Humor em Thomas Bernhard: Por que só eu não vejo isso?

O romance Árvores Abatidas, de Thomas Bernhard, é a inspiração para uma história que ainda estou desenvolvendo – na verdade, ela encontra-se engavetada. Acredito realmente que as histórias têm um tempo certo para ser contadas, ou, dito de forma menos idiota, acredito que as histórias deveriam esperar o amadureciemnto do escritor. Não me sinto ainda capaz de escrevê-la, simples assim, logo, ficará na gaveta (também conhecida como HD do computador) por enquanto. Enfim, como diria o Inagaki, tergiverso, tergiverso – eu queria mesmo era falar de Bernhard.

Talvez eu seja como o amigo da Olivia, que afirmou: “minhas influências são Kafka, Beckett, Schopenhauer e a hiena do desenho“. Simplesmente não consigo encontrar o tal humor que tanta gente vê nas obras de Thomas Bernhard. Posso admitir boa dose de ironia e até sarcasmo, mas humor mesmo, aquele rárárárá, nem o humor do lado sombrio da força(*). Não sei se é um defeito meu, e talvez eu devesse achar que perdi alguma coisa nos livros que li faz algum tempo – talvez a releitura me mostre esta graça perdida. Como dizem os superiores aos soldados rasos que se recusam a acatar alguma coisa aparentemente óbvia: “o senhor está certo, o resto do mundo está enganado”, com ênfase na ironia do termo “senhor”.

Li, com considerável atraso, no Digestivo Cultural, sobre a peça Árvores Abatidas, que adapta o romance homônimo não apenas para o palco de Curitiba, mas também para o universo cultural curitibano, trocando referências a Viena e seus personagens por citações paranaenses. Em entrevista ao site, o diretor Marcos Damasceno disse que a opção da montagem foi pegar o que havia de humor na ferrenha crítica de Bernhard a impostura intelectual de seus pares e ampliar ao máximo. Citando a entrevista:

A montagem de Árvores Abatidas virou na maior parte do tempo uma comédia. Isso foi intencional?
Seguimos alguns caminhos nos primeiros ensaios até encontrarmos o tom geral do espetáculo. O primeiro mês foi só para achar esse tom. E quando vimos que estava ficando muito sério – afinal, o protagonista está sempre criticando, falando mal dos outros – ficamos com medo dele ficar arrogante demais. Então buscamos o humor para tentarmos criar uma empatia maior entre a platéia e a narradora.

Esse humor não foi um tanto exagerado?
O exagero é uma característica do próprio Thomas Bernhard. Exagero na linguagem, pela repetição de palavras e frases, e também pela caricatura que ele faz com os personagens quase estereotipados.
Isso causa bastante humor. Os personagens não têm um desempenho naturalista, uma voz naturalista. O Auersberger, por exemplo, é o bêbado. E se ele era para ser o bêbado, o deixamos ainda mais bêbado.
O estereótipo no teatro normalmente é algo depreciativo, mas aqui buscamos justamente isso, seguindo o Thomas Bernhard, na nossa visão.

Enfim, concordando ou não com esta visão, vale destacar um trecho curioso da entrevista para aqueles que apreciam a literatura de Bernhard: a relação de Árvores Abatidas com a realidade da Áustria que ele odiava.

O subtítulo do romance Árvores Abatidas (na tradução de Lya Luft) é “uma provocação”. O Thomas Bernhard chegou a ser processado por provocar pessoas reais no livro, não?
Sim. O Thomas Bernhard realmente conviveu com as pessoas descritas no livro. Todas eram reais. A única coisa que ele fez foi alterar o nome do músico Gerhard Lampersberger, que ficou no romance como Auersberger.
Quando o Thomas Bernhard lançou Árvores Abatidas, o Lampersbereger leu e falou: “espera aí, esse sou eu!”. Não há dúvida. E como ele é esculhambado no romance, ele conseguiu proibir a venda do livro.
Depois de alguns anos é que Árvores Abatidas pôde ser publicado na Áustria. Mas aí o Bernhard, um sujeito difícil, escreveu um testamento no qual proibia a publicação e a encenação das suas obras em território austríaco, após a sua morte.
Isso aconteceu mesmo, por um tempo, até que um meio-irmão do Bernhard conseguiu dar um jeito de burlar o testamento. Hoje o Thomas Bernhard é publicado, montado e reverenciado em toda a Áustria.

(*) Hoje, num shopping aqui de beagá, um sujeito vestido de Boba Fett me parou e perguntou se eu pertencia a Aliança Rebelde. Foi, de longe, o momento mais assustador da semana, superando até mesmo a implosão do mercado financeiro mundial.

7 Respostas to “Humor em Thomas Bernhard: Por que só eu não vejo isso?”

  1. marie tourvel Says:

    Em Bernhard leio sarcasmo e ironia também. Talvez seja por isso que gosto tanto.😉
    Espero ler logo o que está em sua HD.🙂

    Beijos!

  2. Marcelo Lopes Says:

    marie,

    Acho também que estas idéias de adaptar obras a características, digamos, regionais, bem estranhas – tenho a tendência a acreditar que este tipo de transposição simplesmente não funciona.
    Quanto ao meu HD, estou trabalhando num projeto. Vejamos.

    Abs!
    Marcelo

  3. marcos damaceno Says:

    Oi, Marcelo
    O que dizer do romance do TB chamado “Antigos Mestres” e que tem como subtítulo “Uma comédia”? Acredito que o TB se divertia e ria muito ao escrever seus textos. Lembro também que ironia, sarcasmo, cinismo são uma forma de humor. Mais refinada e menos escrachada, mas são humor.
    Abs
    Marcos Damaceno

    • Marcelo Lopes Says:

      Marcos,

      Você tem razão quando diz que ironia e sarcasmo podem ser facetas mais inteligentes de humor – em Bernhard, com certeza o são. Talvez o problema esteja mesmo na palavra humor, que nos induz facilmente a imaginar o riso fácil, ainda que obetido com inteligência… Aliás, corrijo: que ME induz a pensar assim.
      “Antigos Mestres” infelizmente não foi publicado no Brasil, sei apenas da edição portuguesa, certo?

      Abs!
      Marcelo.

  4. marcos damaceno Says:

    Infelizmente “Antigos Mestres” só por portugal. Sai um pouco caro, mas dá pra encomendar. Vale a pena.

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