Archive for junho \28\UTC 2008

Sonífera ilha

sábado, 28 junho, 2008

J.P. Coutinho, na Folha de São Paulo, escreve o que mais de 99% dos homens já sabia: Sex and the City é um poderosíssimo sonífero para os portadores de cromossomos XY. Eu, particularmente, nunca vi graça alguma nesta série, mas foi este parágrafo que fez com que eu me identificasse com o seu autor imediatamente:

O problema, creio, está nas “conversas de gênero”: previsíveis, entediantes, circulares. Serei caso único? Não creio. E há vários anos que defendo “audiobooks” só com homens, ou só com mulheres, conversando os temas habituais entre si. Seriam vendidos em farmácias sem necessidade de receita médica. Não há coisa mais narcótica.

Não sei dizer se é um problema, mas certamente ele não é caso único.

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A literatura é um gueto

sábado, 28 junho, 2008

Voltando de viagem a uma pequena praia antes que ela seja invadida pelos farofeiros do primeiro semestre de julho, quando um veranico costuma dar as caras por lá, decidi, num arroubo de coragem, encarar o Google Reader. Certamente a quantidade de posts que eu realmente desejo ler passa de duzentos – a culpa pelos outros 600 (!) é do io9, mega prolífico blog norte-americano sobre ficção científica, cuja assinatura muito provavalmente eu cancelarei. O que acabou me chamando alguma atenção foi certo rebuliço em torno de uma comunidade do Orkut chamada Eu Odeio Literatura.

Quando eu ainda insistia em achar alguma graça naquele amontoado de comunidades e perfis falsos, fazia parte de uma comunidade chamada Eu Odeio Fanta Uva. Era a única comunidade ridícula a qual eu havia me filiado; todas as outras eram relacionadas a desenho e literatura, e eu só estava ali por pura falta do que fazer. Ah, claro, eu não gosto de Fanta Uva, de verdade. E não duvido nada que um dia vá aparecer um sujeito aqui mesmo no blog só para deixar um comentário mal-educado de como eu deveria ter vergonha de não saber apreciar o delicioso sabor daquele suco de uva gaseificado. A minha resposta mais óbvia seria: e daí? Se eu tenho o direito de não gostar de um refrigerante, ele tem todo o direito de ficar nas nuvens toda vez que toma a substância. O mesmo vale para literatura.

O Alessandro já escreveu sobre o tema, e nem vale acrescentar muita coisa além do que ele e o Paulo já abordaram, aliás, de forma simples e genial (a observação que o Alessandro fez sobre a liberdade que K, ao menos teoricamente, teria de não reponder ao Processo, me fez pensar um bocado e decidir reler este Kafka assim que puder). Fica apenas o registro da obviedade que está no título: não importa se você lê Paulo Coelho ou Robert Musil, saiba desde já que faz parte de um gueto. Especialmente em se tratando de Brasil, em que alunos de segundo grau são incapazes de decodificar um texto que um moleque de dez anos deveria ler com um dos olhos tapados, uma das mão amarradas às costas e um dos ouvidos ligados a um iPod tocando o Créu ininterruptamente.

E mais: não apenas fazemos parte de um gueto, como, no final das contas, ele não é muito diferente, para quem o vê do lado de fora, do clube dos ferromodelistas, montanhistas ou dos sujeitos que gostam de Fanta Uva. É ridículo escrever contra os membros do clube dos odiadores de literatura ou contra seus argumentos – entre os quais, os mais comuns batem na tecla de que romances, contos e poemas não ajudam cientista algum a encontrar a cura para o câncer. Ao fazer isso, caímos naquele perigoso terreno em que confundimos gostos e convicções pessoais com supostas leis universais as quais todos os homens, estes pobres inferiores, devem ser submetidos. A longa e infinita lista das atrocidades totalitárias quase sempre começa com este equívoco, e (oh! surpresa!) a literatura é frequentemente uma das ferramentas usadas para divulgar os absurdos do novo reizinho – sim, por mais abjeto e desprezível que seja, Mein Kampf é literatura.

O horror verdadeiro reside na ausência da possibilidade de escolha, de liberdade. Enquanto tal liberdade existir (e queira Deus que, apesar de todos os que torcem contra, ela prospere), nos organizaremos em guetos habitados por pessoas cuja convivência nos é cara e querida. E, pelas razões mais diversas também, espero que eu continue a desejar a mesma liberdade àqueles que desprezam ou odeiam aquilo que me diz tanto – mesmo que eu seja incapaz de entender as suas razões.

A propósito: alguém aí sabe de um gueto para alguém interessado em peixes abissais, psicologia, física, literatura, história e uma boa e saudável dose de cultura de almanaque?

Update: Este post do Discreto Blog da Burguesia merece ser lido, bem como os comentários.

Recesso

quarta-feira, 11 junho, 2008

Ao contrário do que eu disse, não consegui postar coisa alguma por aqui antes deste intervalo. Enfim, o Universo Tangente entra em recesso mais do que necessário por uma semana a uma semana e meia. Levo dois livros apenas: Os Filhos de Anansi, de Neil Gaiman e Conhecimento do Inferno, de António Lobo Antunes Tönio Kroeger, de Thomas Mann, dois extremos que me interessam. UPDATE: Acabei comprando Fado Alexandrino aqui em meu destino (o hotel tem internet liberada na recepção), que estava em promoção, do mesmo António Lobo Antunes que ficou em casa.

Agradeço a todos que me visitam e peço que aguardem meu retorno.

Ah, e seguem as últimas atualizações no Todos os Filmes, igualmente paralisado:

O Julgamento do Diabo

Homem de Ferro

O Inglês que Subiu a Colina e Desceu a Montanha

Desejo e Reparação

Dois Filhos de Francisco

Na Natureza Selvagem

Eu Sou a Lenda

As vozes de ontem

sexta-feira, 6 junho, 2008

O título deste post é incrivelmente pomposo e tolo, parece-se com a minha primeira tentativa de escrever um romance, aproximadamente quinze anos atrás (já falei nele aqui). O título besta só serve mesmo para esconder um fato bastante simples que vou narrar.

Estava de carona quando o motorista colocou um CD do Guns N’ Roses tocando November Rain. De repente, aquela orquestra, o violino, a guitarra do Slash e o vocal do Axl Rose, todo aquele conjunto de referências sonoras de adolescência me soaram apenas como ecos. Tudo era reconhecível, familiar e estranhamente datado. Por alguns segundos, senti-me como um moleque que acaba de ganhar um iPod do pai cheio de músicas que o velho colocou ali, ouvindo algo que não lhe dizia absolutamente nada. Claro, poderia ter sido qualquer outra música – sei lá, Come as You Are, talvez – a despertar este efeito estranho. Eu esperava contar com aquela música como uma referência pessoal (ainda que, na verdade, eu já não gostava muito dela à época em que fez sucesso), assumindo de vez o posto de tio que os cabelos fugitivos e os sobreviventes embranquecidos me conferem, ao possuir um gosto nitidamente anacrônico. Como alguns amigos menos jovens que ainda se empolgam em festas ao som de Bee Gees – banda que não acho ruim, mas que não desperta interesse algum além dos minutos que suas canções duram.

É bastante óbvio que as memórias emocionais são um componente crucial que permite que obras literárias, musicais ou cinematográficas continuem frescas em nossas mentes. Tais ligações não obedecem às regras da formação do gosto que deveríamos experimentar ao longo da vida. Estas obras são, de certa forma, nossas pequenas madeleines (a citação inevitável está brincando aqui nos meus neurônios, então é melhor escrevê-la para que não me atormente mais). Eu esperava realmente que November Rain (de novo: é apenas um exemplo) fosse um dos meus ratatouilles, mas descobri que ela se descolou de minhas memórias, digamos, sentimentais, o que me supreendeu. E certamente o mesmo aconteceu com outras obras e artistas. Como disse, isso nada tem a ver com qualidade ou maturidade, mas com memória e referência. Spectreman faz parte da minha infância, mas é um abacaxi que jamais voltarei a ver; por outro lado, Indiana Jones e De Volta Para o Futuro sempre serão ótimos. É a velha história das obras que continuam vivas décadas após terem sido criadas e a imensa maioria que sucumbe silenciosamente ao zeitgeist (num sentido bem livre do termo), sobrevivendo apenas na memória afetiva de seus antigos espectadores, ouvintes ou leitores.

Nestes tempos em que relembrar os anos 80 se tornou quase uma obsessão – e que tem resultado em obras divertidas, como o curta Ópera do Mallandro -, talvez eu corra o risco de me tornar um desmemoriado. Cabe dizer que já detectei o primeiro sintoma: não suporto assistir a Chaves há longos anos. E não sinto a menor falta.

O que vai acontecer a este blog nos próximos dias

sexta-feira, 6 junho, 2008

Bom, nos últimos dias, os posts diminuíram bastante. A culpa é dos meus preparativos para um pequeno recesso. Não digo merecido, porém necessário. Viajo este final de semana e só volto na segunda à noite. E na quarta-feira, viajo novamente com previsão de ficar ao menos uma semana fora. Apesar de o notebook ser um companheiro de viagens já calejado, as chances de eu conseguir uma conexão a internet são muito remotas. Tenho alguns posts já escritos que pretendo publicar hoje, amanhã e terça-feira, antes do período de silêncio. O mesmo vale para o Todos os Filmes. Durante a minha ausência, obviamente não haverá moderação de comentários, logo, peço paciência.

Apesar de me pretender saudavelmente desligado do mundo por uns dias, é inevitável que eu escreva alguma coisa (ô vício!); então, no meu retorno, podem esperar alguns textos novos ou requentados.

Topifaive Implicâncias pessoais

segunda-feira, 2 junho, 2008

Chame de preconceito, se quiser. Aliás, este era o título original, preconceitos pessoais, mas como a palavrinha é pesada e tem o péssimo hábito de atrair trolls (não sabe o que é um troll? Descubra aqui), mudei para algo mais ameno e levemente efeminado: implicância. Porque homem que é homem não implica com algo, o algo é que enche o seu saco. Mas as regras de etiqueta aqui não recomendam postar um título como “topifaive coisas que me enchem o saco”, então fica do jeito que está mesmo. Sem mais delongas, vamos em frente.

1) Dan Brown

É sério. Eu tentei ler O Código da Vinci, de verdade, com alguma fé e paciência. Não passei da décima página. Ao contrário do que podem pensar, eu gosto de histórias ridículas que misturam teorias de conspiração a fatos históricos, ação e sacadas absurdas, desde que não se levem a sério, poxa vida! O livro de Brown clama por ser lido como uma versão legítima da história e por isso se estrepa; deixa de ser diversão descompromissada para virar chateação. Nem Arquivo X se levava tão a sério, e, vez por outra, até ria de si mesmo. Falando em seriedade e ironia, vale a pena dar uma olhada neste artigo, O Código Dan Brown, do finado site Sobrecarga.

2) Filmes com cara de TV

Bom, isso não vale apenas para os filmes nacionais, mas pensava exatemente neles enquanto escrevia esta lista. Temos uma longa tradição televisiva se comparada a cinematográfica, e é mais do que normal esperar que a linguagem da TV se reflita em boa parte dos filmes brasileiros lançados no cinema. Isso, na verdade, não diz nada sobre as qualidades das obras, e há exemplos de filmes bons (Se Eu Fosse Você) e ruins (Olga) dirigidos por veteranos da televisão – nos casos citados, Daniel Filho e Jaime Monjardim. Mas eu confesso que não me sinto confortável em ver na telona filmes pensados, fotografados, encenados e escritos como se fossem ser exibidos na telinha. Um exemplo contrário é Luiz Fernando de Carvalho, que trabalha sempre pensando em cinema, mesmo quando está dirigindo uma telenovela.

3) Literatura do Oriente Próximo feita para emocionar ocidentais

Sim, Persépolis é uma ótima exceção a esta regrinha. E não estou me referindo aqui aos relatos jornalísticos, mas às histórias de ficção. E também excluo Orham Pamuk, escritor turco de primeiríssima. Então, do que estou falando, então? De romances best-sellers como O Livreiro de Cabul e O Caçador de Pipas. Não sei se são bons – desconfio que não – , mas tenho certeza de que não me agradariam. Isso se eu não tivesse tanta preguiça em encará-los. Não me parecem histórias sinceras, sempre me passam a incômoda impressão de ser obras apenas à procura da sensibilidade (e dos bolsos) da classe média ocidental. Posso estar enganado, mas lembra-se do título do post? É implicância mesmo.

4) Filmes com Jennifer Lopez

Não vou entrar nos méritos artísticos de Lopez, mais conhecida pelas características físicas, aliás, por uma delas, que só pode ser vista quando ela se vai – entendeu? Mas o fato é que a Srta. Lopez simplesmente não sabe escolher projetos. À exceção de um ou dois filmes bons ou bonzinhos, são quase todas bombas no pior sentido cinematográfico da palavra. As mulheres sempre reclamam quando digo isso, mas Nunca Mais é um dos piores, mais apelativos e previsíveis dramas que já vi. Olhar de Anjo? Soporífero. Maid in Manhattan? Chato. Anaconda? Insira aqui a risada do Dr. Plausível. A Sogra? Leia minha opinião aqui (momento jabá). Gigli? Está na lista dos piores do IMDB e afundou a carreira de todo pobre diabo que se envolveu com ele. O melhor filme com Lopez é Menina dos Olhos/Jersey Girl, escrito e dirigido pelo nerd Jeff Smith, papel que dura uns… dez minutos mais ou menos, já que ela morre bem no início da trama. Nada contra ela, na verdade, mas vai ter mau gosto assim na hora de escolher papéis.

5) O verbo elencar

De onde veio isso? Sério, quem deu à luz a este neologismo horroroso deveria ser obrigado a escrever “Não vou mais criar palavras feias” no quadro-negro da escola do Bart Simpson umas mil vezes. Claro que vai aparecer um espertinho para dizer que o Houaiss aceita esta forma (e aceita mesmo, mas só para assinantes UOL), porém, eu não estou dizendo que o verbo é certo ou não, só queria dizer que ele é feio pra dedéu. Evito ao máximo usá-lo, o que não é fácil, já que virou mania entre os profissionais de TI (meu habitat habitual) já faz algum tempo.