Archive for julho \29\UTC 2008

Winsor McCay desenha o Superman

terça-feira, 29 julho, 2008

O título é enigmático, mas será explicado, não se preocupem. Navegando por acaso, caí no site nerd Melhores do Mundo (não confundir com o grupo de humor homônimo) e logo na sua primeira página estava o link para uma notícia muito curiosa. O artista de quadrinhos Stuart Immonen resolveu, em 1998, desenhar a origem dos vilões do Superman no estilo meticulosamente art-decó de Winsor McCay. O resultado primoroso pode ser conferido aqui no CalamityJon.

É claro que para entender o porquê desta homenagem (além da óbvia beleza) é preciso voltar aos primórdios dos quadrinhos e perceber a genialidade e influência de McCay. Nascido em 1867, já nos primeiros anos do século XX estaria criando tiras com o que seriam suas marcas registradas: a exploração do mundo dos sonhos, os quadros estáticos e a antecipação de movimetos artísticos que viriam poucas décadas depois, como o surrealismo. Mas seu auge viria com Little Nemo in Slumberland, que narrava os delírios imaginativos de um menino,  invariavelmente terminando com ele caindo da cama. Os autores de Comics – Uma História Ilustrada da B.D., Alan e Laurel Clark, fazem uma observação curiosa sobre o trabalho e a influência de McCay, comparando-o ao pioneiro da linguagem cinematográfica D.W.Griffith: “[…]McCay fez coisas ousadas no seu medium que eram ousadas, diferentes e sem precedentes, emboa tenham sido largamente imitadas depois, estabelecendo os padrões para muito da arte dos comics que estavam por vir”. McCay também foi um pioneiro da animação: Gertie the dinossaur é um clássico absoluto do gênero (antes de começar a rir do vídeo como alguns lesados fizeram durante a exibição dos filmes do mestre Ray Harryhausen no AnimaMundi, leia novamente a data da produção).

Para saber mais sobre McCay, recomendo o blog Meeting McCay, uma coleção exaustiva de textos, links e figuras não apenas sobre o criador de Little Nemo, mas também sobre animação e quadrinhos em geral. Lá eu descobri que o melhor estúdio de desenhos animados do mundo, o Ghibli (desculpe, Pixar, mas vocês também sabem que isso é verdade), produziu em 1984 um piloto do que poderia ser um filme de Little Nemo. É belíssimo e tecnicamente embasbacante – feito totalmente à mão, sem a ajuda de computadores. Infelizmente o projeto não vingou e tudo o que temos é este vídeo:

(se não funcionar, clique aqui para ver no Google Videos)

Os livros como assunto

terça-feira, 29 julho, 2008

O André Gazola, do Lendo.org, postou uma ótima lista de quatro dentro os mais caros livros do mundo (incluindo a primeira edição de Ulisses). São edições especiais, únicas ou raríssimas e o debate meio besta se eles valem o preço sugerido simplesmente não cabe aqui – valem pela curiosidade. Além dos quatro, ele fala de outra edição, tão rara quanto cara e bela.

Já no site da SuperInteressante, uma matéria cita também quatro livros misteriosos e curiosos: Os Livros do Destino, o Aurora, o Hypnerotomachia Poliphili e o Opera Omnia Paracelsi. Destes, talvez o mais fascinante seja o estranhíssimo Hypnerotomachia Poliphili: impresso em 1499, sua autoria é incerta, embora os especialistas tenham algumas opiniões bem embasadas para discordar nisso. Escrito em latim e italiano, com ilustrações que contêm alfabetos gregos e hebraicos, é talvez um dos mais raros e enigmáticos livros do mundo. Na Wikipedia há um um bom artigo a seu respeito; de qualquer forma, o MIT mantém desde 1997 (em se tratando de web, significa mais ou menos desde o pré-cambriano) uma versão digitalizada dele. Como era de se esperar, o livro já inspirou um romance no melhor estilo Dan Brown: The Rule of Four, de Ian Caldwell e Dustin Thomason, ex-alunos de Princeton e Harvard.

Lula elogia escritor português António Lobo Antunes

sexta-feira, 25 julho, 2008

Lisboa, 25 jul (EFE) – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse hoje que a obra literária do vencedor do Prêmio Camões 2007, o escritor português António Lobo Antunes, mostra o “extraordinário potencial” da língua portuguesa.

Na cerimônia de entrega do prêmio mais importante concedido a escritores de língua portuguesa, Lula destacou que este prêmio fortalece as “manifestações literárias da rica e diversa cultura” dos países lusófonos.

A notícia completa está aqui.

Eu só gostaria de poder perguntar ao Lula qual é o livro do Antunes de que ele mais gosta.

Os Melhores Filmes de Cada Ano Que Vivi – Parte 3 (final)

sexta-feira, 25 julho, 2008

O final da lista, cobrindo os anos de 1995 a 2007.

1995: Os Suspeitos

Ou Seven. Fiquei com Usual Suspects porque àquela época eu caí feio na armadilha de Kevin “Verbal” Spacey. A cara de idiota do delegado interpretado por Chazz Palminteri, após descobrir ter sido enganado com detalhes engenhosamente construídos por um antagonista muito acima da média era a minha também. Desde então, Keizer Söize entrou para a cultura pop.

1996: Fargo

Mais um dos irmãos Coen. O seu universo de personagens apalermados e cruéis talvez nunca esteve tão bem como em Fargo, interpretados por alguns de meus atores favoritos: William H. Macy, Frances MacDormand e Steve Buscemi. Prova de que nem todo bandido precisa ser esperto para render um bom filme, mas se suas ações vierem acompanhadas por um roteiro inteligente e fartas doses de humor negro, tanto melhor.

1997: A Outra Face

Hollywood importou o chinês John Woo numa tentativa de dar novo fôlego ao cinema de ação com sua estilização quase musical. Seus dois primeiros filmes ianques não são ruins, mas ele só exibiria seu talento mesmo com este A Outra Face. Dirigido como uma ópera, sempre no limite exato entre o impressionante e o ridículo, John Woo faz de policiais e assassinos estilosos personagens de uma coreografia certeira, meticulosa e irresistível. Nicholas Cage e John Travolta, é duro admitir, estão ótimos.

1998: O Resgate do Soldado Ryan

Há quem diga que o impressionante filme de guerra de Spielberg esgota-se em seus primeiros minutos, a já famosíssima seqüência de desembarque em Omaha Beach. Enganam-se; o filme apenas muda de tom, mas permanece intenso durante toda a projeção. Seu “miolo” é desconcertante, repleto de episódios que aparentam desconexos e que não aderentes à trama, exatamente como a missão parece aos soldados obrigados a cumpri-la. Já o desfecho é marcado por tragédia e desesperança – sabemos que o Capitão John Miller não sobreviverá, mas isso não nos impede de sofrer pelo seu destino.

1999: Sunshine – O Despertar de um Século

István Szabó cria uma crônica épica do século XX por meio da saga de uma família judia, os Sonnenschein, da derrocada do império austro-húngaro a queda do comunismo, passando pelo nazi-facismo. As três gerações são interpretadas pelo mesmo Ralph Fiennes, que consegue imprimir diferentes qualidades aos seus personagens – todos em conflito, de uma forma ou contra, com o estado. Nunca a idéia da Europa do século XX como o “continente sombrio” ganharia uma representação tão bela, trágica e humana no cinema.

2000: Corpo Fechado

Bruce Willis é um super-herói. Isso seria o suficiente para afastar qualquer um das telas, mas M. Night Shyamalan demonstra ter talento de sobra para transformar esta premissa em cinema de primeira grandeza. Comentei no Todos os Filmes .

2001: Donnie Darko

Óbvio, não? Adolescência. Joy Division. Um guru da auto-ajuda pedófilo. INXS. Viagens no tempo. Um medonho coelho gigante. Deus, o Universo (tangente) e tudo o mais. Já falei bastante de Donnie Darko também.

2002: Arca Russa

Ano de Gangues de Nova York, mas escolho esta viagem estilística do russo Aleksandr Sokurov pelo museu Hermitage de São Petesburgo: a história da Rússia numa única e quase inacreditável tomada que levou 2 anos para ser ensaiada. Além do virtuosismo técnico, é um filme emocionante, grandioso e reverente, que termina com o último baile do grande salão, às portas da Primeira Guerra Mundial e da tragédia que se abaterá sobre o povo russo.

2003: Kill Bill

Tarantino se livra do cinismo de suas obras anteriores e abraça a cultura pop daquele seu jeito destrambelhado, apaixonado e meticuloso. É tudo tão caricato e absurdo que o sangue que jorra das cabeças decepadas não causa repulsa; é como assistir a uma peça infantil e doentia para adultos: o cenário é inapelavelmente falso e quase ridículo, mas hipnótico. É o filme mais nerd e divertido do clone do Samuel Rosa, mas apenas para quem não se importa em ver toneladas de gosma vermelha na tela.

2004: Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

Por meio de uma premissa absurda de ficção científica que parece saída de O Vingador do Futuro, o roteirista Charlie Kaufmann cria um filme ao mesmo tempo delicado e desesperado – como o sentimento que deseja retratar. O sofrimento do personagem de Jim Carrey, passeando em suas próprias memórias, sonhos, fantasias e desejos, lutando para manter as lembranças da amada que se apagam é tocante e inesquecível.

2005: O Novo Mundo

Olha, francamente, já puxei demais o saco deste filme. Leia mais aqui e aqui. E ponto.

2006: Vênus

Posso até estar fazendo uma avaliação precipitada, mas Peter O’Toole está melhor hoje do que no auge de sua popularidade. E Vênus é seu testamento. Poucos filmes têm a pretensão de falar de mortalidade, arte, amizade e sexo e ainda conseguir um resultado brilhante, emocionante e inteligente. É incrível que Vênus seja obra do mesmo diretor do correto Nothing Hill, Roger Michel, que mais tarde adaptaria Enduring Love, obra do inglês Ian McEwan, autor do meu próximo favorito…

2007: Desejo e Reparação

… , romance considerado infilmável por ter a própria literatura como razão de existência. Os fãs do livro chiaram por causa de algumas (drásticas) modificações, mas há que se reconhecer que elas funcionam maravilhosamente bem. O diretor Joe Wright já havia feito outra adaptação primorosa para Orgulho e Preconceito e extrai ótimas interpretações de seus atores, com destaque para o desfecho com Vanessa Redgrave que, com pouco tempo de cena, resume toda a trajetória de seu personagem. Também já comentado.

Leia também:

Os Melhores Filmes de Cada Ano Que Vivi – Parte 2
Os Melhores Filmes de Cada Ano Que Vivi – Parte 1

Para não dizer que não falei do Bloomsday…

quarta-feira, 23 julho, 2008

… copiei esta charge lá do Mare Nostrum.

Sobre a frase no título do blog, Alan Moore e a física

quarta-feira, 23 julho, 2008

Depois de assistir ao trailer da adaptação para cinema de Watchmen, troquei aquela frase que fica em cima da cena do universo tangente de Donnie Darko se abrindo por uma citação da tal história em quadrinhos, obra-prima do gênero publicada nos anos 80. Embora motivado pelo trailer (que não é muito empolgante, vale ressaltar), confesso que meu constante interesse por física e astronomia e a compra recente do livro O Arco-Íris de Feynman, de Leonard Mlodinow, uniram-se a lembrança do personagem Dr.Manhattan, peça central do universo de Watchmen.

Não vou explicar a trama da história; é complexa demais, cheia de detalhes inteligentes e curiosos, mas ela é geralmente resumida da seguinte forma: como seria o mundo se pessoas comuns realmente decidissem vestir um uniforne cafona e sair por aí distribuindo sopapos em vagabundos? Todos os personagens deste exercício minucioso de imaginação são pessoas comuns, sem qualquer poder especial; nada de força, vôo, visão de raio-x ou coisa parecida (no entanto, e contrariando a ordem de Os Incríveis, há capas para todos os gostos), a exceção do fascinante Dr. Manhattan. Sua origem é um clichê: cientista preso num experimento físico morre, literalmente desaparecendo no processo. Ele renasce como um ser quase onisciente e onipresente na forma de um careca marombado azul, levitante e pelado. Mas ele não se transforma em algo místico; seus poderes são, digamos, científicos e ele torna-se consciente de tudo o que ocorre no universo, perdendo a noção de passado, presente e futuro – para ele, o tempo é uma coisa só, ,como imagens entrelaçadas e não como ações interligadas.

Com o Dr. Manhattan, Alan Moore lança uma pergunta incômoda (e que não faz sentido algum para um cristão, por exemplo): por que uma criatura como ele, quase um Deus, que tem o universo a sua disposição, se importaria com a humanidade? Alheio às incertezas dos homens diante de sua existência quase improvável, Manhattan enxerga o universo de forma quase poética sem abdicar de grande rigor científico. É dessa atitude que vem a citação acima: “Tudo que vemos das estrelas são suas velhas fotografias”, referência ao fato de que as luz das estrelas leva centenas, milhares de anos para chegar aqui, por isso olhar para o céu é encarar o retrato de um passado distante. Ainda cito esta pequena maravilha dita pelo mesmo personagem: “Fui testemunha de eventos tão ínfimos que sequer posso dizer que realmente aconteceram”, um dilema dos cientistas que lidam com o micro-micro-microcosmo.

É bem verdade que a ciência tem uma capacidade irritante de destruir certas descrições quase artísticas do mundo ao reduzi-las a teorias e demonstrações com minúcias exatas e gélidas. Mas, para pessoas como o fictício Dr. Manhattan e o genial Richard Feynman, o mundo oferece belezas que apenas a ciência pode revelar, mesmo que ela venha embalada em aparente frieza. Não é à toa que o azulão de Moore acaba dividido entre a existência cientificamente onisciente e suas fraquezas delicadamente humanas – contradição que lhe permitia apreciar e não apenas observar o universo. Afinal de contas, para Feynman, a principal característica do arco-íris que chamou a atenção de Descartes para produzir o que seria a primeira descrição matemática daquele espectro de cores flutuantes foi algo incrivelmente simples: sua beleza.

Só para constar: Eu não acho que o diretor de Watchmen, Zack Snyder, vá conseguir fazer um grande filme, mas pode fazer um filme regular. Snyder parece-me o sujeito certo para produções intelectualmente mais modestas e ostensivamente estilosas, como seu melhor trabalho até agora, 300. Talvez a complexidade dos roteiros para quadrinhos de Alan Moore seja realmente intransponível para outros meios. Pouca gente sabe que nos anos 90, Terry Gilliam (sim, o Terry Gilliam) desistiu de adaptar Watchmen após uma longa conversa com o próprio Moore.

Aqui, toda a verdade sobre as Teorias de Conspiração!

terça-feira, 22 julho, 2008

Não nego: teorias de conspiração são divertidíssimas. Assisti a Arquivo X com aquela fúria encantada e um tanto ridícula dos fãs, embora as últimas temporadas tenham me desanimado a ponto de, até hoje, eu não saber exatamente no que deu aquilo tudo. Daí a acreditar que o governo norte-americano realmente tem extraterrestres em seu poder vai um caminho, não, um abismo bem longo. Teorias de conspiração costumam não sobreviver a um bom exercício de imaginação (nem precisa ser de raciocínio lógico): alguém consegue imaginar um personagem como o Canceroso de Arquivo X na vida real, um sujeito tão poderoso e influente que decide tanto o futuro da aliança terrestre-alienígena quanto o resultado do Super Bowl?

Pensava nisso enquanto lia alguns comentários sobre a equivocadamente batizada “lei seca” (não há a proibição de bebidas que justificaria este título; há, sim, uma restrição severíssima a seu consumo) que atribuíam sua costura às forças conservadoras da sociedade. Bom, não farei comentários específicos sobre a lei por duas razões simples: não tenho carro e quase não bebo. Tenho algumas opiniões a seu respeito sim, mas elas só serviriam para que algum engraçadinho venha esfregar nas minhas fuças os dois defeitos citados. O que me interessa aqui é propor um exercício de imaginação semelhante ao da existência do Canceroso: pensem numa mesa. Ao seu redor estão sentados representantes da Igreja Católica, da TFP, da Opus Dei, das emissoras de TV e dos escoteiros. Todos eles concordam que o povo brasileiro bebe demais, é preciso colocar um freio em sua tendência exagerada à socialização. Logo, concluem os membros do convescote, uma lei elitista é necessária – afinal, quem tem dinheiro para pagar táxi de depois da bebedeira todo dia a não ser azelite, como diria o nosso presidente? Pfui, suspiraria o Francis.

Pois foi exatamente esta brincadeira que Matt Groening fez em Os Simpsons, no episódio em que o âncora da TV local, Kent Brock, fala um palavrão ao vivo. Demitido da emissora, une-se a Lisa, sempre pronta a aderir a uma causa política, e torna-se um sucesso nas rádios e internet. Uma reunião do Partido Republicano é convocada e a ela comparecem, num castelo tenebroso, Krusty, um texano podre de rico, o Conde Drácula, diretores de TV e outros clichês atribuídos ao conservadorismo (não posso deixar de comentar que trata-se também de uma piada com a própria emissora que produz Os Simpsons, a Fox). Obviamente seduzido por uma proposta salarial mais alta, Brock volta a apresentar o telejornal e abandona as denúncias que fazia no YouTube. Porém, satirizar teorias de conspiração pode não ser uma boa idéia. A revista New Yorker fez a besteira de estampar sua capa com uma ilustração do candidato democrata a presidência dos EUA, Barack Obama, retratado como um terrorista islâmico. A idéia era ridicularizar as insinuações a respeito de suas origens, mas agora a publicação sofre com a reação de seus leitores, que consideraram a provocação de mau gosto. Em um caso parecido, o desenhista Robert Crumb teve sérios problemas ao fazer uma história em que os negros invadiam e tomavam os estados sulistas, porque sua sátira violentíssima foi adotada por grupos declaradamente racistas.

Por existir tanta gente que leva a sério demais coisas que deveriam surtir apenas um sorriso de condescendência, as teorias de conspiração ainda tem longo e próspero caminho pela frente. Até porque, dada a quantidade de teorias existentes, é matematicamente garantido que algumas delas se mostrem verdadeiras. Para a decepção de muitos, dificilmente serão as mais delirantes e curiosas – ETs cabeçudos na Casa Branca estão fora de cogitação. De qualquer forma, para os que querem acreditar apesar de não confiarem em ninguém, nesta sexta-feira estréia o filme Arquivo X 2. O pior é que muito provavelmente perderei duas horas de minha vida com ele.

Observação 1: Curiosamente, uma idéia que já me ocorreu é a história de um sujeito comum, um pouco mais inteligente do que a média e que dedica as horas vagas a caça e investigação solitária de fatos e eventos insólitos. No fundo, ele sabe que provavelmente não encontrará nada de muito interessante, mas esta leve obsessão (?) torna sua vida mais confortável e lhe oferece um sentido, ainda que frágil. Então, algo realmente digno de nota acontece – ou ele acredita ter presenciado algo notável. O que ele fará e qual o impacto desta descoberta em sua vida? Talvez eu desenolva esta idéia um dia.

Observação 2: Um fã de Mulder e Scully compilou a linha do tempo da tal conspiração alienígena do seriado e produziu um documento extenso, obcecado e impossível de ser lido até o final.

Os últimos do Todos os Filmes

sábado, 19 julho, 2008

Qual a razão para a frequência de posts no Todos os Filmes ter diminuído tanto ainda é um mistério; de qualquer forma, eis os poucos de que falei desde que voltei de minhas férias:

Idiocracia

Cloverfield – Monstro

Querido Frankie

Wall-E

Provoked: Desejo de Liberdade

Os Melhores Filmes de Cada Ano Que Vivi – Parte 2

sábado, 19 julho, 2008

Agora, para os anos de 1985 a 1994. A lista muda um pouco.

1985: Ran

Kurosawa pega Rei Lear, torce, retorce, dá um jeito de tacar a história no Japão feudal e, milagrosamente, faz tudo funcionar. Épico de verdade, duro, belíssimo, trágico, se eu não me engano é o filme favorito de Spielberg. Akira Kurosawa era mais famoso no ocidente do que em sua terra, por seu estilo ser considerado “ocidental demais” – seus últimos filmes, incluindo o magnífico Sonhos, só ganharam as telas graças ao dinheiro de cineastas-fãs como George Lucas, o já citado Steve e Scorcese.

1986: A Missão

Muito provavelmente A Missão tornou-se um filme datado, ou melhor dizendo, o tipo de produção que fez enorme sucesso em sua época de lançamento e acaba esquecido anos depois. Pode ser, mas para mim a força deste relato do embate entre portugueses, espanhóis, jesuítas e índios em Sete Quedas das Missões continua viva, reforçada, claro, pela trilha sonora de Ennio Morricone. Dirigido por Roland Joffé, que recebeu a Palma de Ouro em Cannes por este trabalho.

1987: Os Vivos e os Mortos

Mais uma adaptação literária, desta vez de James Joyce – a transposição do conto Os Mortos, do livro Dublinenses, é o último trabalho de John Huston, que o dirigiu já em cadeira de rodas. Melancólica visão do tempo que não pode mais ser recuperado, é uma obra-prima em cada cena; tão belo quanto triste e delicado.

1988: Ligações Perigosas

Milos Forman convoca um elenco de primeira – Michelle Pfeiffer, John Malkovich, Glenn Close e Uma Thurman – para encenar uma história irônica, cruel e arrebatadora que, nas mãos erradas, poderia se transformar num novelão bem fotografado. Felizmente, Forman entende o que se esconde por trás da aparente superficialidade dos personagens e transforma um joguinho de sedução num recorte tenso e pouco lisonjeio da humanidade. Há outras duas versões contemporâneas: Valmont, que é digno, e uma medonha adaptação teen cujo nome eu sempre me esqueço, graças a Deus.

1989: Cinema Paradiso

Assim como o leitor apaixonado se identifica com o personagem que devota seu intelecto à literatura, cinéfilos geralmente apreciam filmes que falam de… cinema. Mas poucos chegam a sensibilidade de Cinema Paradiso, do italiano Giuseppe Tornattore, que fala de um tipo de cinema e de relação do público com este mundo que, se não está absolutamente extinto, desaparecerá por completo em muito pouco tempo. A sequência final, em que Toto, já adulto, vê as cenas românticas cortadas dos rolos de filme pelo padre de sua infãncia é a mais simples, eficiente e emocionante homenagem que a grande tela já recebeu por si mesma – e eu confesso ter chorado da primeira vez que a vi. Ao som do lírico Morricone.

1990: Ajuste Final

Gosto dos irmãos Cohen e ainda que seu melhor filme ainda seja Barton Fink, Ajuste Final é um espetáculo cinematográfico puro em sua crueldade, na frieza de sua fotografia e no abismo moral em que trafegam seus personagens. Gabriel Byrne está perfeito, como nunca mais estaria em filme algum – exceto, talvez, em Os Suspeitos.

1991: A Dupla Vida de Veronique e O Silêncio dos Inocentes

Eu prometi a mim mesmo que não faria isso: permitir um empate, mas 1991 soterrou este juramento com duas obras opostas e magníficas. A Dupla Vida de Veronique é a obra-prima definitiva do polonês Kielowski, em que o roteiro pouco importa; sabemos que Weronika e Véronique são duplos e que a sobrevivência de uma depende da anulação da outra, pouco mais do que isso. A cena do teatro de bonecos merece lugar de destaque na história do cinema. No outro extermo, Jonathan Demme também assina sua melhor produção: O Silêncio dos Inocentes, o filme que coroaria um gênero tipicamente norte-americano, a caçada ao serial killer. Com um roteiro inteligentíssimo e repleto de significados, O Silêncio nos legou Hannibal Lecter, a mais aterradora representação do poder sedutor do mal. Mas não se engane com as continuações e prequels.

1992: O Jogador

Àquele ano, a visão de Robert Altman dos bastidores de Hollywood foi aclamada como irônica, ácida, cáustica, este tipo de adjetivo bastante comum nos segundos cadernos. Vê-la agora permite perceber que não passava de uma imensa e hilária piada que o veterano diretor contava aos seus fãs – uma piada particularmente inteligente, claro.

1993: A Lista de Schindler

Eu sei, você sente cheiro de obviedade no ar. Fazer o quê? A saga de Schindler me impressionou bastante. Destaco uma das sequências mais tensas: o oficial nazista tenta matar um operário judeu e quando sua arma falha uma, duas, três vezes é como se aquele homem morresse a cada tentativa. Assim como O Resgate do Soldado Ryan, A Lista de Schindler tem força própria suficiente para escapar da armadilha didática que o diretor armou para sua própria produção.

1994: Ed Wood

Ed Wood foi o pior diretor do mundo – pelo menos, até o infame Uwe Boll -, criador de pérolas trash como Glen ou Glenda e Plano Nove do Espaço Sideral, apontado quase sempre como o mais pavoroso filme já realizado pela espécie humana. Mas Wood amava o cinema e nem fazia idéia de suas limitações, ultrapassadas sempre por um entusiasmo quase tão grande quanto sua cara-de-pau – chegou a convencer uma igreja batista a financiar suas histórias de terror! Tim Burton repete sua parceria habitual com Johnny Depp e refaz o período mais fértil da vida de Ed Wood em um preto e branco espetacular. O ponto alto vai para o encontro fictício de Wood com Orson Welles, quando ambos relatam os mesmos problemas e maravilhas do desafio de se fazer filmes.

Algumas observações sobre Tonio Kröger, de Thomas Mann

quinta-feira, 17 julho, 2008

Quando li Tonio Kröger, o fiz naquela edição de 2000 da Nova Fronteira que trazia também Morte em Veneza (tradução de Eloísa Ferreira Araújo Silva). Para meu azar, o fato de ter lido, em primeiro lugar, a saga decadente de Aschenbach na terra dos canais acabou ofuscando o relato de Kröger. Felizmente, por indicação de uma amiga e depois de longos anos, reli Tonio Kröger duas vezes e fui surpreendido por uma bela e pertinente discussão sobre o artista e a arte. De repente, por mais estranho que seja cronologicamente (Morte é de 1912 e Tonio de 1903), sua união neste volume faz algum sentido.

O livro (uma novela, bem curta) narra o amadurecimento intelectual do personagem-título, filho de família tradicional que termina como escritor consagrado. São marcos afetivos de sua trajetória as paixões adolescentes por Hans Hanssen, um colega de escola, e pela linda Inge Holm, atrações depois substituídas pela amizade com a pintora Lisaweta Iwanova. Mann não perde tempo com descrições e histórias sobre Kröger; em poucas linhas, sabemos de suas origens e andanças pelo mundo, sempre incapaz de se adaptar integralmente a qualquer uma das duas situações. O ponto alto do livro é seu diálogo com Lisaweta, quando ele expõe suas idéias a respeito da srte e dos artistas:

“[…]porque quem acredita que um criador tem o direito de sentir é um ignorante.[…] Se você dá muito valor ao que tem a dizer, se seu coração bate demasiado forte por seu assunto, você pode contar com um fiasco completo. Você se torna patético, sentimental, sob suas mãos surge algo pesado, de uma seriedade canhestra, sem controle, sem ironia, insípido, tedioso, banal […]”

“É necessário deixar de algum modo de fazer parte da humanidade, ser algo inumano, assumir uma posição estranhamente distante e imparcial em relação ao humano, para que se tenha condições e, acima de tudo, vontade de representá-lo, de jogar com ele, configurá-lo com bom gosto e impacto.[…]A partir do momento em que se torna homem e começa a sentir, o artista está acabado.”

“Não se deve deixar abater pela tristeza do mundo; observar, notar, aproveitar mesmo aquilo que mais nos tortura e manter de resto o bom humor, tendo plena consciência de sua superioridade moral sobre essa invenção atroz que é a existência, sim, certamente! Mas às vezes tudo isso, a despeito de todo o prazer da expressão, chega a sufocá-lo. Há algo que chamo de náusea do conhecimento, Lisaweta. Um estado em que basta ao homem ver algo com clareza para sentir-se mortalmente repugnado (e sem nenhuma disposição para perdoar), o caso de Hamlet, o dinamarquês, esse literato típico. Ele sabia o que significava ser levado ao conhecimento sem ter nascido para isso. Ver claro, aidna que através doi véu de lágrimas do sentimento, reconhecer, notar, observar e ter de deixar de lado com um sorriso aquilo que se observou ainda no momento em que as mãos se estreitam, os lábios se unem, o olhar se extingue cego pelo sentimento… Isso é infame, Lisaweta, é vil, é revoltante… Mas de que adianta se revoltar?”

“[…]nunca, jamais, vou entender que se possa venerar como ideal o extraordinário, o demoníaco. Não, eu me refiro à ‘vida’ como o eterno oposto do espírito e da arte; não é como uma visão de sangrenta grandiosidade e beleza selvagem, não é como algo incomum que a vida se apresenta a nós, seres incomuns; ao contrário, o normal, o decente, o afável é que constituem o reino para para onde se volta nossa nostalgia: a vida em sua sedutora banalidade! Está muito longe de ser um artista, minha cara, aquele cuja paixão suprema e mais profunda é o refinado, o excêntrico, o satânico, aquele que desconhece o anseio nostálgico da inocência, da simplicidade, da vida e de um pouco de amizade, dedicação, confiança e felicidade humana”

Este longo capítulo termina com a avaliação certeira e cruel que Lisaweta faz de Kröger

” – […]você, tal, como se encontra aí, sentado à minha frente, é simplesmente um burguês.”

Revelação esta que Kroger secretamente ansiava e já conhecia. Dali, viajará a sua terra natal, onde a casa de sua família tornou-se uma biblioteca, no baile verá seus antigos amores, Hans e Inge, juntos. Não se revelará, nem participará da festa:

“O escuro e o silêncio o rodeavam. Mas de lá debaixo chegava até ele, abafado e embalador, o doce e trivial compasso ternário da vida.”

O capítulo final é a carta que ele escreve endereçada à amiga Lisaweta, em que confirma a contradição pessoal que paradoxalmente faz dele um artista, e isto o consola e atormenta. Ao final, fala dos mundos que surgem de sua imaginação e da simplicidade do real:

“Mergulho meu olhar num mundo ainda por nascer, apenas um esboço que precisa ser ordenado e configurado, vejo um enxame de sombras humanas que acenam para mim para que eu as exorcize e liberte: figuras trágicas e figuras ridículas, e outras que são as duas coisas aos mesmo tempo – e por estas tenho especial afeição. Mas meu amor mais profundo e oculto pertence a esses seres de vida límpida, aos felizes amáveis e comuns.”

E, ao final, conclui:

“Não condene este amor, Lisaweta; ele é bom e fecundo. Traz em si desejo, inveja melancólica e um leve toque de desprezo e uma felicidade casta, absoluta.”