“Estou cercado de idiotas!”, grita o vilão

Esta é a fala clichê número um de todo malvadão de filme ou desenho animado cujos ajudantes são bestas quadradas – de Dick Vigarista ao Dr. Evil, todos foram inevitavelmente assessorados pela mais vasta galeria de incompetentes da história da cultura pop. Estivessem estes sujeitos inscritos no Aprendiz, o programa de TV preferido do Max Gehringer, o reality show não duraria um dia sequer. Infelizmente, por vezes, tenho a mesma sensação do vilão do título ao ler certas notícias. E veja que não sou nenhum gênio do mal. Aliás, gênio de coisa alguma.

O jornal USA Today (de novo, o link é só para assinantes UOL) publicou uma matéria sobre as novas caras da infidelidade conjugal em tempos de internet e televisão. Que tem muito “Jonas, 26 anos, sarado, solteiro, engenheiro” em salas de bate-papo e sites de relacionamento que na verdade não passa de “Tião Dedão, 56 anos, barriga grande e peluda, casado, 4 filhos, 1 neto, auxiliar de escritório em repartição esquecida por Deus e pelo estado”, todos nós já sabemos. O que chama a atenção, na matéria citada, é que muitos se dizem influenciados pelo estilo de vida das celebridades exibido na televisão. É como se toda essa gente não se contentasse mais em folhear a Caras no consultório do dentidas, mas admitisse, de uma hora para outra, ter a vida pautada pelo canal E! Entertainment Television. Só um detalhe: não são crianças ou adolescentes que afirmam isso; são adultos, casados e com filhos, supostamente maduros.

Não me interessa nem um pouco enveredar por uma discussão sobre a moralidade do adultério aqui, o que me surpreende é que pessoas adultas dizem que são mais influenciadas por ficções e noticiários estúpidos sobre famosos do que por seus próprios valores e seus próprios cérebros. Há algo de muito errado acontecendo quando adultos esperam que “o exemplo venha de cima”, ao citar a contuda deplorável de políticos e afins como desculpa para seus pequenos atos de falta de ética cotidiana – uma doença tipicamente brasileira. Talvez a lógica seja inversa: basta parar de considerá-los seres maduros, o que faz bastante sentido hoje em dia, e o argumento da desculpa esfarrapada começa a parecer interessante. Se considerarmos que valores fortes e bem formados, resultado de anos de experiência pessoal, não são algo que se espera encontrar num adolescente ou num adultescente, fazer uso dos valores da cultura de massa como caminho para a suposta aceitação social é um ato banal, mas não menos estúpido. Da mesma forma, falar do político que desvia milhões de reais para sua empreiteira ao justificar a merreca paga ao guarda da esquina pode parecer perfeitamente válido para muitos, mas não deixa de ser canalhice. E nem menciono o fato de que é a típica atitude mesquinha que corrobora para o contínuo pesadelo diário que é o Brasil.

Se alguém acredita piamente que traiu sua mulher com a secretária graças a influência das notícias sobre Brad Pitt deixando Jeniffer Aniston para ficar com Angelina Jolie, ou acha que é correto conseguir uma sinecura com a ajudinha daquele amigo do cunhado da irmã do pai do sobrinho do vereador recém-empossado porque em Brasília roubam-se milhões, o diagnóstico é um só: o cidadão analisado só pode ser um idiota. Por isso, gritemos todos juntos, “Estou cercado de idiotas!”. E de canalhas também.

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