Tudo dá muito trabalho

Confesso ficar realmente entristecido, quando não francamente irritado, quando converso com pessoas que insistem em classificar romances inteiros como “livrinhos”, jogos digitais complexos como “joguinhos” e animações geniais como “desenho para criança”. Há, nestas afirmações um tanto de ignorância no sentido puro da palavra (a ausência de conhecimento sobre algo) e, muitas vezes, um bocado de arrogância, como se o trabalho de um escritor, projetista de jogos ou animador não tivesse grande valor. Por favor, não estou aqui equiparando o resultado final do trabalho destes diferentes sujeitos; ninguém é suficientemente maluco para comparar Grand Theft Auto IV a Moby Dick. O que surpreende é a completa falta de interesse que muitas pessoas têm no trabalho que dá levar a cabo um projeto de grande envergadura, qualquer projeto.

Nenhum romance nasce pronto. Mesmo o best-seller mais mixuruca causou imensa dor de cabeça ao seu criador, que pensou em infinitas possibilidades para a história e suas persoangens. O que temos em mãos é apenas uma versão, talvez nem a melhor, da história imaginada por seu autor. É duro, é difícil, é um caminho bastante tortuoso e muitas vezes desgastante. Basta ler o interessantíssimo Para Ler Como um Escritor para entender as minúcias, as armadilhas e os cuidados que um escritor realmente preocupado com sua arte tem enquanto constrói pacientemente sua escrita. O mesmo vale para qualquer outro meio. Levar um filme para as telas é uma coisa alucinante, um trabalho tão árduo que pode levar vários anos para ser concluído, da idéia à distribuição nas salas de cinema. Também é bastante complexo, pois envolve um número incontável de equipes que mal sabem da existência umas da outras, que precisam ser gerenciadas para gerar uma obra coesa.

Não, isso não é desculpa para admirar obras menores, não é o trabalho de bastidores que vai garantir sua qualidade. Mas saber de sua existência faria muito bem a quem insiste em desqualificar o trabalho intelectual/artístico por não conhecer o longo processo de artesanato necessário para chegar até aquele ponto em que a obra pode ser vista, lida ou experimentada. Pensei nisso ao ler a entrevista de Ben Burtt no blog Ilustrada no Cinema, da Folha de São Paulo. Burtt é um gênio do som, o profissional que deu vida sonora a filmes como Indiana Jones e E.T., embora mais conhecido pela “linguagem” de R2-D2, o robô baixinho de Guerra nas Estrelas. Agora, ele volta a ser lembrado pelo seu trabalho em Wall-E, novamente envolvendo robôs que pouco ou nada falam, onde ele teve de conferir personalidade a montes de metal e circuitos usando apenas os “bips” e “clangs” que saem das máquinas fictícias. Logo, ele será novamente esquecido, o que talvez não o incomode. Mas, como certeza, ele tambem gostaria que os espectadores dos filmes pensassem apenas um pouquinho sobre as pessoas que trabalham duro para tornar tudo aquilo possível.

Anúncios

4 Respostas to “Tudo dá muito trabalho”

  1. léo e só Says:

    olá Marcelo.

    Rapaz, o que me deixa muito bravo é tratar qualquer obra que fuja dos “padrões” adulto sério como porcaria, ou coisinha pra criança.
    Adora-se mais um filme de “arte” ruim, por propor aqueles perguntas chatinhas de boutique existencialista do que um bom desenho, bem feito, que conta um boa hstória emocinante. Mas eu gosto de um filme cabeça vez ou outra! Tudo tem o seu espaço.

    Poxa, sem falar nas obras infantis que são totalmente depreciadas, mas eles não entendem, que quando uma obra feita para crianças é boa , ela acerta adultos e crianças.

    ans

    abs

  2. Marcelo Lopes Says:

    léo,

    Você disse tudo o que eu penso também. Já vi muito filme ruim travestido de “sério e adulto” ser desbancando, em minhas preferências, por desenhos animados infantis. Na verdade, muita gente (inclusive muita gente boa!) julga o “gênero” e não a obra: desenho é coisa de criança, ficção científica é chatice para nerds, filme francês é chato e por aí vai. É uma pena. Perdem a oportunidade de se expor a experiências diferentes.

    Abs!
    Marcelo.

  3. léo e só Says:

    é isso aí Marcelo. Nossa , o que eu já vi de peça infantil, ou livro infantil, dando banho em muita obra adulta, não tem por onde.

    e tem esse fator também, de se negar a descobrir novas experiências.

    É tão bom , libbertador, ter voz própria sobre cultura. Saber o que se gosta ou não,e não apenas reproduzir o miolo da Bravo ou da Cult.

    Eu já fui um reprodutor, mas que alegria hoje saber que tenho um gosto mais bem definido, e isso só experimentando um pouco de cada coisa, né não. E o melhor, esse gosto apurado também com informações técnicas e teóricas.

    ( mas eu ainda não cai na vala escura do funk e afins, inda bem!)

    abs

  4. Marcelo Lopes Says:

    léo,

    Vala escura? Isso aí é um buraco negro!
    A gente leva tempo mesmo para criar gosto próprio. Acho que o principal sintoma é quando não vemos grande graça em um escritor ou diretor incensado pelos grandes formadores de opinião. Não se trata de ser do contra, mas de descobrir uma voz própria.

    Abs!
    Marcelo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: