A incrível história do Apple brasileiro

Senta aí, que titio Marcelo vai contar uma história de um tempo muito, muito distante, mas que fala muito a respeito desta terrinha que habitamos: os anos 80. A história envolve uma lei idiota, um bando de técnicos geniais e a empresa de tecnologia mais admirada atualmente: a Apple. É um textinho razoavelmente nerd o que se segue, mas tive o cuidado de usar poucos termos técnicos e tentar explicar alguns conceitos com metáforas devidamente desastradas. Logo, leia por sua conta e risco.

Antes de começar, é preciso contextualizar algumas coisinhas sobre aqueles anos estranhos. Vigorava a Lei de Reserva de Mercado de Informática, que separava o mercado brasileiro de computação apenas para empresas brasileiras. O que parece bacana na cabecinha oca de nacionalistas bocós é, na verdade, uma armadilha para o desenvolvimento do país. Se você tem o mercado todinho como seu refém por força de lei, para quê pesquisar, criar bons produtos e brigar pelo consumidor? Isso sem mencionar que os centros de pesquisa eram obrigados a usar computadores nacionais, sendo negado a eles o acesso ao que de melhor se fazia mundo afora. Pois bem, a nossa sorte é que este computador que muito provavelmente você está usando para ler este blog, um PC, é, na verdade, tataraneto de um projeto nascido na IBM daquele tempo. A IBM achava que hardware (a parte do computador em que você bate quando trava) era o produto que venderia feito pão quente (Bill Gates já achava que seria o software, aquela parte que você xinga quando trava) e decidiu liberar a especificação do tal IBM PC para que qualquer um pudesse construir o seu computador pessoal. Fazendo uma comparação pouco inspirada com a indústria automobilística, seria algo como a FIAT liberar um manual “Constra seu Mille”, o que levaria a criação de um monte de clones de Mille mundo afora. Por isso, até hoje, tantos computadores de tantas marcas executam os mesmos programas e se conectam às mesmas impressoras, monitores, etc. – porque seguem padrões.

Até aí, tudo bem, todo mundo na legalidade. Mas, e sempre há um mas, os PCs brazucas custavam milhares de dólares a mais do que seus similares estrangeiros. O mercado de computadores domésticos era dominado por máquinas bem mais baratas e menos potentes, incompatíveis com os PCs, como os MSX da Gradiente e Sharp (eu fui um feliz possuidor de um belo Hotbit grafite). Mas, e sempre há mais um mas, muitos destes computadores eram simplesmente cópias pirateadas sem autorização dos seus fabricantes originais. A própria Apple, enquanto produzia microcomputadores assim, de fôlego mais curto, tolerou tanto os nossos quanto os nascidos em outros países clones piratas de sua linha Apple II e IIe.

Tudo mudou quando, em 1984, a Apple lança o Macintosh. Talvez você não saiba disso, mas não havia mouse, tela com ícones nem gráficos bacanas; foi o Mac quem introduziu toda essa história na indústria dos computadores pessoais – embora a Xerox já estava pesquisando estas novas formas de interface ainda nos anos 70. Animada com o novo brinquedo bacana, a empresa brasileira Unitron decidiu que faria o primeiro clone de Macintosh do mundo. Numa decisão ousada, não o piratearia, mas criaria um computador funcionalmente idêntico, obtido por engenharia reversa. Calma, voltemos ao Mille do exemplo anterior. Imagine-se pegando um Mille completinho e, desmontando-o, peça por peça, descobrisse aos poucos como ele funciona. De posse destas informações, você cria um carro que não é uma cópia do original, mas funciona da mesmíssima forma, com todas as características dele. Foi isso que os engenheiros da Unitron fizeram e por isso é chamado de engenharia reversa. Eu, que não fui grande aluno de eletrônica, só consigo imaginar a gigantesca trabalheira que deu testar os microprocessadores até entender seu funcionamento completo a ponto de serem reproduzidos em todos os detalhes.

Em 1985-86, a Unitron já tinha protótipos funcionais do que eles viriam a chamar Unitron Mac512. Na verdade, a idéia inicial da empresa era licenciar legalmente o Apple Macintosh (algo que a empresa do sr. Steve Jobs certamente negaria) e produzi-lo aqui na Banânia, mas a SEI, Secretaria Especial de Informática, negou a idéia. Hoje é absurdo pensar numa empresa tendo de pedir benção ao estado para fazer um produto de informática, mas era a norma de então – e muito brasileiro até hoje acha que isso é correto. A SEI ainda quis obrigar a Unitron a usar hardware obsoleto, porque o que ela desejava só estava disponível via importação, o que era proibido. Resposta da empresa: passou a fabricar ela mesma o equipamento – no caso, o drive de disquete, igualzinho a este que estamos aposentando nos PCs atuais. A Apple ficou sabendo do projeto; sabe-se lá como, mas duas unidades do Unitron Mac512 foram parar lá nos laboratórios da empresa da maçã.

A tolerância da Apple para com os clones havia se esgotado; ainda que o projeto fosse fruto de uma árdua e complexa engenharia reversa, ela estava disposta a manter a sua marca sob controle – política que mantém até hoje. Neste ponto, a história fica um tanto obscura; alguns dizem que o aparelho avaliado pela Apple ainda era um protótipo, o que lhe deu argumentos para alegar violação de direito autoral. Seja como for, a empresa pressionou o governo norte-americano, que, por sua vez, ameaçou impor sanções comerciais ao Brasil se o Apple brazuca continuasse a ser produzido. Foram implementadas mudanças nas leis vigentes que tornaram ainda mais difícil para a Unitron continuar com sua intenção de fazer clones do Mac. O projeto terminava aí.

Antes que algum nacionalista comece a choramigar seu vitimismo terceiro-mundista, é bom deixar claro que a Apple faria o mesmo se a empresa fosse sueca, japonesa ou, sei lá, vietnamita. Ela quer ter controle total sobre seus produtos. Recentemente, uma pequena empresa norte-americana anunciou a venda de clones de Macs; os analistas afirmam que é apenas questão de tempo até os advogados de Mr. Jobs caírem em cima da nova Unitron com a mesma fúria mostrada mais de vinte anos atrás.

Bom, e qual a lição que tiramos deste embróglio tecnológico? Nenhuma, porque eu não escrevo textos para dar lição de moral. Fica apenas a imbecilidade das leis de reserva de mercado, uma bobagem que, volta e meia, algum burocrata de escritório saca de sua gaveta como salvação do sub-capitalismo brazuca. Há ainda que se tirar o chapéu para os técnicos que encararam o desafio de pesquisar uma arquitetura computacional inteira e reproduzi-la – deveriam ter nascido no Japão uns dez anos antes.

Ainda existem algumas unidades do Unitron Mac512 em funcionamento. Aqui, no blog do Chester, pode-se ver ótimas fotos de um deles. Se você tem estômago forte, assiste CSI todo dia e não se importa em ver um deles autopsiado, aqui há fotos interessantes também. O Unitron Mac512 tem seu próprio verbete no site Old Computers e matéria em português na Wikipedia.

Correção: Depois de ler esta notícia, descobri que a Apple licenciou a produção de Macs sim, entre os anos de 1995 e 1997, quando Jobs foi afastado da empresa. E até agora, eles têm sido bonzinhos com a tal Psystar, que passou a fazer clones dos computadores brancos recentemente.

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5 Respostas to “A incrível história do Apple brasileiro”

  1. Jecel Assumpção Jr Says:

    Na última vez que visitei a Unitron (deve ter sido março de 1988), o Alberto Diez me contou que quando eles entraram em contato com a Apple sobre a possibilidade de licenciar o software, a Apple pediu duas máquinas de amostra antes de decidir. Um engenheiro na Apple pode ter ficado chocado com o fato das ROMs serem pirata mas a diretoria já sabia que seriam – senão a Unitron não precisaria licenciar, certo?

    A Apple levou uma das máquinas e um Mac original para o congresso americano. Eles não tentaram entrar em detalhes de software pirata (a IBM processou a Softec, Scopus e Microtec no início de 1984 por elas terem pirateado seu BIOS. As tres reescreveram o software e a IBM retirou o processo). Como a plateia era leiga, a Apple destacou a semelhança física das máquinas. E deu o resultado que ela queria.

    Em seguida, a Apple trouxe as duas máquinas para o congresso brasileiro. Só que quando foram ligadas o Unitron funcionou mas o Mac original não. Por isso a turma da Unitron estava comemorando uma pequena vitória numa batalha que sabiam estar totalmente perdida.

    A SEI não alterou nenhuma lei ou regulamento para rejeitar os dois pedidos da Unitron. Simplesmente foi inconsistente com suas outras decisões, apesar de ter tentado evitar isso o quanto pode.

    Quanto à Pystar, o clone que ela faz é de PC e não de Mac. Só que a Apple hoje também faz clones de PC e seu Mac OS X roda em máquinas que ela não vende. A discussão atual é se ela tem o direito de impedir alguém que comprou seu sistema legalmente de rodá-lo na máquina que quiser. No passado a IBM e Data General não conseguiram ter este tipo de controle sobre seu software.

  2. Marcelo Lopes Says:

    Jecel,

    Muito obrigado pelos esclarecimentos. Estou numa fase pessoal bem atribulada, então vou incluir as suas informações (direto da fonte) no post assim que puder, ok?

    Abs!
    Marcelo.

  3. O gênio desconhecido de Alan Turing « Universo Tangente Says:

    […] Posts relacionados: A incrível história do Apple brasileiro […]

  4. José Domingos Voidella Says:

    Meus Caros, lembro bem desse caso!
    Na época eu trabalhava com um UNITRON Apple II programando assembler para leitores de cheques da extinta Digilab.
    Os Apples II fabricados pela Unitron eram comparados em qualidade aos originais. Diziam que sua qualidade era respeitada com um dos melhores MUNDIALMENTE!! Não sei se isso é lenda, mas é certo que a Unitron ganhou muito $$ com os seus Apples II. Eram os mais caros do mercado!
    Por volta de 1986 vi esse MAC da Unitron “rodando” dentro de uma redoma de vidro numa dessas feiras de Informatica comuns no passado.
    Algum tempo depois li um artigo que dizia que a Unitron possuia um funcionario que fazia viajens frequentes para a matriz da Apple e até trazia informações interessantes que agregavam o projeto. E esse mesmo colaborador era supostamente um espião da Apple que ajudou a desmoronar o projeto.

  5. UNIVERSO BARRADO Says:

    Reblogged this on UNIVERSO BARRADO.

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