De volta a nossa programação normal, ou: O dia em que Paul Auster encolheu

Quando esteve aqui em Belo Horizonte pela última vez, o genial veterano dos quadrinhos Will Eisner proferiu uma palestra que acabou bastante disputada e lotou o auditório de boa capacidade onde foi realizada. Na clássica sessão de perguntas e respostas, um sujeito tomou o microfone para perguntar, como se houvesse descoberto a América cinco minutos antes:

– Eu leio quadrinhos Marvel e DC (editoras norte-americanas famosas pelos seus ainda mais famosos super-heróis) desde menino e acho que as histórias de hoje são chatas e repetitivas. Antes eu me empolgava com as tramas e os personagens e hoje é difícil achar bons roteiros. Na sua opinião, o que aconteceu com os escritores de quadrinhos nos últimos anos?

Eisner não hesitou. Sorriu compreensivo e respondeu:

– Não foram as histórias que pioraram. Foi apenas você que cresceu.

Lembrei-me imediatamente disto ao ler o post Apenas um rockstar da literatura, publicado por Felipe Machado no Palavra de Homem. De certa forma, Paul Auster foi importante para que eu retomasse o interesse por literatura e livros após um relativamente longo afastamento por volta dos meus vinte anos, com o seu Leviatã. Levei pouco mais de um dia para lê-lo e logo estaria emendando Trilogia de Nova York e mais tarde o autobiográfico A Invenção da Solidão, numa edição do finado Círculo do Livro traduzida como O Inventor da Solidão. Aliás, se alguém deseja conhecer a personalidade de meu pai, basta ler este último – chega a ser doloroso reconhecê-lo naquelas páginas.

Então, tão repentinamente quanto começou, meu interesse por Auster se foi. Voltei-me novamente a Machado, descobri Thomas Mann e li O Leopardo de Lampedusa umas três vezes, além de outros autores que deixaram poucas lembranças. Muitos anos depois, tentei encarar um dos livros mais recentes de Auster, Timbuktu, e não consegui sequer avançar muito; parecia-me mais do mesmo, uma recliclagem das mesmas obsessões lidas antes. Na mesma época (e com atraso considerável), assisti ao bom filme Cortina de Fumaça e li a magnífica história em quadrinhos de David Mazzuchelli que adapta o melhor dos contos do Trilogia: Cidade de Vidro. Mesmo com estes últimos esforços, Auster estava definitivamente encerrado para mim.

A definição aparentemente cruel de Felipe Machado talvez seja precisa: Auster é um bom escritor, mas superestimado, cuja fama hoje é inversamente proporcional a fria recepção que seus livros recebem da crítica. Eu não queria usar dos labirintos do Borges, até porque não concordo muito com a comparação entre os dois, mas parece-me que dizer que Auster está perdido no labirinto que ele mesmo criou é um clichê aceitável. Seus livros são aquela coisa de sempre: o acaso movendo as histórias, personagens traumatizados lidando de formas bizarras com suas perdas, metalinguagem e protagonistas de alguma forma ligados ao mundo literário. Sim, é quase verdade que todo escritor escreve apenas um livro, dividido em vários, por toda sua vida, mas também é verdade que a exposição de valores, temas e obsessões têm de vir acompanhadas por boas idéias, por algo a se dizer. Auster acredita que os elementos citados são suficientes para criar seus romances e os resultados têm sido pífios, segundo alguns de seus leitores – dos quais não duvido.

Há um provérbio nascido na minha geração de internautas que recomenda jamais reler ou reassistir a algo de que gostávamos aos quinze anos (ou antes). Não relerei Leviatã, Trilogia ou O Inventor da Solidão; prefiro ficar com o Auster cujos livros recuperaram o meu prazer primordial da leitura ao rockstar que encanta menininhas em feiras de literatura e aparece habilmente na mídia com certa freqüência.

4 Respostas to “De volta a nossa programação normal, ou: O dia em que Paul Auster encolheu”

  1. Ulisses Adirt Says:

    Não posso dizer que é o caso de Auster, obviamente. Mas, que é fabuloso quando você gostou de algo aos 15 (ou antes) e descobre, tempos depois, que aquilo continua bom, isso é… Adoro o Verne, o Jack London, o Carlos Heitor Cony, o Hitchcock e o Pernalonga (só para citar alguns exemplos) até hoje. Claro que isso não significa que eu vou reler A ilha perdida.😉

  2. Marcelo Lopes Says:

    Ulisses,

    Você tem toda razão, é mesmo um grande prazer descobrir que algumas das coisas de que gostávamos anos atrás ainda são boas. Os filmes de Spielberg e cia. nos anos 80, por exemplo, ainda gosto de quase todos e até comprei os DVDs.

    Abs!
    Marcelo.

  3. Barbara Resende Says:

    Olá, Marcelo!
    É bem verdade isso, realmente.

    Tanto que um dia desses tentei ler, depois de séculos, a famosa revistinha do Maurício de Souza: A Turma da Mônica, e… não passei das 3 primeiras páginas. E pensar que comprava semanalmente!! Não aos 15 anos, tudo bem, mas até os 12 com certeza!😛

    Mas, concordando com o amigo Ulisses, há coisas que realmente não deixamos de gostar. Pude comprovar isso alguns dias atrás, quando assisti,vibrando, aos episódios de “Cavaleiros do Zoodíaco – A Saga da Hades”! Hehehe😀

    É isso.
    Parabéns pelo blog!
    Virei leitora assídua, portanto de vez em quando estarei aqui pelos comentários!😉

    Abraço!

  4. Marcelo Lopes Says:

    Barbara,

    Desculpe a demora em responder ao seu comentário. Fico feliz que tenha gostado do blog! Espero mesmo te ver aqui mais vezes.
    Quanto às coisas que sobrevivem ao nosso suposto amadurecimento, eu cito com prazer os desenhos “Caverna do Dragão” e “Galaxy Rangers”… Nunca fui fã de “Cavaleiros dos Zodíaco” e sinceramente invejo o prazer que tanta gente teve ao assisti-los na infância… E se serve uma dica pop, fuja da tal Turma da Mônica Jovem – um amigo me emprestou e é, francamente e com o perdão do trocadilho, imprestável…

    Abs!
    Marcelo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: