O destino de Machado de Assis

O destino de todo escritor é, na melhor das hipóteses, se transformar em clichê. A exceção dos que jamais serão lembrados e dos que o serão apenas por alguns poucos especialistas, estão fadados ao mesmo destino de Machado de Assis. Ontem, dia 29, como a Rede Globo e a Folha de São de Paulo não deixaram o Brasil esquecer, foi comemorado o centenário da morte de Machado de Assis, com toda a pompa que os chavões mais gastos a seu respeito merecem – ao menos, tão universais quanto sua obra.

No fundo, toda essa festa é incapaz de esconder o óbvio: para o brasileiro médio, Machado de Assis é um autor que ele foi obrigado a ler na escola. O mesmo vale para José de Alencar, Érico Veríssimo (ainda se mandam os meninos ler Um Certo Capitão Rodrigo?) e até Manuel Bandeira, por exemplo. Corrijo o que disse – parece-me que a celebração dos cem anos do falecimento de Machado reflete esta idéia ou, dito de outra forma, parece-me que os organizadores destes eventos (com exceções que desconheço) são meninos e meninas que cresceram com a idéia de que se trata de “autor de livro de colégio”. E as homenagens parecem-se com aqueles trabalhos escolares nota dez, feitos pelo nerd da turma, impecável, admirável e sem uma gota sequer de emoção.

Por isso mesmo, a obsessão didática de trazer Machado de Assis para o tempo atual, por melhor que seja a intenção, ou melhor, a ilusão de que isso faria algum sentido, é inútil. Geralmente, estas tentativas de trazer obras para o tempo presente são apenas sintomas do nosso cronocentrismo – preconceito que defende que vivemos na melhor das épocas possíveis. Ignoramos, assim, o cárater universal e atemporal das grandes obras e acabamos por compará-las a exemplos contemporâneos francamente inferiores. Não há forma melhor de descrever isso do que a transposição da idéia central do ótimo conto Teoria do Medalhão para o mundinho das celebridades inúteis do século XXI. É o que acontece em um dos contos do livro Um Homem Célebre – Machado Recriado. Não o li, logo não posso falar nada a respeito da qualidade da coletânea, mas a idéia de um diálogo entre Machado de Assis e a celebridade-inútil-modelo Paris Hilton simplesmente não funciona para mim. Não, de jeito algum. Nunca. Pfui.

Estarei ficando casmurro?

4 Respostas to “O destino de Machado de Assis”

  1. rafaelcosta Says:

    Concordo com tudo, ou melhor, com quase tudo.

    Isto é uma modésia denecessária e não-coerente com o texto: “Não o li, logo não posso falar nada a respeito da qualidade da coletânea”. Na verdade, não há nada mais produtivo do que falar mal de um livro que não foi lido.

    por sinal, o conto citado chama-se “teoria do medalhão”

  2. Marcelo Lopes Says:

    Rafael,

    Bom, sou obrigado a concordar… A julgar pelo diálogo publicado naquele link do UOL, nem precisa ler o restante para saber o que livro não vale a pena – sem mencionar que é inútil mesmo.
    Eu escrevi o nome do conto de cabeça, deu nisso…

    Abs!
    Marcelo.

  3. marie tourvel Says:

    Por isso sou conservadora, Marcelo, querido. Por isso me chamam de “reaça”.😉 Beijos!

  4. Marcelo Lopes Says:

    Marie,

    Nos tempos de hoje, ser chamada de “reaça” é elogio.

    Abs!
    Marcelo.

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