Os Filhos de Anansi, de Neil Gaiman

O inglês Neil Gaiman não é um escritor conhecido apenas por seus livros; embora isso já tenha sido observado antes, vale a pena dizer que ele representa um tipo de autor que não tem medo de se arriscar em diversas mídias, mesmo que os resultados sejam irregulares. Mantém um blog atualizado constantemente, escreve histórias em quadrinhos (Sandman), roteiros de filmes (Beowulf) e livros (Stardust, Deuses Americanos, Os Caçadores de Sonhos), tendo se tornado um autor admirado em vários países. Curiosamente, é bem popular no Brasil, onde Sandman foi traduzido antes de qualquer outro lugar. Sua passagem pelo Flip 2008 gerou uma fila de autógrafos com mais de 600 pessoas, a maioria esmagadora bem jovem.

Os Filhos de Anansi é um de seus últimos livros, publicado aqui pela editora Conrad. Segue a idéia básica do universo mitológico criado por Gaiman e que aparece também em Deuses Americanos: a de que os deuses quase esquecidos e/ou não mais cultuados passam a viver entre os homens. Neste caso, Anansi, o deus-Aranha africano, que roubou todas as histórias do Tigre; por isso, as histórias interessantes do mundo falam sobre inteligência e humor e não sobre força e violência, qualidades do rancoroso deus-felino. Charles Nancy, ou melhor, Fat Charlie, não sabe que seu pai recém-falecido,Sr. Nancy, é este deus-aranha e que possui um irmão em tudo contrário a si mesmo. Charlie é um zero à esquerda, que deixa a vida levá-lo a reboque, com uma bela (e virgem) noiva, além de um chefe corrupto e uma futura sogra capaz de reclamar do fato de a Terra girar ao redor do Sol. Seu até então desconhecido irmão, Spider, parece ter herdado todas as características do pai, o que deixa Charlie louco, uma vez que ele atribui a pasmaceira de sua vida às constantes bricadeiras às quais ele era submetido pelo Sr. Nancy em sua infância. O que ele não poderia prever é que Spider transformaria sua vida pacata e ridícula numa sequência de acontecimentos bizarros, em que o mundano e o mítico se misturam o tempo todo.

Exibindo um domínio extraordinário da arte de criar personagens plausíveis, Gaiman deixa a solenidade e a seriedade de obras anteriores de lado e investe num texto leve, rápido, mas nem por isso menos preciso, afiado, com clara supremacia dos (ótimos) diálogos sobre as descrições. É um livro que se lê com um sorriso no canto dos lábios, de vez em quando torcendo para que Charlie seja menos azarado ou mané. Prova de que literatura de entretenimento não precisa nem deveria ser burra, Os Filhos de Anansi surpreende pelo absurdo das situações e pelo modo como elas vão se complicando ao longo da narrativa, gerando mudanças cruciais nos personagens. Se há algo que quase atrapalha a saga do Sr. Nancy e seus filhos é a sensação de que estamos lendo um futuro roteiro de cinema (de fato, Gaiman está trabalhando nisso neste momento) em que tudo está devidamente amarrado e será resolvido em sua conclusão. Não é exatamente um defeito nem diminui a graça do livro, mas diminui a propensão que o leitor possuía a ser surpreendido e que fora alimentada pelo desenrolar da trama.

Mesmo assim, será óbvio para o leitor mais atento, ao final da leitura, que ele acaba de ter contato com uma história ao estilo do deus-aranha – eis uma das sacadas mais inteligentes de Neil Gaiman. O livro muda de estilo ao longo da narrativa, começa modorrento como a vida de Charlie e vai se intensificando conforme Spider introduz esquisitices em seu dia-a-dia. As situações inacreditáveis, o caos crescente, a leveza, alguma dose de ironia, bastante humor e uma disposição fanfarrã (existe isso?) em enfrentar grandes perigos com um sorriso no rosto fazem de Os Filhos de Anansi o tipo de história que o próprio Anansi contaria com prazer.

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Uma resposta to “Os Filhos de Anansi, de Neil Gaiman”

  1. Errei de novo… « Universo Tangente Says:

    […] Universo Tangente A mais perigosa visão do mundo pertence a aqueles que jamais o contemplaram. – Alexander von Humboldt « Os Filhos de Anansi, de Neil Gaiman […]

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