A literatura é um gueto

Voltando de viagem a uma pequena praia antes que ela seja invadida pelos farofeiros do primeiro semestre de julho, quando um veranico costuma dar as caras por lá, decidi, num arroubo de coragem, encarar o Google Reader. Certamente a quantidade de posts que eu realmente desejo ler passa de duzentos – a culpa pelos outros 600 (!) é do io9, mega prolífico blog norte-americano sobre ficção científica, cuja assinatura muito provavalmente eu cancelarei. O que acabou me chamando alguma atenção foi certo rebuliço em torno de uma comunidade do Orkut chamada Eu Odeio Literatura.

Quando eu ainda insistia em achar alguma graça naquele amontoado de comunidades e perfis falsos, fazia parte de uma comunidade chamada Eu Odeio Fanta Uva. Era a única comunidade ridícula a qual eu havia me filiado; todas as outras eram relacionadas a desenho e literatura, e eu só estava ali por pura falta do que fazer. Ah, claro, eu não gosto de Fanta Uva, de verdade. E não duvido nada que um dia vá aparecer um sujeito aqui mesmo no blog só para deixar um comentário mal-educado de como eu deveria ter vergonha de não saber apreciar o delicioso sabor daquele suco de uva gaseificado. A minha resposta mais óbvia seria: e daí? Se eu tenho o direito de não gostar de um refrigerante, ele tem todo o direito de ficar nas nuvens toda vez que toma a substância. O mesmo vale para literatura.

O Alessandro já escreveu sobre o tema, e nem vale acrescentar muita coisa além do que ele e o Paulo já abordaram, aliás, de forma simples e genial (a observação que o Alessandro fez sobre a liberdade que K, ao menos teoricamente, teria de não reponder ao Processo, me fez pensar um bocado e decidir reler este Kafka assim que puder). Fica apenas o registro da obviedade que está no título: não importa se você lê Paulo Coelho ou Robert Musil, saiba desde já que faz parte de um gueto. Especialmente em se tratando de Brasil, em que alunos de segundo grau são incapazes de decodificar um texto que um moleque de dez anos deveria ler com um dos olhos tapados, uma das mão amarradas às costas e um dos ouvidos ligados a um iPod tocando o Créu ininterruptamente.

E mais: não apenas fazemos parte de um gueto, como, no final das contas, ele não é muito diferente, para quem o vê do lado de fora, do clube dos ferromodelistas, montanhistas ou dos sujeitos que gostam de Fanta Uva. É ridículo escrever contra os membros do clube dos odiadores de literatura ou contra seus argumentos – entre os quais, os mais comuns batem na tecla de que romances, contos e poemas não ajudam cientista algum a encontrar a cura para o câncer. Ao fazer isso, caímos naquele perigoso terreno em que confundimos gostos e convicções pessoais com supostas leis universais as quais todos os homens, estes pobres inferiores, devem ser submetidos. A longa e infinita lista das atrocidades totalitárias quase sempre começa com este equívoco, e (oh! surpresa!) a literatura é frequentemente uma das ferramentas usadas para divulgar os absurdos do novo reizinho – sim, por mais abjeto e desprezível que seja, Mein Kampf é literatura.

O horror verdadeiro reside na ausência da possibilidade de escolha, de liberdade. Enquanto tal liberdade existir (e queira Deus que, apesar de todos os que torcem contra, ela prospere), nos organizaremos em guetos habitados por pessoas cuja convivência nos é cara e querida. E, pelas razões mais diversas também, espero que eu continue a desejar a mesma liberdade àqueles que desprezam ou odeiam aquilo que me diz tanto – mesmo que eu seja incapaz de entender as suas razões.

A propósito: alguém aí sabe de um gueto para alguém interessado em peixes abissais, psicologia, física, literatura, história e uma boa e saudável dose de cultura de almanaque?

Update: Este post do Discreto Blog da Burguesia merece ser lido, bem como os comentários.

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4 Respostas to “A literatura é um gueto”

  1. Alessandro Martins Says:

    Acho que, de alguma forma, a parte do livro que melhor fala sobre isso é a parábola do homem parado diante da porta da lei, contada pelo padre a K. No filme, o padre o Anthony Hopkins.

    Agora, me diga, quantos saberão do que falei agora?

    De fato, um gueto.

  2. Marcelo Lopes Says:

    Alessandro,

    Com certeza, muito poucos…
    Vou reler o Processo, mas não vi o filme, vale a pena?

    Abs!
    Marcelo.

  3. marie toruvel Says:

    Ai, você voltou, Marcelo, querido. Que bom. Senti sua falta, viu? E eu odeio Fanta Uva, também. Beijo.

  4. Marcelo Lopes Says:

    marie,

    É muito bom estar de volta e rever os amigos.
    E seja bem-vinda ao clube dos que odeiam Fanta Uva!

    Abs!
    Marcelo.

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