Dois pesos…

Causou algum alarde o pacote de medidas aprovadas para regulamentar os SACs (Serviço de Atendimento ao Consumidor) telefônicos. Quem já tentou cancelar um mísero cartão de crédito que sequer é usado há meses sabe das agruras a que o consumidor pode ser obrigado a passar. A medida vem em boa hora, mas dizem que só foi para frente graças a ministros e outros figurões que teriam sido mal atendidos por call centers da vida.

Como nada é perfeito, há dois pontos que deveriam ser revistos: a obrigatoriedade de atendimento em 20 segundos e a disponibilidade 24 horas por 7 dias. Qualquer profissional ou executivo de TI/telecom sabe que manter um call center com este grau de exigência é loucura; cumprir esta norma custará muito, muito, muito caro para a maioria destas empresas, que acabarão repassando este custo. Daqui a pouco teremos algum político aproveitando-se para berrar que o custo não pode ser repassado para o consumidor – mais um típico impasse do Bananão. É verdade que agências reguladoras existem para determinar normas que visam a garantir certos parâmetros de qualidade do serviço prestado ao consumidor, mas também é verdade que não deveriam atrapalhar a atividade econômica impondo regras irreais.

Infelizmente, as empresas são as únicas responsáveis pela péssima imagem que têm; a qualidade do atendimento ao consumidor final é, na melhor das hipóteses, sofrível. No entanto, é surpreendente como a rejeição que o brasileiro tem destas instituções privadas não se reflete na avaliação que faz do estado. A começar pela aceitação deste termo ridículo: contribuinte. Em quê eu contribuo, afinal? Apenas para ampliar o caixa do estado e impedir, ou melhor, adiar a sua bancarrota. Não somos contribuintes, somos pagadores de impostos, como os norte-americanos dizem. Talvez, e bota talvez nisso, se extirpássemos de nossas cabeças essa idéia ridícula de contribuição, poderíamos nos tornar tão chatos e exigentes com o estado quanto somos com as empresas privadas.

Porque nada justifica um órgão como este aqui disponibilizar contato apenas por meio de um número de telefonia fixa – além do site, muito bom, por sinal. Por que diabos eu, que já paguei toneladas de impostos, tenho que gastar para entrar em contato com o estado? Que lógica perturbada é esta em que o estado, que me tomou parte do dinheiro que eu ganhei com meu trabalho, repassa uma parte dos custos que deveriam ser dele de novo para mim? Por que uma empresa privada é obrigada a disponibilizar um número gratuito, vulgo 0800, e o estado, para quem são desviados cinco meses de cada ano que eu e você trabalhamos, não sofre da mesma obrigação? E o mais intrigante: por que a gente aceita isso?

Recorrendo a sociologia de boteco, o brasileiro mantém com o estado uma relação ambígua de desprezo, subserviência e desejo. Desprezo porque não acredita nos políticos e nas instituições democráticas (o que é ainda pior, pois este é o flanco que os ditadores adoram usar para se inflitrar). Subserviência pois acredita que o governo e o estado são a mesma coisa e têm o direito de se meter na vida privada dos indivíduos (ninguém ficou assustado com as últimas notícias envolvendo a Polícia Federal e a telefonia) e ditar os rumos da atividade econômica. Por fim, graças àquela precisa definição de povo cordial do Gilberto Freyre; a maioria deseja uma sinecurazinha não apenas para si, mas para todos os seus agregados. Infelizmente, este ambiente não favorece o surgimento de pagadores de impostos, mas de contribuintes.

2 Respostas to “Dois pesos…”

  1. marie tourvel Says:

    Tá vendo o motivo que quero você comigo na minha gestão como ministra da cuRtura do Bananão? Eita, post perfeito. Um beijo, querido.

  2. Marcelo Lopes Says:

    marie,

    Obrigado pela honra!
    Será que eu telefono para o Gil para pedir umas dicas? HAHAHAHAHAHA!!! Melhor não, né?

    Abs!
    Marcelo.

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