A Metamorfose

Todos nós esperamos mudar, de uma forma ou outra; a princípio, não se espera manter as mesmas preferências da infância ou adolescência por toda a vida –não todas, ao menos. Confesso que meus interesses profissionais hoje são bem diferentes dos de cinco anos atrás, e isso tem algo a ver, certamente, com as expectativas que construo baseado na minha própria idade e com as experiências pelas quais passei. Algumas mudanças são bem-vindas; outras são surpreendentes, porque não consigo negá-las. Antes, tinha certeza da vontade de ser pai; atualmente, só tenho dúvidas e alguma preguiça (e sei que muito provavelmente mudarei de opinião dentro de algum tempo). Durante um bom (e juvenil) tempo, fiquei oscilando do lado esquerdo do muro, até perceber finalmente que sempre tive aversão a ditaduras e optei pela democracia liberal. Como disse no post anterior, um dia falarei disto com mais cuidado.

Nenhuma destas alterações, no entanto, me parece mais curiosa do que meu progressivo desinteresse pelo futebol. E só fui me dar conta dele num domingo de alguns meses atrás, enquanto eu lia um livro em pleno clássico Atlético x Cruzeiro. Ouvi gritos e fogos, mas não movi um músculo sequer para ligar a TV ou clicar num site de esportes, simplesmente continuei a leitura. Depois pensei a respeito e fiquei surpreso. Imaginava que aconteceria o contrário: com o tempo, eu iria me interessar um pouco mais por futebol e seria até capaz de participar de algumas discussões sobre o bom e velho esporte bretão. Excetuando-se as Copas do Mundo, nunca fui capaz de acompanhar nenhuma outra competição e, quando me declarava atleticano, era mais uma expressão de herança paterna do que um atestado sincero de membro de uma torcida. Jamais fui realmente torcedor de clube algum. E, como diria o Capitão Nascimento, nunca serei.

Tenho a percepção de que isso não me faz melhor do que ninguém. Não espere encontrar aqui orgulho (palavrinha besta) por não partilhar desta paixão brasileira – e de muitos outros países. Não há, a rigor, grandes diferenças entre a paixão por futebol e a paixão por jogos de computador, selos, biriba ou por filmes com o Sérgio Mallandro. Há, evidentemente, aquela bizarríssima sensação de ser um alienígena, claro. Mas até hoje tenho me saído bem, especialmente com taxistas. São diálogos esotéricos, como o que se segue:

– Olha, vou te falar uma coisa. Eu não sei o que o povo e o técnico vêem naquele Juninho. (ou Silvinho, Tulinho, Zequinha, Huguinho ou Luisinho, é sempre algo assim)
– Ah, é. – respondo.
– O time não sabe armar jogada pela esquerda e me colocam aquele Juninho lá. Tem condição?
– Um absurdo mesmo. E o cara ainda ganha bem. – tento adivinhar.
– Ganha, ganha sim! E ainda veio de São Paulo, o menino. Vê se a gente precisa importar jogador?
– Pois é, se os times daqui investissem nas categorias de base, nas escolas…
– Isso mesmo, companheiro, disse tudo! O problema é que os times estão falindo e vendem os passes de todo moleque bom de serviço que eles encontram pra fazer caixa. Fala sério: Assim tem jeito?
– Não, não tem. – concluo.

Como disse, até hoje tem dado certo. Ou, melhor dizendo, até a publicação deste post muita gente que eu desconheço sequer desconfiava de minha absoluta falta de apetite para o futebol.

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