Modos de pensar, segundo Feynman

Como havia prometido, eis a citação do trecho do livro O Arco-Íris de Feynman em que o autor Leonard Mlodinow discorre sobre os dois modos que o cientista considerava existir no estudo da física. Retirei boa parte dos trechos que comparava estas visões a rivalidade que Feynman e outro gênio da física teórica, Murray Gell-Mann, possuíam (a citação é longa, mas compensa a leitura):

Feynman costumava dizer que havia dois tipos de físicos, os babilônios e os gregos. Estava se referindo às filosofias opostas dessas duas antigas civilizações. Os babilônios foram os responsáveis pelos primeiros grandes avanços no conhecimento dos números e das equações, assim como da geometria. No entanto, é aos gregos, uma civilização posterior, que damos o crédito pela invenção da matemática – em especial a Tales, Pitágoras e Euclides. Isso ocorreu porque os babilônios se importavam apenas em saber se determinado método de calcular funcionava ou não, ou seja, se descrevia adequadamente uma situação física real, e não se era exato ou capaz de se encaixar num grande sistema lógico. Por outro lado, Tales e seus seguidores gregos inventaram a idéia do teorema e da prova – e, para que uma afirmação fosse considerada verdadeira, exigiam que ela significasse uma conseqüência lógica exata de um sistema de axiomas ou proposições explicitamente definidas. Resumindo, os babilônios concentraram sua atenção nos fenômenos; os gregos, na ordem oculta por trás dos fenômenos.

As duas abordagens são bastante poderosas. O método grego apresenta toda a força do aparato lógico da matemática. Os físicos que se filiam a essa linhagem são muitas vezes guiados pela beleza matemática das teorias que desenvolvem. E ela tem conduzido a muitas belas aplicações – como a classificação das partículas por Murray. A abordagem babilônia proporciona uma certa liberdade de imaginação e permite que se siga o instinto ou a intuição a respeito da natureza, dispensando uma preocupação excessiva com o rigor científico e com as justificativas. Essa estética também possibilitou grandes vitórias por parte da intuição e da “reflexão física”, isto é, o ato de refletir baseando-se principalmente na observação e na interpretação dos processos físicos, em vez de se deixar conduzir pela matemática. Na verdade, os físicos que empregam esse tipo de pensamento às vezes violam as regras formais da matemática ou então. até inventam uma nova e estranha matemática própria (ainda não comprovada), tomando como base sua interpretação de informações colhidas em experiências. Em alguns casos, isso fez com que os matemáticos fossem relegados à retaguarda do processo – eles se viram ou justificando o uso inovador das suas idéias pelos físicos ou tentando descobrir por que sua utilização “não autorizada” acabou mesmo assim produzindo respostas bastante precisas.

Feynman considerava-se um babilônio. Ele confiava na compreensão que tinha da natuteza para levá-lo a qualquer lugar. Murray fazia mais o tipo grego – desejando classificar a natureza para impor uma ordem matemática funcional sobre as informações disponíveis.

[…]Apesar de Feynman caracterizar esses dois enfoques como babilônio e grego, uma tensão filosófica semelhante tem surgido entre muitos outros personagens e movimentos através da história. Por exemplo, entre os próprios gregos: Platão e Aristóteles. Platão acreditava que, sob os vários fenômenos do mundo natural, persistiam padrões eternos e imutáveis. A descrição desses padrões em termos matemáticos é o que físicos como Murray vêm procurando. Aristóteles sentia que Platão havia feito o caminho contrário. Para ele, a descrição ideal – ou seja, abstrata – da natureza era um mito ou talvez algo conveniente, mas aquilo com que realmente devíamos estar nos preocupando eram os fenômenos que percebemos com os nossos sentidos. Como Feynman, Aristóteles cultuava a própria natureza, e não a (possível) abstração a ela subjacente.

Dentre as inúmeras coisas que não sou, infelizmente: não sou um gênio. Por isso, posso dizer com propriedade e sem medo de ser acusado de me comparar a um grande cientista de nosso tempo, que me identifico mais como babilônio do que como grego. O que não deixa de ser interessante, já que sempre tive mais interesse por Aristóteles do que por Platão.

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