Sobre a frase no título do blog, Alan Moore e a física

Depois de assistir ao trailer da adaptação para cinema de Watchmen, troquei aquela frase que fica em cima da cena do universo tangente de Donnie Darko se abrindo por uma citação da tal história em quadrinhos, obra-prima do gênero publicada nos anos 80. Embora motivado pelo trailer (que não é muito empolgante, vale ressaltar), confesso que meu constante interesse por física e astronomia e a compra recente do livro O Arco-Íris de Feynman, de Leonard Mlodinow, uniram-se a lembrança do personagem Dr.Manhattan, peça central do universo de Watchmen.

Não vou explicar a trama da história; é complexa demais, cheia de detalhes inteligentes e curiosos, mas ela é geralmente resumida da seguinte forma: como seria o mundo se pessoas comuns realmente decidissem vestir um uniforne cafona e sair por aí distribuindo sopapos em vagabundos? Todos os personagens deste exercício minucioso de imaginação são pessoas comuns, sem qualquer poder especial; nada de força, vôo, visão de raio-x ou coisa parecida (no entanto, e contrariando a ordem de Os Incríveis, há capas para todos os gostos), a exceção do fascinante Dr. Manhattan. Sua origem é um clichê: cientista preso num experimento físico morre, literalmente desaparecendo no processo. Ele renasce como um ser quase onisciente e onipresente na forma de um careca marombado azul, levitante e pelado. Mas ele não se transforma em algo místico; seus poderes são, digamos, científicos e ele torna-se consciente de tudo o que ocorre no universo, perdendo a noção de passado, presente e futuro – para ele, o tempo é uma coisa só, ,como imagens entrelaçadas e não como ações interligadas.

Com o Dr. Manhattan, Alan Moore lança uma pergunta incômoda (e que não faz sentido algum para um cristão, por exemplo): por que uma criatura como ele, quase um Deus, que tem o universo a sua disposição, se importaria com a humanidade? Alheio às incertezas dos homens diante de sua existência quase improvável, Manhattan enxerga o universo de forma quase poética sem abdicar de grande rigor científico. É dessa atitude que vem a citação acima: “Tudo que vemos das estrelas são suas velhas fotografias”, referência ao fato de que as luz das estrelas leva centenas, milhares de anos para chegar aqui, por isso olhar para o céu é encarar o retrato de um passado distante. Ainda cito esta pequena maravilha dita pelo mesmo personagem: “Fui testemunha de eventos tão ínfimos que sequer posso dizer que realmente aconteceram”, um dilema dos cientistas que lidam com o micro-micro-microcosmo.

É bem verdade que a ciência tem uma capacidade irritante de destruir certas descrições quase artísticas do mundo ao reduzi-las a teorias e demonstrações com minúcias exatas e gélidas. Mas, para pessoas como o fictício Dr. Manhattan e o genial Richard Feynman, o mundo oferece belezas que apenas a ciência pode revelar, mesmo que ela venha embalada em aparente frieza. Não é à toa que o azulão de Moore acaba dividido entre a existência cientificamente onisciente e suas fraquezas delicadamente humanas – contradição que lhe permitia apreciar e não apenas observar o universo. Afinal de contas, para Feynman, a principal característica do arco-íris que chamou a atenção de Descartes para produzir o que seria a primeira descrição matemática daquele espectro de cores flutuantes foi algo incrivelmente simples: sua beleza.

Só para constar: Eu não acho que o diretor de Watchmen, Zack Snyder, vá conseguir fazer um grande filme, mas pode fazer um filme regular. Snyder parece-me o sujeito certo para produções intelectualmente mais modestas e ostensivamente estilosas, como seu melhor trabalho até agora, 300. Talvez a complexidade dos roteiros para quadrinhos de Alan Moore seja realmente intransponível para outros meios. Pouca gente sabe que nos anos 90, Terry Gilliam (sim, o Terry Gilliam) desistiu de adaptar Watchmen após uma longa conversa com o próprio Moore.

2 Respostas to “Sobre a frase no título do blog, Alan Moore e a física”

  1. rentondelarge Says:

    Antes de assistir ao filme eu prometi a mim mesmo que vou ler.
    Li algo na internet que o Alan Moore estava aborrecido com a adaptação que como você mesmo disse só tem espaço para o impresso. Agora uma dúvida se o Alan Moore costuma achar as adaptações de baixa qualidade, por que permite que sejam feitas?

  2. Marcelo Lopes Says:

    rentondelarge,

    Quando perguntado, o Alan Moore reclamou de todas as adaptações de suas obras para o cinema – e, diga-se a favor, com razão. Na verdade, ele costuma dizer em entrevistas que não considera as adaptações como obras suas e as ignora totalmente. Gosto MUITO das histórias dele, é um grande escritor de quadrinhos, um dos poucos que soube explorar o potencial da linguagem deles, mas… ele recebe pelos direitos das adaptações e, bem, todo mundo tem contas para pagar, especialmente um bruxo cabeludo inglês. Ele sabe disso e por isso fica calado.
    Já o desenhista de Watchmen, Dave Gibbons, envolveu-se com a produção do filme e está bem satisfeito – o que é compreensível, já que a construção visual parece boa mesmo.
    Leia as HQs antes de ver o filme, vale muito a pena.
    A propósito, vi seu perfil musical… Bjork, Tori Amos… Bacana, hein?

    Abs!
    Marcelo

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