demais…

    Abs,

    Marcelo.

  4. Marcelo Lopes Says:

    Léo,

    Até existe um pouco de maniqueísmo na formação deles sim, desde que os bons sejam os pobres e os maus, os ricos. Qualquer outra forma é chamada de superestrutura, visão ocidental do mundo, etc, etc, etc.

    Abs,

    Marcelo.

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