O Arco-Íris de Feynman

Coloquei uma série de questões na balança ao pegar aquele livro nas mãos:

Obviamente, tratava-se de um tipo light de auto-ajuda;
Mas, oras, era sobre o genial físico Richard Feynman;
O autor era (ao menos para mim) um absoluto desconhecido;
A editora é especializada no gênero que menos me interessa; e finalmente,
O preço atraente de saldão de porta de livraria (coisa cada vez mais comum por aqui em BH).

No final das contas acabei levando O Arco-íris de Feynman, de Leonard Mlodinow, para casa. Não posso dizer que perdi tempo lendo-o, mas também estaria exagerando se afirmasse que mudou minha vida – sim, eu sei que livro algum tem esta obrigação, mas também achei que fazer esta comparação ajudaria a situar O Arco-Íris de Feynman para quem nunca ouviu falar dele.

A história é bem simples: Leonard Mlodinow era um promissor mestrando de física em 1980 cujo trabalho o credenciara a uma bolsa no disputadíssimo Caltech, celeiro de mentes únicas e terra natal de vários prêmios Nobel. Ao lado de sua sala, trabalha o já então lendário e devidamente nobelizado Richard Feynman. Infelizmente, Feynman tem pouco tempo de vida, já que uma forma agressiva de câncer o está consumindo. Depois de, aos poucos, conhecê-lo melhor, Mlodinow decide gravar as conversas que tem com Feynman, embora ainda não tivesse certeza de que escreveria um livro. Feynman foi um sujeito pouco convencional, interessantíssimo e freqüentemente vezes cruel – há mesmo uma passagem que faz lembrar o comportamento de um certo Dr. Gregory House.

Os diálogos entre o jovem Mlodinow e o maduro físico poderiam facilmente recair naquele esquema básico mestre e gafanhoto, mas o autor é suficientemente esperto para evitar a armadilha, caso contrário, seu livro já teria sido adaptado para o cinema com Robin Williams no papel de Feynman. O jovem físico sofre com a pressão de estar entre os melhores do mundo em suas áreas, tem dúvidas sobre o caminho a seguir, gasta boa parte de seu tempo esperando pela “grande idéia” (que não virá) e presencia as idiossincrasias que afloram num campus lotado por gênios reais e candidatos a Einsteins. Em outras palavras, não é muito diferente de uma coletânea de artigos do Max Gehringer, não fosse o cenário incomum. Alie-se a isso uma boa capacidade de conduzir o leitor a conclusões simples sem que pareçam tão óbvias na primeira leitura (dez minutos depois você estará pensando: “é claro, como eu não?…”). Aliás, de tão óbvias, sequer vale a pena citar tais conclusões, embora seja curioso registrar que, entre os conflitos de Mlodinow, estava a vontade de escrever ficção versus o desprezo que a maior parte dos físicos nutre pela atividade. Afrontado por um antigo professor ao relatar este desejo, Mlodinow mal sabia que anos mais tarde, enquanto seria reconhecido por um feito científico considerado menor (em comparação aos problemas cabeludos que Feynman e sua turma encaravam), escreveria alguns episódios da série Jornada nas Estrelas – A Nova Geração / Star Trek – The Next Generation .

Sou forçado a dizer que acredito na boa intenção dos leitores de auto-ajuda. De uma forma ou outra, eles desejam uma melhora pessoal. Também é duro admitir, mas conclusões pessoalmente relevantes podem vir de lugares tão inesperados quanto a mais vulgar das literaturas. Sempre lembro-me do ótimo e piradíssimo desenho animado The Maxx, de Sam Keith: uma das personagens lamenta que a frase precisa, cruel, perfeita, que resume sua existência fora descoberta dentro de um reles biscoito chinês da sorte (ou de um livro romântico vagabundo, não lembro muito bem). É claro também que devotamos mais tempo e esforço aos assuntos que nos interessam, e a união de ciência com algum questionamento sobre os rumos profissionais e pessoais de O Arco-Íris de Feynman acabaram me descobrindo. Não é um grande livro, mas tem o seu lugar se esta estranha combinação lhe disser alguma coisa. Minto; mesmo que não seja o seu caso, vale para conhecer o mundo da física teórica por dentro, por meio das pessoas que buscam as teorias científicas para explicar como as coisas são.

Amanhã, postarei um trecho interessante em que o autor compara dois tipos (ou modelos) de físicos que Feynman acreditava existir: o babilônico e o grego. Parece chato? Acredite em mim, não é. Leia e verá.

3 Respostas to “O Arco-Íris de Feynman”

  1. Modos de pensar, segundo Feynman « Universo Tangente Says:

    […] de pensar, segundo Feynman Como havia prometido, eis a citação do trecho do livro O Arco-Íris de Feynman em que o autor Leonard Mlodinow […]

  2. Priscila Says:

    1)Como as pessoas ficariam sabendo da existência do arco-íris numa terra em que essas pessoas não tivessem a capacidade de enxergar a luz como nós, quer dizer, numa terra de cegos para o tipo de luz que o ser humano comum pode enxergar?
    2)Qual seria a forma pela qual o arco-íris seria reconhecido pelas pessoas dessa terra?

  3. Marcelo Lopes Says:

    Priscila,

    Ainda que eu não tenha entendido bem a pergunta, divaguemos um pouco:
    Se eu me lembro bem, existem pessoas que não enxergam cor alguma porque elas não possuem uma estrutura no olho que lhes permite ver cor – os cones -, eles vêem tudo em preto-e-branco. Logo, eles veriam o arco-íris como um conjunto de degradês de cinza…
    Por outro lado, o olho humano é capaz de reconhecer um espectro de cor; digamos que a gente fosse capaz de ver outro espectro, ou que o espectro visível fosse “deslocado”. Muito provavelmente veríamos algumas cores (o ultravioleta, o infravermelho…) que não vemos e algumas das que conseguimos ver não seriam detectadas. Acredito eu que o arco-íris seria diferente, com algumas cores “em falta”.
    Claro que eu não sou físico, então se alguém aí entende de ótica poderia esclarecer esta questão nos comentários, por favor.
    Só uma coisa, Priscila: vc leu todo o post? Porque, a exceção do título do livro, eu nem cito o diálogo que Feynman tem sobre o arco-íris…

    Abs!
    Marcelo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: