Os Melhores Filmes de Cada Ano Que Vivi – Parte 2

Agora, para os anos de 1985 a 1994. A lista muda um pouco.

1985: Ran

Kurosawa pega Rei Lear, torce, retorce, dá um jeito de tacar a história no Japão feudal e, milagrosamente, faz tudo funcionar. Épico de verdade, duro, belíssimo, trágico, se eu não me engano é o filme favorito de Spielberg. Akira Kurosawa era mais famoso no ocidente do que em sua terra, por seu estilo ser considerado “ocidental demais” – seus últimos filmes, incluindo o magnífico Sonhos, só ganharam as telas graças ao dinheiro de cineastas-fãs como George Lucas, o já citado Steve e Scorcese.

1986: A Missão

Muito provavelmente A Missão tornou-se um filme datado, ou melhor dizendo, o tipo de produção que fez enorme sucesso em sua época de lançamento e acaba esquecido anos depois. Pode ser, mas para mim a força deste relato do embate entre portugueses, espanhóis, jesuítas e índios em Sete Quedas das Missões continua viva, reforçada, claro, pela trilha sonora de Ennio Morricone. Dirigido por Roland Joffé, que recebeu a Palma de Ouro em Cannes por este trabalho.

1987: Os Vivos e os Mortos

Mais uma adaptação literária, desta vez de James Joyce – a transposição do conto Os Mortos, do livro Dublinenses, é o último trabalho de John Huston, que o dirigiu já em cadeira de rodas. Melancólica visão do tempo que não pode mais ser recuperado, é uma obra-prima em cada cena; tão belo quanto triste e delicado.

1988: Ligações Perigosas

Milos Forman convoca um elenco de primeira – Michelle Pfeiffer, John Malkovich, Glenn Close e Uma Thurman – para encenar uma história irônica, cruel e arrebatadora que, nas mãos erradas, poderia se transformar num novelão bem fotografado. Felizmente, Forman entende o que se esconde por trás da aparente superficialidade dos personagens e transforma um joguinho de sedução num recorte tenso e pouco lisonjeio da humanidade. Há outras duas versões contemporâneas: Valmont, que é digno, e uma medonha adaptação teen cujo nome eu sempre me esqueço, graças a Deus.

1989: Cinema Paradiso

Assim como o leitor apaixonado se identifica com o personagem que devota seu intelecto à literatura, cinéfilos geralmente apreciam filmes que falam de… cinema. Mas poucos chegam a sensibilidade de Cinema Paradiso, do italiano Giuseppe Tornattore, que fala de um tipo de cinema e de relação do público com este mundo que, se não está absolutamente extinto, desaparecerá por completo em muito pouco tempo. A sequência final, em que Toto, já adulto, vê as cenas românticas cortadas dos rolos de filme pelo padre de sua infãncia é a mais simples, eficiente e emocionante homenagem que a grande tela já recebeu por si mesma – e eu confesso ter chorado da primeira vez que a vi. Ao som do lírico Morricone.

1990: Ajuste Final

Gosto dos irmãos Cohen e ainda que seu melhor filme ainda seja Barton Fink, Ajuste Final é um espetáculo cinematográfico puro em sua crueldade, na frieza de sua fotografia e no abismo moral em que trafegam seus personagens. Gabriel Byrne está perfeito, como nunca mais estaria em filme algum – exceto, talvez, em Os Suspeitos.

1991: A Dupla Vida de Veronique e O Silêncio dos Inocentes

Eu prometi a mim mesmo que não faria isso: permitir um empate, mas 1991 soterrou este juramento com duas obras opostas e magníficas. A Dupla Vida de Veronique é a obra-prima definitiva do polonês Kielowski, em que o roteiro pouco importa; sabemos que Weronika e Véronique são duplos e que a sobrevivência de uma depende da anulação da outra, pouco mais do que isso. A cena do teatro de bonecos merece lugar de destaque na história do cinema. No outro extermo, Jonathan Demme também assina sua melhor produção: O Silêncio dos Inocentes, o filme que coroaria um gênero tipicamente norte-americano, a caçada ao serial killer. Com um roteiro inteligentíssimo e repleto de significados, O Silêncio nos legou Hannibal Lecter, a mais aterradora representação do poder sedutor do mal. Mas não se engane com as continuações e prequels.

1992: O Jogador

Àquele ano, a visão de Robert Altman dos bastidores de Hollywood foi aclamada como irônica, ácida, cáustica, este tipo de adjetivo bastante comum nos segundos cadernos. Vê-la agora permite perceber que não passava de uma imensa e hilária piada que o veterano diretor contava aos seus fãs – uma piada particularmente inteligente, claro.

1993: A Lista de Schindler

Eu sei, você sente cheiro de obviedade no ar. Fazer o quê? A saga de Schindler me impressionou bastante. Destaco uma das sequências mais tensas: o oficial nazista tenta matar um operário judeu e quando sua arma falha uma, duas, três vezes é como se aquele homem morresse a cada tentativa. Assim como O Resgate do Soldado Ryan, A Lista de Schindler tem força própria suficiente para escapar da armadilha didática que o diretor armou para sua própria produção.

1994: Ed Wood

Ed Wood foi o pior diretor do mundo – pelo menos, até o infame Uwe Boll -, criador de pérolas trash como Glen ou Glenda e Plano Nove do Espaço Sideral, apontado quase sempre como o mais pavoroso filme já realizado pela espécie humana. Mas Wood amava o cinema e nem fazia idéia de suas limitações, ultrapassadas sempre por um entusiasmo quase tão grande quanto sua cara-de-pau – chegou a convencer uma igreja batista a financiar suas histórias de terror! Tim Burton repete sua parceria habitual com Johnny Depp e refaz o período mais fértil da vida de Ed Wood em um preto e branco espetacular. O ponto alto vai para o encontro fictício de Wood com Orson Welles, quando ambos relatam os mesmos problemas e maravilhas do desafio de se fazer filmes.

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3 Respostas to “Os Melhores Filmes de Cada Ano Que Vivi – Parte 2”

  1. marie tourvel Says:

    Você sabe que em 1989, teve o “Sociedade dos Poetas Mortos”. Sei que o Robin Williams é canastrão e tal, mas gostei do filme, sim. Mas sua escolha foi mais que perfeita, Cinema Paradiso é daqueles filmes tocantes sem ser piegas. Adorei essa brincadeira. Vou fazer minha lkistinha no Letras. (Menção honrosa para Ligações Perigosas. Entende minha obviedade, né?) Beijos, querido.

  2. Marcelo Lopes Says:

    Marie,

    Sim, sim, na verdade, fiquei dividido entre dois ou até mais filmes em todos os anos da lista… E já estou a espera da sua lista!

    Abs!
    Marcelo.

  3. Raging Bull Says:

    Os melhores filmes que já assisti:

    Era uma vez na América
    Poderoso Chefão (I eII)
    Cinema Paradiso
    Cuckoos
    Cassino
    O Encouraçado Potenkim
    Raging Bull
    Goddfellas
    Ran
    Scarface
    Sem Novidades no Fron
    Uma Rajada de Balas
    Três Homens em Conflito
    Era uma vez no Oeste
    Táxi Driver
    Pulp Fiction
    Janela Indiscreta
    Pscicose
    Vertigo – Um corpo que cai
    Lawrence da Arábia
    Blues Brothers
    Série The Sorpanos
    O GOrdo e o Magro

    ETECÉTERAS

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