Archive for agosto \27\UTC 2008

Coisas que eu gostaria de ter dito – 5

quarta-feira, 27 agosto, 2008

Voltar de um retiro involuntário e sombrio citando Diogo Mainardi é pedir, de antemão, para receber umas pedradas virtuais no cocoruto. Enfim, o que posso fazer a não ser acrescentar este post a longa série de coisas que eu gostaria de ter dito? Vamos a elas.

O Brasil fracassa no esporte pelo mesmo motivo que fracassa como país: temos uma sociedade acovardada, fujona, avessa à luta. Tudo aqui é feito para desestimular a disputa, para reprimir o desafio pessoal, para amolecer o caráter: o parasitismo estatal, a política fundada no escambo, a cultura baseada no conchavo, a repulsa por idéias discordantes. Esse nosso temperamento de rebanho inibe qualquer forma de atrito, qualquer tipo de inconformismo, qualquer espécie de enfrentamento.
Diogo Mainardi em sua coluna semanal de Veja – edição 2075 – 27 de agosto de 2008

Como disse um amigo meu quando compáravamos a nova geração de debilóides com a geração dos anos 80, Renato Russo não era nenhum Rimbaud, mas pelo menos sabia quem foi Rimbaud.
Marcos Matamoros, no Torre de Marfim, comentando parcerias musicais de doer os ouvidos.

estão fazendo as escolhas erradas? não duvido. depois de anos aprendendo a assisir às maiores futilidades na televisão, por que esperar que vão procurar ensaios críticos sobre proust na internet? se ninguém se deu ao trabalho de desligar a televisão para, digamos, ler um livro sobre física nuclear, por que esperar que essa gente vá à internet pesquisar sobre a biodiversidade no congo?
Olivia Maia, do Forsit, refutando a idéia de que a internet deixou toda uma geração burra.

Paciência

sábado, 23 agosto, 2008

Devido a perda de uma pessoa querida na família, estou afastado do blog e outras atividades até o domingo, quando retorno a minha casa. Aproveitei uma conexão discada apenas para não deixar o Universo Tangente às moscas e meus quatro leitores sem notícias. E aproveito para deixar os links de seis filmes comentados no Todos os Filmes:

Juno

Piaf – Um Hino ao Amor

O Som do Coração

Crash – No Limite

Medo e Obsessão

O Nevoeiro

Pequeno recesso

sexta-feira, 15 agosto, 2008

Esta semana os posts foram raros e minha participação em outros blogs também. Retorno na segunda-feira após resolver alguns problemas pessoais – além disso, hoje é feriado em Belo Horizonte, meu QG de operações.

A arte da Sra. Babbitt

terça-feira, 12 agosto, 2008

Existem histórias curiosas, bizarras, repulsivas, revoltantes ou simplesmente curiosas. A história de Dina Gottliebova Babbitt é daquelas que simplesmente merece ser conhecida.

A Sra. Babbit (por favor, não confundir com uma determinada Sra. Bobbit) tem 85 anos e trabalhou como artista de animação nos estúdios Warner e MGM. Infelizmente, seu talento artístico havia sido reconhecido algum tempo antes, por Joseph Mengele, quando esteve confinada em Auschwitz. Não, não se trata de um rompante de sensibilidade estética de um oficial nazista que nos acostumamos a ver em filmes sobre o Holocausto: Mengele simplesmente estava insatisfeito com a qualidade das fotos tiradas dos ciganos; queria que alguém os retratasse com fidelidade para expor sua “inferioridade” (Sério: preciso mesmo colocar aspas aqui? Quem ainda precisa ser convencido de que não há raças inferiores ou superiores, aliás, quem ainda acredita que existam raças?) e acabou se interessando pelo trabalho da Sra. Babbit. Alguns dos quadros estão em poder do Museu Memorial de Auschwitz-Birkenau, que não aceita devolvê-los a sua dona. Artistas renomados do mundo dos quadrinhos decidiram ajudá-la, liderando uma petição e criando uma história em quadrinhos de seis páginas que conta a sua história.

A notícia pode ser lida com mais detalhes aqui no UniversoHQ.

Hitchcock Blonde

quarta-feira, 6 agosto, 2008

Do site Curitiba Interativa:

Grande sensação de público e crítica do Festival de Teatro este ano, a peça Hitchcock Blonde volta a cartaz em Curitiba no Teatro José Maria Santos, no período de 24 de julho a 17 de agosto. A montagem da Cia. Vigor Mortis – dirigida por Paulo Biscaia Filho – é a primeira versão em português do texto do dramaturgo inglês Terry Johnson no Brasil e conta a história de Alex (Edson Bueno), um professor de cinema que convida Nicola (Rafaella Marques), uma jovem e atraente aluna, a ir à Grécia a fim de desvendar um mistério sobre uma série de latas de filmes que indicam um trabalho desconhecido do célebre cineasta Alfred Hitchcock (Chico Nogueira).

Clique no cartaz para ver uma versão maior:

Infelizmente, o mineirinho aqui estará na terra do pão de queijo nos próximos dias; se eu estivesse ou passasse por Curitiba, com certeza iria conferir a peça.

O Chico Nogueira, que interpreta Hitchcock, é amigo de uma amiga minha; bom, amigo de amigo meu que está numa peça que tem tudo a ver aqui com o meu pequeno espaço na internet merece toda a divulgação possível. O Universo Tangente tem nanoaudiência (termo roubado do Paulo), mas garanto que é de primeira qualidade.

Dois pesos…

quarta-feira, 6 agosto, 2008

Causou algum alarde o pacote de medidas aprovadas para regulamentar os SACs (Serviço de Atendimento ao Consumidor) telefônicos. Quem já tentou cancelar um mísero cartão de crédito que sequer é usado há meses sabe das agruras a que o consumidor pode ser obrigado a passar. A medida vem em boa hora, mas dizem que só foi para frente graças a ministros e outros figurões que teriam sido mal atendidos por call centers da vida.

Como nada é perfeito, há dois pontos que deveriam ser revistos: a obrigatoriedade de atendimento em 20 segundos e a disponibilidade 24 horas por 7 dias. Qualquer profissional ou executivo de TI/telecom sabe que manter um call center com este grau de exigência é loucura; cumprir esta norma custará muito, muito, muito caro para a maioria destas empresas, que acabarão repassando este custo. Daqui a pouco teremos algum político aproveitando-se para berrar que o custo não pode ser repassado para o consumidor – mais um típico impasse do Bananão. É verdade que agências reguladoras existem para determinar normas que visam a garantir certos parâmetros de qualidade do serviço prestado ao consumidor, mas também é verdade que não deveriam atrapalhar a atividade econômica impondo regras irreais.

Infelizmente, as empresas são as únicas responsáveis pela péssima imagem que têm; a qualidade do atendimento ao consumidor final é, na melhor das hipóteses, sofrível. No entanto, é surpreendente como a rejeição que o brasileiro tem destas instituções privadas não se reflete na avaliação que faz do estado. A começar pela aceitação deste termo ridículo: contribuinte. Em quê eu contribuo, afinal? Apenas para ampliar o caixa do estado e impedir, ou melhor, adiar a sua bancarrota. Não somos contribuintes, somos pagadores de impostos, como os norte-americanos dizem. Talvez, e bota talvez nisso, se extirpássemos de nossas cabeças essa idéia ridícula de contribuição, poderíamos nos tornar tão chatos e exigentes com o estado quanto somos com as empresas privadas.

Porque nada justifica um órgão como este aqui disponibilizar contato apenas por meio de um número de telefonia fixa – além do site, muito bom, por sinal. Por que diabos eu, que já paguei toneladas de impostos, tenho que gastar para entrar em contato com o estado? Que lógica perturbada é esta em que o estado, que me tomou parte do dinheiro que eu ganhei com meu trabalho, repassa uma parte dos custos que deveriam ser dele de novo para mim? Por que uma empresa privada é obrigada a disponibilizar um número gratuito, vulgo 0800, e o estado, para quem são desviados cinco meses de cada ano que eu e você trabalhamos, não sofre da mesma obrigação? E o mais intrigante: por que a gente aceita isso?

Recorrendo a sociologia de boteco, o brasileiro mantém com o estado uma relação ambígua de desprezo, subserviência e desejo. Desprezo porque não acredita nos políticos e nas instituições democráticas (o que é ainda pior, pois este é o flanco que os ditadores adoram usar para se inflitrar). Subserviência pois acredita que o governo e o estado são a mesma coisa e têm o direito de se meter na vida privada dos indivíduos (ninguém ficou assustado com as últimas notícias envolvendo a Polícia Federal e a telefonia) e ditar os rumos da atividade econômica. Por fim, graças àquela precisa definição de povo cordial do Gilberto Freyre; a maioria deseja uma sinecurazinha não apenas para si, mas para todos os seus agregados. Infelizmente, este ambiente não favorece o surgimento de pagadores de impostos, mas de contribuintes.

Olha, mãe: Eu sou nerd!

terça-feira, 5 agosto, 2008

 

 

Se nenhuma figura está aparecendo, clique aqui; vê-la é imprescindível para entender o texto que vai abaixo – ou não.

Eu ri da figura acima; bom, rir talvez seja exagero, eu levantei os cantos dos lábios num sorrisinho safado de aprovação pela brincadeira. Se não entendeu, fique feliz: você não é um nerd. Digamos que a piadinha seja composta por duas partes distintas: muito embora a compreensão de uma delas o candidate ao cargo de CDF do mês, entender as duas o teletransporta diretamente para o elenco de The Big Bang Theory. É o meu caso. Ainda por cima, vou tentar explicar a coisa toda com minha fantástica cultura científica formada por anos de Discovery Channel e National Geographics.

Primeiro, o tal gato do Schrödinger. Resumindo bastante, o mundo para os físicos era organizado, bonitinho e bacana até que uns cientistas propuseram algumas hipóteses bem bizarras sobre o funcionamento íntimo da matéria (atom porn?) no início do século XX. A bagunça atende pelo nome de física quântica e, dentre outras esquisitices, diz que é impossível determinar exatamente mais de uma propriedade de uma partícula. Ou seja, se medimos com exatidão sua posição não saberemos sua velocidade a não ser por observação indireta. Disso veio a idéia da dualidade onda-partícula, ou seja, a matéria pore se comportar como onda ou como partícula e o exemplo clássico disso é a luz, que é formada por ondas, mas ao mesmo tempo por partículas, os fótons. Schrödinger não tinha um gato (eu acho que não, na verdade eu espero que não), mas inventou um aparelho fictício para demonstrar os princípios da física quântica que faria o Sílvio Santos dizer “bem bolado, muito bem bolado”. Schrödinger imaginou uma caixa fechada e dentro dela um bichano, um martelo e uma vasilha fetambém fechada com cianureto. Imaginou também que se a caixa estiver num estado A, então o bichano está vivo e bem, lambendo as patas e miando. No estado B, o martelo arrebentou o frasco de cianureto e coitado do gato está mortinho. Mas, se é impossível determinar exatamente em qual estado se encontra a caixa toda, então o gato é um morto-vivo, um zumbi dos filmes de George Romero – e isso é chamado de superposição de estados. Daí que a palavra “dead” (morto) na figura pisca, possibilitanto duas leituras da frase.

Arrá, e a segunda parte da nerdice? Veja como a frase está escrita. Existem duas palavras que parecem um alfabeto alienígena: <BLINK> e </BLINK>. Esta combinação de palavras, chamadas de tags, é que diz que o texto colocado entre elas piscará. Esta sintaxe exótica pertece a uma linguagem de marcação chamada HTML – todo este blog e quase toda a web é escrita nesta linguagem. Por trás deste texto bem formatado que você lê, escondem-se centenas destas tags, que dizem se o texto está em itálico, negrito, se há uma figura no meio dele, etc. Mais ou menos a mesma coisa que você faz no Word ou no Google Docs quando marca um pedaço do texto para ficar em negrito. Claro que poucos são os seres humanos que sabem desta linguagem, e menos ainda os que a usam em seu trabalho e dia-a-dia. E são ainda menos numerosos os que têm certeza de que a tag blink, que permite a um texto piscar desavergonhadamente, é talvez a mais horrível idéia que alguém já teve para usar na internet. Segundo a Wikipedia, Lou Montulli, o sujeito que inventou esta aberração tecnológica, teria dito em repetidas entrevistas que a tag blink é “A pior coisa que eu [ele, claro] já fiz para a internet”.

O autor da figura uniu estes dois fatos (o gato morto-vivo de Schrödinger e o texto que pisca) para criar uma infame piada de óculos de aro grosso. Se você a entendeu integralmente, sinto informar, mas seu grau de nerdice é bem preocupante. Se entendeu apenas uma de suas partes, ainda tem salvação. Mas, se tudo o que foi dito aqui lhe pareceu escrito em mandarim por um sábio babilônico bêbado, então siga em frente, seja feliz e tente esquecer a minha tosca tentativa de explicar a piada. Afinal de contas, todos sabemos que uma anedota explicada perde toda a graça.

Alta literatura e literatura de massa : a distinção faz algum sentido?

sábado, 2 agosto, 2008

O Sérgio Rodrigues publicou dois posts curiosos sobre a questão e é por eles que eu começo.

No primeiro, a reação provocada pela indicação de Criança 44 ao Booker Prize 2008 – que, muito provavelmente, será vencido novamente por Salman Rushdie. Acontece que Criança 44, livro de estréia do jovem (29 anos, pouco menos do que eu… ei, sempre que surge uma oportunidade para se alardear – ou falsear – a própria juventude, não custa nada fazer uso dela, certo?) Tom Rob Smith, é um thriller sobre um assassino serial que ataca na medonha Rússia da época de Stálin.

Filme antigo

Na verdade, coisa parecida aconteceu quando a história em quadrinhos de Neil Gaiman, Sandman, venceu o World Fantasy Award, em 1991. No ano seguinte o regulamento do prêmio seria alterado para impedir a sua contaminação por esta “forma artística inferior”. A magnífica saga dos judeus na Segunda Guerra narrada por Art Spielgman na também história em quadrinhos Maus venceu o Prêmio Pulitzer e foi indicada ao National Book Critics Circle Award. Houve certa gritaria, alguns escritores espernearam, mas não teve jeito. Para piorar a situação, tanto Gaiman quanto Spielgman trataram os assuntos de suas obras com imensas doses de imaginação; se na premiada edição de Sandman temos o Mestre dos Sonhos ao lado de Shakespeare, em Maus o mundo é habitado por animais: ratos, cachorros, gatos… Não bastava ver o sagrado trono da alta literatura ser violado por representantes da cultura de massa, eles ainda traziam (oh! a infâmia!) tramas fantásticas.

Na verdade, a bagunça e o equívoco desta divisão ficariam ainda mais evidentes nas declarações de um escritor irlandês.

O médico e o monstro

O segundo post é ainda mais interessante, abordando o escritor John Banville – autor de O Mar, já comentado aqui. Banville é um escritor rígido, exigente e celebrado, mas que leva cinco anos para escrever um romance. Um processo penoso e sofrido que Benjamin Black, um bem-sucedido criador de romances policiais, capaz de criar uma história completa em seis meses, mal faz idéia do que seja. O problema é que Black é Banville. Não há como saber se o que ele diz é verdade – Banville afirma odiar os seus livros e adorar os de Benjamin Black -, mas ele dá uma dica curiosa: provavelmente o caminho de ambos vai se cruzar no futuro já que, hoje em dia, eles aprendem truques um com o outro.

Do ponto de vista do escritor, ele está certo. A satisfação de ter uma obra completa (ou aparentemente completa) após meses ou anos de trabalho duro é quase indescritível. É duro admitir isso, mas a recompensa pessoal é a mesma se a obra narra os conflitos de três gerações de imigrantes italianos radicados no sul do Brasil à época de Garibaldi ou se é um roteiro para um epsódio de 25 minutos de uma sitcom do canal Sony. O árduo mundo da criação e das (poucas) recompensas é o mesmo tanto para Philip Roth quanto para Dan Brown – ok, que não me apareça um engraçadinho aqui só para falar da polpuda conta bancária do segundo, não é a isso que me refiro agora. No filme Ed Wood, de Tim Burton, Ed Wood, o pior cineasta da história, se encontra casualmente com Orson Welles; para a surpresa do cinéfilo pedante que esperava o Welles-personagem espinafrando o pobre Wood, eles conversam animadamente. Na seqüência mais inspirada do filme e uma das mais simples e belas homenagens que a profissão de diretor poderia receber em um filme, Welles e Wood descobrem que seus problemas, obstáculos, decepções e alegrias são exatamente as mesmas.

Uma divisão artificial

Para o público médio, aquele que se guia pela lista dos mais vendidos da Veja, pouco importa se Neve estava na primeira posição em 2006, logo após Orhan Pamuk ganhar o Nobel; era um livro que deveria ser lido por critérios (para não ficar sem assunto na rodinha de amigos) que passam longe das suas (imensas) qualidades. É verdade que muita gente deve ter desistido de ler o catatau do turco com cara de Woody Allen sem complexos lá pela quinquagésima página, mas o que este exemplo quer mostrar é que a distinção entre alta literatura e literatura de massas simplesmente não existe para a maioria esmagadora dos leitores – existe para quem não faz parte deste público médio. Para a infelicidade deles, estão enganados.

Como assim enganados? Por um acaso o editor deste blog resolveu igualar escritores de final de semana a gente que labuta duro para criar um único parágrafo? Não, não estou. Estou apenas dizendo que a vendagem ou a perspectiva de venda, que caracterizaria um livro para as massas, não diz nada sobre a qualidade do que está escrito ali. António Lobo Antunes é um escritor “difícil”, mas seus livros vendem muito bem na Europa e nem por isso sua literatura pode ser chamada de entretenimento. Mais uma vez, isso parece dizer que esta distinção é artificial, já que romances de qualidade ou romances com alguma qualidade podem ser encontrados em qualquer gênero e tiragens. Entrando um pouco numa seara que confesso desconhecer, a dos romances policiais, muita gente boa que leio diz que Elmore Leonard e Roberto Bolaños são ótimos escritores, capazes de criar diálogos e personagens memoráveis. Ora, com estes exemplos todos, é bastante óbvio que um sujeito inteligente com boa bagagem cultural e ambição pode extrair maravilhas da mais batida das histórias caso se disponha a ser escritor (com certeza avisaram que existem profissões melhores, mas ele insiste) e a trabalhar duro – talento não é nada sem suor, reza o clichê.

Porém, não sou hipócrita; se o critério de escolha de leitura é a lista dos mais vendidos ou o livro da moda, então eu definitivamente não faço parte do público médio de que falei acima – sei disso. Depois de alguns anos e uma boa pilha de livros devorados, qualquer leitor desenvolve certo conhecimento, mesmo quase instintivo, que nortea suas escolhas e o leva a rejeitar determinadas obras antes mesmo de abrir suas páginas porque sabe que nada têm a lhes dizer. De fato, obras medianas que tratam de assuntos que nos interessam nos parecem mais apetitosas do que um livro supostamente genial sobre um documentarista da National Geographic registrando a reprodução da lagarta-azul-de-Kevin de Papua Nova Guiné, mas isso é assunto para outro post. De qualquer forma, confesso que a minha lista pessoal de escritores desinteressantes é aborrecidamente óbvia, nem vale a pena citar alguns de seus integrantes.

Há, claro, aquela questãozinha incômoda da literatura e da vida literária. Muita gente aspira a fazer parte do clubinho dos escolhidos da literatura com pouco mais do que umas frases de efeito e alguma pose. Chegam até a publicar alguma coisa e são notícia de rodapé de segundos cadernos, o que lhes garante alguns holofotes e a eterna e falsa sensação de ser um escritor (leiam Árvores Abatidas, do grande Thomas Bernhard, e alguns capítulos do Meia Vida, de V.S.Naipaul, e reconhecerão o tipo). Eles até se esforçam para parecer alta literatura, mas seus parágrafos empolados são facilmente sobrepujados por boa e competente literatura de massa, ou de entretenimento.

Entretenimento sim, com orgulho e qualidade

Se criar uma barreira imaginária e rígida entre alta literatura e de massas não faz muito sentido, então não deveria haver problema algum em ser um escritor de entretenimento, um profissional competente do seu ofício, que cria obras de qualidade. Mais uma vez fazendo uma das minhas toscas comparações com o cinema, o Michel Laub fala dos diretores de cinema que não são gênios, mas profissionais competentes, e cita o inglês Ridley Scott (também gosto de alguns de seus filmes). É graça a esta competência que, vez ou outra, Scott acaba atingindo notas cinematográficas mais altas, mas na média é pouco mais do que bom. Pode não satisfazer a paladares mais exigentes, mas, diabos!, mesmo os chefs mais exigentes podem se deliciar com um jantar simples e bem feito (é, pensei em Anton Ego…). Um livro bem escrito cuja maior ambição é divertir é… um bom livro, ora! Douglas Adams que o diga.

Não há nada de errado em ser um escritor de entretenimento, porque a mesma idéia descrita antes vale aqui: há diferenças gritantes de qualidade entre eles. Eu acho Michael Crichton um escritor correto (ao menos antes de Jurassic Park), que pesquisava bastante e construía boas histórias extrapolando os conceitos que aborda – ou assim me pareceu aos vinte e poucos anos de idade. Infelizmente, a maioria se prende a fórmulas repetidas a exaustão e que garantem a altíssima vendagem (Sidney Sheldon, Harold Robins, Dan Brown…) de suas telenovelas e minisséries em papel. Por outro lado, não dá para dizer o mesmo de, digamos, Graham Greene, que, como comentado no post citado, gostava de afirmar que escrevia tanto livros sérios quanto de entretenimento.

Apenas para encerrar este post longo com outra perspectiva sobre o assunto: quando acompanhou a FLIP, o mesmo Sérgio Rodrigues escreveu sobre o encontro de Neil Gaiman e Richard Price. Price discorreu sobre a necessidade de o escritor ter uma carreira paralela.

Ao responder sobre a importância do cinema em sua vida, Price afirmou que a relação é meramente interesseira:
“É lá que está o dinheiro. O mais importante que um artista pode comprar é tempo, e é com roteiros que eu compro tempo para escrever meus livros”, disse o autor de “Lush life”, um livro que andou na lista de mais vendidos do “New York Times”.

Temo ser (e é) clichê parafrasear Oscar Wilde, mas sou obrigado a dizer que não existe isso de livros de alta cultura ou de massas, existem bons e maus livros. Dito isso, não troco meu Machado de Assim por Paulo Coelho de forma alguma.