O gosto amargo da má leitura

Posso dizer que sou um sujeito de sorte, já que não preciso ler por obrigação profissional. Mais apropriadamente, eu falo aqui de editores, leitores qualificados, gente envolvida com a publicação de literatura de ficção. É bastante óbvio que eu também leio por necessidades profissionais – livros caudalosos cheios de códigos incompreensíveis para a maioria dos seres normais, manuais em inglês e outras pérolas nada pequenas típicas da tecnologia de informação. O que quero dizer é que, desde a faculdade, sou eu e apenas eu que escolho o que desejo ler em matéria de narrativas ficcionais. Mantenho os ouvidos abertos aos amigos e suas opiniões, claro, mas preservo minhas preferências e antipatias bem à vista. Caso contrário, já teria lido Dan Brown e Zíbia Gasparetto.

Antes que alguém pense que isso significa que leio apenas o que me diverte, desminto: leio o que me interessa, e há uma grande diferença aí. Leio o que me dá prazer intelectual e/ou sentimental, ainda que isso signifique forçar os neurônios ou aumentar o ritmo cardíaco. Não me interessa discutir aqui porque muitos de nós, leitores, se empenham em leituras que trazem sofrimento; não tenho resposta para isso, mas me apego ao argumento de que, não agisse assim, acabaria lendo apenas auto-ajuda e evitando até bula de remédio. Talvez seja estranho à mentalidade brasileira uma ação que não visa ao prazerzinho mais vagabundo e imediato, mas a boa leitura é assim: excitante, atenta e, não raramente, exaustiva.

Digo isso porque as últimas leituras que me causaram desgosto foram obrigatórias. Não espere aqui uma ladainha sobre os livros que encarei na escola, porque, dentro um universo de obras mais ou menos, lembro-me de ter admirado genuinamente Dom Casmurro, o São Bernardo de Graciliano Ramos, e os dois romances do padre João Mohana, Maria da Tempestade e O Outro Caminho. Sobre os dois primeiros, continuam sendo obras de referência para mim, enquanto as outras duas perderam-se no meio das memórias hormonais da adolescência. Lembro-me também de não gostar de José de Alencar, não achar muita graça (hoje, graça quase nenhuma) em Jorge Amado, e ler duas vezes o livro que recebi num concurso de poesia juvenil (venci injustamente; havia coisas melhores lá), Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto; obra que, de certa forma, me levaria do nacionalismo infantil ao ceticismo atual. Quando eu era moleque, assistia a Amaral Neto, o Repórter, programinha chapa-branca da ditadura militar que cantava em imagens as maravilhas do Brasil, este gigante. Veja só no que deu. Mas voltemos ao tema do post.

Sempre que penso numa leitura desagradável vem a minha mente Recordações de Amar em Cuba, de Oswaldo França Júnior, autor de Jorge, um Brasileiro. Lembro-me bem de vencer as páginas com esforço, graças a uma narrativa desinteressante envolvendo escritores que foram a ilha do Dr. Castro como jurados de um concurso literário. Se o livro queria louvar as supostas conquistas da revolução cubana, teve em mim o efeito contrário: uma revolução que deu origem a literatura tão incrivelmente chata não poderia ser coisa boa. Um dia ainda falo nisso, mas desde criança tenho asco a regimes e situações totalitárias; Recordações de Amar em Cuba foi o carimbo no meu passaporte para a negação destas bobagens travestidas de progressismo. E ainda na adolescência! Foi uma leitura irritante, mas ao menos serviu para alguma coisa útil.

O outro romance de péssima leitura de que me lembro é uma exceção, já que, infelizmente, foi escolhido por mim mesmo (e hoje me pergunto como): uma ficção científica chamada O Mundo de um só Dia, de Philip José Farmer (isso só pode ser pseudônimo). A idéia nem era tão ruim: num futuro superpovoado, as pessoas são obrigadas a viver em estado de hibernação e só são acordadas em um dia a cada semana, o que resulta em sete mundos diferentes e possíveis. Claro que existe gente que burla o sistema pela aventura de ter sete vidas de uma só vez e é claro que esta idéia absurda, se não for bem desenvolvida pelo escritor, acaba risível. Pois é. Li até o final porque a culpa pela escolha era minha, mas não gostei nem um pouco.

Pensei nisso ao passear hoje pelas livrarias da Savassi, perto de onde trabalho, aqui em Belo Horizonte. É um exercício a que me permito com frequência cada vez menor, infelizmente. Mas gosto dele porque é uma espécie de exteriorização do leitor mal organizado que sou; passeio pelas estantes mais diversas, de história a filosofia, mas sempre parando por mais tempo na literatura. E faço uma lista dos livros que quero ler logo, não apenas comprar para ocupar a estante. A novela de Milton Hatoum, Órfãos do Eldorado, o novo de António Lobo Antunes, Eu Hei-de Amar uma Pedra, o Sándor Marai que, não sei explicar a razão, quero ler, As Brasas, além de Um Homem Sem Qualidades de Robert Musil, Origem de Thomas Bernhard e muitos outros.

No final do passeio, acabei comprando apenas um livro, o qual apenas comentarei após ler, porque é um tanto incomum – e não é de ficção. Viva minha indisciplinada liberdade literária.

Anúncios

3 Respostas to “O gosto amargo da má leitura”

  1. Lady Rasta Says:

    Eu de novo aqui passeando…não adianta, livro é paixão mesmo! Só não entendi uma coisa: vc lê o livro mesmo sendo ruim a) porque acha que tem a obrigação de ler um livro que começa, ou b) lê um livro que vc não está curtindo porque acha que o assunto é importante, ou o livro é um “tenho que ter lido” na sua vida?

    Mais uma coisa: não sei se vc gosta de ler em inglês sem ser para o trabalho, mas para quem gosta de ler o Nick Hornby tem um livro chamado Polyssalabic Spree onde ele comenta os livros que ele leu de um jeito delicioso, recomendo fortemente (aliás, lá na “minha casa” eu menciono um trecho desse livro em uma das páginas…)

    Flavia

  2. Marcelo Lopes Says:

    Lady Rasta,

    Bom, eu li livros ruins quando fui obrigado e citei uma exceção. Bom, não sei o que me faria, ou fez, ler um livro que achei ruim até o final… Talvez, assim como num filme que começa fraco, a gente ainda acredita no potencial da idéia, dos personagens ou do autor. Quem sabe?
    Ah, ótima dica, obrigado! Gosto do Nick Hornby sim, mas meu inglês ainda derrapa em expressões e phrasal verbs, então leio ficção sempre com um dicionário (ou o Google) do lado. Literatura técnica é fácil, o vocabulário é restrito e as construções gramaticais simples.

    Abs!

    Marcelo.

  3. Ludimira Says:

    Eu li “Recordações de amar em Cuba” em 1989, no 1º ano do Ensino Médio.
    Amei de paixão. Me apaixonei por Cuba daquela época.
    É um dos meus livros prediletos. Não reli com medo de perder a admiração por aquele país. Medo que no pós Guerra Fria (beeeem pós), com a Cuba atual, eu perca esta paixão pelo livro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: