Alta literatura e literatura de massa : a distinção faz algum sentido?

O Sérgio Rodrigues publicou dois posts curiosos sobre a questão e é por eles que eu começo.

No primeiro, a reação provocada pela indicação de Criança 44 ao Booker Prize 2008 – que, muito provavelmente, será vencido novamente por Salman Rushdie. Acontece que Criança 44, livro de estréia do jovem (29 anos, pouco menos do que eu… ei, sempre que surge uma oportunidade para se alardear – ou falsear – a própria juventude, não custa nada fazer uso dela, certo?) Tom Rob Smith, é um thriller sobre um assassino serial que ataca na medonha Rússia da época de Stálin.

Filme antigo

Na verdade, coisa parecida aconteceu quando a história em quadrinhos de Neil Gaiman, Sandman, venceu o World Fantasy Award, em 1991. No ano seguinte o regulamento do prêmio seria alterado para impedir a sua contaminação por esta “forma artística inferior”. A magnífica saga dos judeus na Segunda Guerra narrada por Art Spielgman na também história em quadrinhos Maus venceu o Prêmio Pulitzer e foi indicada ao National Book Critics Circle Award. Houve certa gritaria, alguns escritores espernearam, mas não teve jeito. Para piorar a situação, tanto Gaiman quanto Spielgman trataram os assuntos de suas obras com imensas doses de imaginação; se na premiada edição de Sandman temos o Mestre dos Sonhos ao lado de Shakespeare, em Maus o mundo é habitado por animais: ratos, cachorros, gatos… Não bastava ver o sagrado trono da alta literatura ser violado por representantes da cultura de massa, eles ainda traziam (oh! a infâmia!) tramas fantásticas.

Na verdade, a bagunça e o equívoco desta divisão ficariam ainda mais evidentes nas declarações de um escritor irlandês.

O médico e o monstro

O segundo post é ainda mais interessante, abordando o escritor John Banville – autor de O Mar, já comentado aqui. Banville é um escritor rígido, exigente e celebrado, mas que leva cinco anos para escrever um romance. Um processo penoso e sofrido que Benjamin Black, um bem-sucedido criador de romances policiais, capaz de criar uma história completa em seis meses, mal faz idéia do que seja. O problema é que Black é Banville. Não há como saber se o que ele diz é verdade – Banville afirma odiar os seus livros e adorar os de Benjamin Black -, mas ele dá uma dica curiosa: provavelmente o caminho de ambos vai se cruzar no futuro já que, hoje em dia, eles aprendem truques um com o outro.

Do ponto de vista do escritor, ele está certo. A satisfação de ter uma obra completa (ou aparentemente completa) após meses ou anos de trabalho duro é quase indescritível. É duro admitir isso, mas a recompensa pessoal é a mesma se a obra narra os conflitos de três gerações de imigrantes italianos radicados no sul do Brasil à época de Garibaldi ou se é um roteiro para um epsódio de 25 minutos de uma sitcom do canal Sony. O árduo mundo da criação e das (poucas) recompensas é o mesmo tanto para Philip Roth quanto para Dan Brown – ok, que não me apareça um engraçadinho aqui só para falar da polpuda conta bancária do segundo, não é a isso que me refiro agora. No filme Ed Wood, de Tim Burton, Ed Wood, o pior cineasta da história, se encontra casualmente com Orson Welles; para a surpresa do cinéfilo pedante que esperava o Welles-personagem espinafrando o pobre Wood, eles conversam animadamente. Na seqüência mais inspirada do filme e uma das mais simples e belas homenagens que a profissão de diretor poderia receber em um filme, Welles e Wood descobrem que seus problemas, obstáculos, decepções e alegrias são exatamente as mesmas.

Uma divisão artificial

Para o público médio, aquele que se guia pela lista dos mais vendidos da Veja, pouco importa se Neve estava na primeira posição em 2006, logo após Orhan Pamuk ganhar o Nobel; era um livro que deveria ser lido por critérios (para não ficar sem assunto na rodinha de amigos) que passam longe das suas (imensas) qualidades. É verdade que muita gente deve ter desistido de ler o catatau do turco com cara de Woody Allen sem complexos lá pela quinquagésima página, mas o que este exemplo quer mostrar é que a distinção entre alta literatura e literatura de massas simplesmente não existe para a maioria esmagadora dos leitores – existe para quem não faz parte deste público médio. Para a infelicidade deles, estão enganados.

Como assim enganados? Por um acaso o editor deste blog resolveu igualar escritores de final de semana a gente que labuta duro para criar um único parágrafo? Não, não estou. Estou apenas dizendo que a vendagem ou a perspectiva de venda, que caracterizaria um livro para as massas, não diz nada sobre a qualidade do que está escrito ali. António Lobo Antunes é um escritor “difícil”, mas seus livros vendem muito bem na Europa e nem por isso sua literatura pode ser chamada de entretenimento. Mais uma vez, isso parece dizer que esta distinção é artificial, já que romances de qualidade ou romances com alguma qualidade podem ser encontrados em qualquer gênero e tiragens. Entrando um pouco numa seara que confesso desconhecer, a dos romances policiais, muita gente boa que leio diz que Elmore Leonard e Roberto Bolaños são ótimos escritores, capazes de criar diálogos e personagens memoráveis. Ora, com estes exemplos todos, é bastante óbvio que um sujeito inteligente com boa bagagem cultural e ambição pode extrair maravilhas da mais batida das histórias caso se disponha a ser escritor (com certeza avisaram que existem profissões melhores, mas ele insiste) e a trabalhar duro – talento não é nada sem suor, reza o clichê.

Porém, não sou hipócrita; se o critério de escolha de leitura é a lista dos mais vendidos ou o livro da moda, então eu definitivamente não faço parte do público médio de que falei acima – sei disso. Depois de alguns anos e uma boa pilha de livros devorados, qualquer leitor desenvolve certo conhecimento, mesmo quase instintivo, que nortea suas escolhas e o leva a rejeitar determinadas obras antes mesmo de abrir suas páginas porque sabe que nada têm a lhes dizer. De fato, obras medianas que tratam de assuntos que nos interessam nos parecem mais apetitosas do que um livro supostamente genial sobre um documentarista da National Geographic registrando a reprodução da lagarta-azul-de-Kevin de Papua Nova Guiné, mas isso é assunto para outro post. De qualquer forma, confesso que a minha lista pessoal de escritores desinteressantes é aborrecidamente óbvia, nem vale a pena citar alguns de seus integrantes.

Há, claro, aquela questãozinha incômoda da literatura e da vida literária. Muita gente aspira a fazer parte do clubinho dos escolhidos da literatura com pouco mais do que umas frases de efeito e alguma pose. Chegam até a publicar alguma coisa e são notícia de rodapé de segundos cadernos, o que lhes garante alguns holofotes e a eterna e falsa sensação de ser um escritor (leiam Árvores Abatidas, do grande Thomas Bernhard, e alguns capítulos do Meia Vida, de V.S.Naipaul, e reconhecerão o tipo). Eles até se esforçam para parecer alta literatura, mas seus parágrafos empolados são facilmente sobrepujados por boa e competente literatura de massa, ou de entretenimento.

Entretenimento sim, com orgulho e qualidade

Se criar uma barreira imaginária e rígida entre alta literatura e de massas não faz muito sentido, então não deveria haver problema algum em ser um escritor de entretenimento, um profissional competente do seu ofício, que cria obras de qualidade. Mais uma vez fazendo uma das minhas toscas comparações com o cinema, o Michel Laub fala dos diretores de cinema que não são gênios, mas profissionais competentes, e cita o inglês Ridley Scott (também gosto de alguns de seus filmes). É graça a esta competência que, vez ou outra, Scott acaba atingindo notas cinematográficas mais altas, mas na média é pouco mais do que bom. Pode não satisfazer a paladares mais exigentes, mas, diabos!, mesmo os chefs mais exigentes podem se deliciar com um jantar simples e bem feito (é, pensei em Anton Ego…). Um livro bem escrito cuja maior ambição é divertir é… um bom livro, ora! Douglas Adams que o diga.

Não há nada de errado em ser um escritor de entretenimento, porque a mesma idéia descrita antes vale aqui: há diferenças gritantes de qualidade entre eles. Eu acho Michael Crichton um escritor correto (ao menos antes de Jurassic Park), que pesquisava bastante e construía boas histórias extrapolando os conceitos que aborda – ou assim me pareceu aos vinte e poucos anos de idade. Infelizmente, a maioria se prende a fórmulas repetidas a exaustão e que garantem a altíssima vendagem (Sidney Sheldon, Harold Robins, Dan Brown…) de suas telenovelas e minisséries em papel. Por outro lado, não dá para dizer o mesmo de, digamos, Graham Greene, que, como comentado no post citado, gostava de afirmar que escrevia tanto livros sérios quanto de entretenimento.

Apenas para encerrar este post longo com outra perspectiva sobre o assunto: quando acompanhou a FLIP, o mesmo Sérgio Rodrigues escreveu sobre o encontro de Neil Gaiman e Richard Price. Price discorreu sobre a necessidade de o escritor ter uma carreira paralela.

Ao responder sobre a importância do cinema em sua vida, Price afirmou que a relação é meramente interesseira:
“É lá que está o dinheiro. O mais importante que um artista pode comprar é tempo, e é com roteiros que eu compro tempo para escrever meus livros”, disse o autor de “Lush life”, um livro que andou na lista de mais vendidos do “New York Times”.

Temo ser (e é) clichê parafrasear Oscar Wilde, mas sou obrigado a dizer que não existe isso de livros de alta cultura ou de massas, existem bons e maus livros. Dito isso, não troco meu Machado de Assim por Paulo Coelho de forma alguma.

6 Respostas to “Alta literatura e literatura de massa : a distinção faz algum sentido?”

  1. léo e só Says:

    excelente post Marcelo. Excelente!

    Eu digo que está melhor que a fonte. Nossa, ficou mesmo muito bom!
    Um dos poucos posts que li que trata de maneira competente o entretenimento.

    abs

  2. Marcelo Lopes Says:

    léo,

    Puxa, obrigado!
    Acho que o objetivo do Sérgio era esse mesmo: iniciar o debate e levantar esta questão. Espero ler mais alguns posts sobre isso nos próximos dias.

    Abs!
    Marcelo.

  3. nefertiti Says:

    Tenho que escrever sobre a importância da literatura de massa como incentivadora na prática de leitura, estou com muita dificuldade. Por favor, alguém aí me dê uma “luz”.. rsrs
    obrigada!!!!

  4. Recent Links Tagged With "literatura" - JabberTags Says:

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  5. maria amélia Says:

    olá! Sou Maria Amélia;
    Gostei muito desta pagina, deste comentário, parabéns!
    Sérgio, gostei do seu ponto de vista, os criticos literários, na maioria tendem a seguir uma fórmula, nos dia de hoje! Ainda me impreciono com este tipo de atitude, voce está correto, o livro ou qualquer que seja a criação, desde que seja bem feita, é alta litertura! não importa gênero!

  6. Marcelo Lopes Says:

    Olá, Maria Amélia,

    Demorei a comentar aqui, mas vamos lá.
    Na verdade, não apenas os críticos, mas os autores também tendem a seguir uma fórmula. E como toda fórmula, existe uma hora em que ela desanda…
    Mas… o Sérgio a que vc refere é o autor do blog Lendo.org, que escreveu sobre isso também e de onde veio a idéia de redigir este texto.

    Abs!
    Marcelo.

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