Três aversões

Os jornalistas da, digamos, mídia tradicional teimam em classificar blog como um diário de moleques – talvez porque o único contato que possuem com este meio sejam as filhas ou sobrinhas escrevendo sobre High School Musical em miguxês. Não, este post não vai narrar minha vidinha no último final de semana, mas gostaria de pedir ao leitor para que se acomode, porque falarei de mim mesmo. Na verdade, de três coisas que me causam certa aversão.

1. O academicês

Ao ler este artigo sobre a simplicidade na poesia de Bruno Tolentino, de Pedro Sette Câmara, encontrei um trecho particularmente iluminado:

(Se um mestrando em Letras estiver lendo esse artigo, por favor não escreva uma tese chamada Mexerico entre vizinhas: a construção da identidade de narrador e personagem em “A balada do cárcere”. Aposto que Bruno Tolentino puxaria seu pé à noite, porque devolver propositalmente uma expressão resgatada da banalidade a um contexto absolutamente previsível é o contrário da poesia.)

Bingo! O academicês, dialeto bizarro usado para escrever artigos e teses de mestrado, doutorado e afins nas áreas humanas, é mesmo de doer. Trata-se de uma forma sofisticada do popular embromation, a capacidade de complicar, por meio de expressões francamente acessórias, um assunto qualquer. Minha ignorância não me permite dizer que esta é uma praga nhambiquara, já que jamais li tese ou artigo algum que não seja em português (a exceção de trabalhos na área de tecnologia de informação, que costumam ser bem claros e objetivos), mas posso afirmar que ela combina perfeitamente com a nossa patética mania de nos reunir em grupelhos para viver de uma ilusão de elite. Os trabalhos acadêmicos, que deveriam servir a toda a sociedade como fonte inesgotável de debate e conhecimento, acabam pertencendo a um conjunto minúsculo de indivíduos que domina aquele dialeto – uma espécie de Ouroboros acadêmica.

2. A empolgação por políticos

Há algo de profundamente equivocado naqueles espetáculos grandiosos e bregas que são as convenções republicana e democrata. E nem menciono a chatíssima Obamamania – e vem aí a Palinmania. Aqui na linha de baixo do Equador, ao testemunhar carreatas na porta de minha casa, vejo pessoas empoleiradas na caçamba de pick-ups cantando alegremente os medonhos jingles publicitários de um candidato a vereador – se bem que nada deveria surpreender num povo que canta música de trio elétrico 365 dias por ano. Talvez eu seja um cético, mas não consigo entender esta empolgação – e falo apenas da legítima, não da empolgação profissional, ensaiada e devidamente paga. Será que sou apenas eu que vejo que é da natureza da prática política decepcionar seus eleitores? A única questão que eu consigo imaginar relevante é o quanto este ou aquele candidato parece alinhar-se aos meus valores. Em outras palavras, trata-se de escolher o que possivelmente me decepcionará menos. E isso não é nem um pouco empolgante.

3. Gente que se acha modelo de saúde e bem-estar

Perdi peso, mudei hábitos alimentares e atualmente me programo para incorporar uma rotina verdadeira de exercícios físicos ao meu dia-a-dia. No entanto, se alguma revista me procurar e pedir para posar todo pimpão e sorridente, naquelas roupas impecáveis de esportista de meia hora diária, recusarei com uma gargalhada. Deus, poucas coisas são mais ridículas do que estas fotos de advogados, médicos (mesmo que faça algum sentido) e executivos suados (argh!), posando de modelos de saúde e qualidade de vida – outra expressãozinha cujo uso excessivo e vago já a tornou dispensável. Eu cuido melhor de minha saúde agora, mas não vou militar por esta causa. Se algum amigo quiser uma opinião, terei prazer em dar a minha, mas não tentarei convertê-lo para a Igreja dos Bacanas Saudáveis e Sorridentes porque eu próprio detestaria ter de ouvir a ladainha de seus seguidores.

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