Wall-E

Há uma razão simples para eu ter criado o Todos os Filmes: percebi que estava dedicando muito espaço aqui a resenhar produções cinematográficas. Agora me dedico a escrever textos mais curtos e simples por lá e deixo o espaço aqui do Tangentão para os filmes que eu acredito merecerem mais atenção – é um fato notório que a audiência aqui é bem maior do que lá. E este post sobre Wall-E (pronuncia-se como o nome “Wally”), a mais recente produção Disney/Pixar existe porque o filme é tão bom (não; na verdade, ele é magnífico) que a vontade que tenho é de contar isso ao maior número possível de pessoas.

Não que outros filmes não tenham me causado a mesma sensação recentemente; O Novo Mundo, de Terrence Mallick e Os Vivos e os Mortos, último filme de Jonh Huston a partir do conto The Dead, de James Joyce, são duas produções recentemente vistas que só consigo descrever como perfeitas. E, agora, Wall-E . Já antevejo chatos de plantão que já devem estar preparando seus ágeis dedos para os comentários: como eu ouso comparar um desenho animado infantil às obras de Huston e Mallick? A resposta é tão simples quanto surpreendente para alguns: o gênero de uma obra não determina sua qualidade. Um desenho animado pode conter doses suficientes de inteligência, boas idéias e bons personagens, além do já esperado maravilhamento visual para ser considerado uma obra-prima. Não fosse isso verdade, ou melhor dizendo, não houvesse mais pessoas que se livram deste tolo preconceito sobre gêneros e suporte de uma obra artísitica, o japonês Hayao Miyazaki e seu belíssimo A Viagem de Chihiro/Spirited Away jamais teriam recebido o Urso de Ouro em Berlim. Não é à toa que Miyazaki é reverenciado pelos animadores da Disney/Pixar.

A Pixar está, desde Os Incríveis, experimentando os limites do que pode feito num desenho animado comercial norte-americano, apesar da escorregadela na simplicidade excessiva do roteiro de Carros. Seu filme anterior, Ratatouille, resultou quase incompreensível para crianças muito pequenas e irresistível para os adultos. Em Wall-E, eles foram incrivelmente espertos: os trailers davam a impressão de ser um filme voltado exclusivamente aos pequenos, que arrastaram seus pais aos shoppings. Dentro da sala de cinema, nós, os adultos, nos vimos frente a um daqueles raríssimos momentos em que o imenso amor que cada profissional possui por seu trabalho fica evidente em cada cena, cada detalhe. E são estes detalhes que enriquecem a experiência inesquecível que é assistir a Wall-E.

Há muito de Charlie Chaplin no pequeno robozinho solitário que limpa a Terra, como se ela pudesse ser preparada para o nosso retorno, 700 anos depois que a abandonamos, imersa em lixo. Wall-E (o nome do filme é o mesmo do personagem principal) adquiriu uma certa consciência depois de tanto tempo sobrevivendo aqui e coleciona os pequenos artefatos de nossa civilização: isqueiros, lâmpadas, até uma caixinha que continha um anel de brilhantes que ele rejeita. Esta é uma relação de profundo carinho para com a humanidade; na verdade, nos reconhecemos naqueles pequenos objetos, sabemos instintivamente que cada um deles foi parte de uma história e que a soma de todas elas fala muito sobre nossa espécie. Os animadores conseguiram fazer de um robozinho aparentemente limitado um ser curioso, ingênuo e determinado, como talvez gostaríamos de ser, dono de uma mobilidade insuspeita e de um olhar vivo, cativante, quase sempre um pouco triste. Já a bela Eve, sua paixão, é um poderosíssimo iPod flutuante que descobrirá sua própria consciência graças ao pequeno e enferrujado Wall-E. E não apenas ela: todos os que tiverem contato com ele, de forma acidental ou não, terão o seu rumo drasticamente alterado.

Preciso parar por aqui para não falar demais sobre o filme àqueles que ainda não o viram. De qualquer forma, destaco: a seqüência inicial, a importância das mãos para Wall-E, o balé encantador de Wall-E e Eve no espaço, o desfecho clichê, embora delicado, e os belíssimos créditos, que continuam a história a partir do final do filme homenageando estilos de desenho/pintura, das pinturas rupestres a Van Gogh – e tudo isso ao som de Down to Earth, de Peter Gabriel.

Wall-E é a obra-prima da Pixar. Será citado daqui a dezenas de anos como E.T. (inspiração óbvia para o design de Wall-E) é até hoje e, como o filme-ícone de Spielberg, fará parte das memórias afetivas de muitas pessoas. Das minhas já faz, com certeza. E não, eu não passei da idade para isso.

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2 Respostas to “Wall-E”

  1. Wall-E (EUA, 2008) « Todos os filmes Says:

    […] Wall-E (EUA, 2008) Publicado Julho 5, 2008 Cinema Obra-prima. Filme perfeito. Escrevi um pouco mais sobre Wall-E no Universo Tangente. […]

  2. léo e só Says:

    Cada dia mais a Pixar se supera naquilo que ela promete. Boas histórias!
    Realmente “CARS” é o filme mais fraquinho, mas bem melhor que a média.
    Poxa, Marcelo, será que um dia vamos ver um filme do estudio ganhar um Oscar de melhor filme.
    Se bem , quando isso acontecer, existirá um critico rabugento e burro condenado a infantilizando do público. Usando o desenho como bode para as nossas falhas.
    Ah, eu não sei se você sabe mas, a EVE foi desenhada pelo mesmo cara que fez desenho do Ipod e do Ipone na Apple. Li na Set.

    abs

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