As vozes de ontem

O título deste post é incrivelmente pomposo e tolo, parece-se com a minha primeira tentativa de escrever um romance, aproximadamente quinze anos atrás (já falei nele aqui). O título besta só serve mesmo para esconder um fato bastante simples que vou narrar.

Estava de carona quando o motorista colocou um CD do Guns N’ Roses tocando November Rain. De repente, aquela orquestra, o violino, a guitarra do Slash e o vocal do Axl Rose, todo aquele conjunto de referências sonoras de adolescência me soaram apenas como ecos. Tudo era reconhecível, familiar e estranhamente datado. Por alguns segundos, senti-me como um moleque que acaba de ganhar um iPod do pai cheio de músicas que o velho colocou ali, ouvindo algo que não lhe dizia absolutamente nada. Claro, poderia ter sido qualquer outra música – sei lá, Come as You Are, talvez – a despertar este efeito estranho. Eu esperava contar com aquela música como uma referência pessoal (ainda que, na verdade, eu já não gostava muito dela à época em que fez sucesso), assumindo de vez o posto de tio que os cabelos fugitivos e os sobreviventes embranquecidos me conferem, ao possuir um gosto nitidamente anacrônico. Como alguns amigos menos jovens que ainda se empolgam em festas ao som de Bee Gees – banda que não acho ruim, mas que não desperta interesse algum além dos minutos que suas canções duram.

É bastante óbvio que as memórias emocionais são um componente crucial que permite que obras literárias, musicais ou cinematográficas continuem frescas em nossas mentes. Tais ligações não obedecem às regras da formação do gosto que deveríamos experimentar ao longo da vida. Estas obras são, de certa forma, nossas pequenas madeleines (a citação inevitável está brincando aqui nos meus neurônios, então é melhor escrevê-la para que não me atormente mais). Eu esperava realmente que November Rain (de novo: é apenas um exemplo) fosse um dos meus ratatouilles, mas descobri que ela se descolou de minhas memórias, digamos, sentimentais, o que me supreendeu. E certamente o mesmo aconteceu com outras obras e artistas. Como disse, isso nada tem a ver com qualidade ou maturidade, mas com memória e referência. Spectreman faz parte da minha infância, mas é um abacaxi que jamais voltarei a ver; por outro lado, Indiana Jones e De Volta Para o Futuro sempre serão ótimos. É a velha história das obras que continuam vivas décadas após terem sido criadas e a imensa maioria que sucumbe silenciosamente ao zeitgeist (num sentido bem livre do termo), sobrevivendo apenas na memória afetiva de seus antigos espectadores, ouvintes ou leitores.

Nestes tempos em que relembrar os anos 80 se tornou quase uma obsessão – e que tem resultado em obras divertidas, como o curta Ópera do Mallandro -, talvez eu corra o risco de me tornar um desmemoriado. Cabe dizer que já detectei o primeiro sintoma: não suporto assistir a Chaves há longos anos. E não sinto a menor falta.

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