Gillette viu o futuro?

Dubai é, se não o maior, certamente o mais surpreendente canteiro de obras do mundo atual. O mais recente anúncio é a construção da cidade do futuro, uma pirâmide gigantesca que abrigaria um milhão de habitantes num modelo bastante rígido de auto-sustentabilidade (o que significa, entre outras coisas, que carros particulares serão exceção). Muito apropriadamente, esta monstruosa estrutura já foi batizada como Zigurate. O zigurate era uma estrutura sagrada bastante comum nos povos antigos da mesopotâmia. Posso estar enganado, mas acredito que tradicionalmente a bíblica Torre de Babel é identificada como um zigurate. Certamente a ecopirâmide de Dubai não será alta a ponto de competir com a famosa torre (outro projeto fará isso), mas ocupará absurdos 2,3 quilômetros quadrados. Antes de passar para o próximo parágrafo e falar sobre o sr. Gillette, farei uma breve e quase inofensiva confissão: eu também já havia pensado em coisa parecida. Numa historinha jamais concluída na adolescência, tentei narrar o caos que surgiria se uma cidade-edifício ficasse sem energia. Claro que, então incapaz de imaginar boas consequências para o acontecimento, o conto ficou nas primeiras páginas. OK, fim da propaganda gratuita, sigamos.

King Camp Gillette é exatamente o que você imagina: o inventor da gilete, sinônimo de lâmina de barbear descartável. Imaginamos o sr. Gillette como um daqueles empreendedores incrivelmente agressivos do final do século XIX e pré-Crise de 1929, como Ford, Thomas Edison ou J.P. Morgan. Porém, antes da genial invenção, Gillette era um socialista utópico e escritor óbvia e francamente anticapitalista. Seu último livro, A Empresa do Povo, foi escrito em parceria com Upton Sinclair, autor de Oil!, que serviu de base para o impressionante filme de Paul Thomas Anderson, Sangue Negro/There Will Be Blood. Mas a idéia mais interessante (e absurda) de Gillette foi descrita em seu livro The Human Drift: em sua visão socialista e míope, toda a população dos EUA deveria se mudar para uma metrópole descomunal às margens das cataratas do Niagara. Todos viveriam da energia extraída das cataratas e suas vidas seriam controladas por uma espécie de empresa popular, que tomaria o lugar do estado. O nome da cidade? Metropolis, claro. Você pode ler uma matéria em inglês na Cabinet contando toda a história desta cidade.

Evidentemente, a ecopirâmide dos árabes sequer passará perto dos delírios socialistas do sr. Gillette. Mas a idéia de se criar uma cidade-monstro auto-sustentável é a mesma, guardadas, claro, as devidas diferenças entre o conceito de sustentabilidade de 1894 (ano de publicação de The Human Drift) e 2008. Não há como prever se este empreendimento terá sucesso, mas até agora Dubai tem entregue suas construções, o que, de uma forma ou outra, acabará realizando o sonho esquecido de Gillette em solo capitalista. A propósito, o ex-socialista terminou seus dias quase falido, graças aos gastos exorbitantes em sua propriedade e a Crise de 1929.

Curiosidade: No belo desenho animado japonês de 2001, inspirado no filme clássico de Fritz Lang, Metropolis, a torre que encerra o grande segredo do roteiro chama-se Zigurate.

Opa, curiosidade atualizada. Consultando o primeiro volume da História Ilustrada da Ciência da Universidade de Cambridge, de Colin A. Ronan (Círculo do Livro, 1987, tradução de Jorge Enéas Fortes), encontrei um trecho que descreve o que era o zigurate.

[…] o zigurate, vasta estrutura em forma de torre composta por sucessivos terraços, erigida sobre uma plataforma e encimada por um santuário, que se atingia por meio de largas escadarias. O mais notável zigurate era o da divindade padroeira da cidade de Ur [N.B.: capital da Suméria de 2800 a 2300 a.C. e supostamente a pátria de Abraão], a deusa da Lua, Nanna ou Sin, que cobria uma área de 64 por 46 meros e tinha uma altura de 12 metros. Três de seus lados tinham muralhas perpendiculares, e três grandes escadarias, cada qual com cem degraus, subiam pelo outro lado. O edifício mostra claramente que, no terceiro milênio, os sumérios estavam familiarizados com todas as formas básicas da arquitetura – a coluna, o arco, a cúpula e a abóboda.

Neste link da Escola Politécnica da USP há uma descrição e fotos do zigurate de Ur ; as medidas diferem bastante das encontradas no livro.

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