Algumas observações sobre Tonio Kröger, de Thomas Mann

Quando li Tonio Kröger, o fiz naquela edição de 2000 da Nova Fronteira que trazia também Morte em Veneza (tradução de Eloísa Ferreira Araújo Silva). Para meu azar, o fato de ter lido, em primeiro lugar, a saga decadente de Aschenbach na terra dos canais acabou ofuscando o relato de Kröger. Felizmente, por indicação de uma amiga e depois de longos anos, reli Tonio Kröger duas vezes e fui surpreendido por uma bela e pertinente discussão sobre o artista e a arte. De repente, por mais estranho que seja cronologicamente (Morte é de 1912 e Tonio de 1903), sua união neste volume faz algum sentido.

O livro (uma novela, bem curta) narra o amadurecimento intelectual do personagem-título, filho de família tradicional que termina como escritor consagrado. São marcos afetivos de sua trajetória as paixões adolescentes por Hans Hanssen, um colega de escola, e pela linda Inge Holm, atrações depois substituídas pela amizade com a pintora Lisaweta Iwanova. Mann não perde tempo com descrições e histórias sobre Kröger; em poucas linhas, sabemos de suas origens e andanças pelo mundo, sempre incapaz de se adaptar integralmente a qualquer uma das duas situações. O ponto alto do livro é seu diálogo com Lisaweta, quando ele expõe suas idéias a respeito da srte e dos artistas:

“[…]porque quem acredita que um criador tem o direito de sentir é um ignorante.[…] Se você dá muito valor ao que tem a dizer, se seu coração bate demasiado forte por seu assunto, você pode contar com um fiasco completo. Você se torna patético, sentimental, sob suas mãos surge algo pesado, de uma seriedade canhestra, sem controle, sem ironia, insípido, tedioso, banal […]”

“É necessário deixar de algum modo de fazer parte da humanidade, ser algo inumano, assumir uma posição estranhamente distante e imparcial em relação ao humano, para que se tenha condições e, acima de tudo, vontade de representá-lo, de jogar com ele, configurá-lo com bom gosto e impacto.[…]A partir do momento em que se torna homem e começa a sentir, o artista está acabado.”

“Não se deve deixar abater pela tristeza do mundo; observar, notar, aproveitar mesmo aquilo que mais nos tortura e manter de resto o bom humor, tendo plena consciência de sua superioridade moral sobre essa invenção atroz que é a existência, sim, certamente! Mas às vezes tudo isso, a despeito de todo o prazer da expressão, chega a sufocá-lo. Há algo que chamo de náusea do conhecimento, Lisaweta. Um estado em que basta ao homem ver algo com clareza para sentir-se mortalmente repugnado (e sem nenhuma disposição para perdoar), o caso de Hamlet, o dinamarquês, esse literato típico. Ele sabia o que significava ser levado ao conhecimento sem ter nascido para isso. Ver claro, aidna que através doi véu de lágrimas do sentimento, reconhecer, notar, observar e ter de deixar de lado com um sorriso aquilo que se observou ainda no momento em que as mãos se estreitam, os lábios se unem, o olhar se extingue cego pelo sentimento… Isso é infame, Lisaweta, é vil, é revoltante… Mas de que adianta se revoltar?”

“[…]nunca, jamais, vou entender que se possa venerar como ideal o extraordinário, o demoníaco. Não, eu me refiro à ‘vida’ como o eterno oposto do espírito e da arte; não é como uma visão de sangrenta grandiosidade e beleza selvagem, não é como algo incomum que a vida se apresenta a nós, seres incomuns; ao contrário, o normal, o decente, o afável é que constituem o reino para para onde se volta nossa nostalgia: a vida em sua sedutora banalidade! Está muito longe de ser um artista, minha cara, aquele cuja paixão suprema e mais profunda é o refinado, o excêntrico, o satânico, aquele que desconhece o anseio nostálgico da inocência, da simplicidade, da vida e de um pouco de amizade, dedicação, confiança e felicidade humana”

Este longo capítulo termina com a avaliação certeira e cruel que Lisaweta faz de Kröger

” – […]você, tal, como se encontra aí, sentado à minha frente, é simplesmente um burguês.”

Revelação esta que Kroger secretamente ansiava e já conhecia. Dali, viajará a sua terra natal, onde a casa de sua família tornou-se uma biblioteca, no baile verá seus antigos amores, Hans e Inge, juntos. Não se revelará, nem participará da festa:

“O escuro e o silêncio o rodeavam. Mas de lá debaixo chegava até ele, abafado e embalador, o doce e trivial compasso ternário da vida.”

O capítulo final é a carta que ele escreve endereçada à amiga Lisaweta, em que confirma a contradição pessoal que paradoxalmente faz dele um artista, e isto o consola e atormenta. Ao final, fala dos mundos que surgem de sua imaginação e da simplicidade do real:

“Mergulho meu olhar num mundo ainda por nascer, apenas um esboço que precisa ser ordenado e configurado, vejo um enxame de sombras humanas que acenam para mim para que eu as exorcize e liberte: figuras trágicas e figuras ridículas, e outras que são as duas coisas aos mesmo tempo – e por estas tenho especial afeição. Mas meu amor mais profundo e oculto pertence a esses seres de vida límpida, aos felizes amáveis e comuns.”

E, ao final, conclui:

“Não condene este amor, Lisaweta; ele é bom e fecundo. Traz em si desejo, inveja melancólica e um leve toque de desprezo e uma felicidade casta, absoluta.”

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4 Respostas to “Algumas observações sobre Tonio Kröger, de Thomas Mann”

  1. marie tourvel Says:

    Gosto muito de Tonio Kröger. Morte em Veneza também é demais. Gosto também dos embates de Settembrini e Naphta da Montanha Mágica. Gosto de ler Thomas Mann. Obrigada por lembrar-me de Tonio Kröger. 🙂 Um beijo, querido.

  2. Marcelo Lopes Says:

    Marie,
    Acredita que ainda não li A Montanha Mágica? Até pensei em escrever um post chamado “Os melhores livros que não li” depois disso. E obrigado por me lembrar dele, porque preciso e quero lê-lo assim que puder!

    Abs!
    Marcelo.

  3. Fernanda Says:

    eu estou adorei esse livro!Eu tbm gostei de morte em veneza, os sofrimentos do jovem werther, lolita, etc.
    Adoro muito ler esses tipos de literatura, muitos deles eu li aos 9, por exemplo lolita, hoje em dia eu tenho 14 e converso as vezes com alguns professores meus a respeito dos livros.Esse ai por exemplo foi minha professora de geografia que me recomendou.
    Bjs

  4. antonio augusto Says:

    De certa maneira, tropecei no mesmo equívoco: também deixei que Morte em veneza obscurecesse Tonio Kröger. É provável que a tensão que há no primeiro promova o outro como algo de somenos, roçando no inofensivo exercício literário. Ledo engano! Para quem escreve e já saiba que escrever é sublimação da própria existência, Tonio Kröger é um grande achado, mercendo inúmeras releituras, permitindo que se tornem meticulosos estudos, seja sobre Mann, seja sobre a escritura enquanto processo, seja sobre o papel daquele que muitas vezes foge da vida pelo simulacro da arte. Antonio Augusto

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