Reforma ortográfica, miguxês, preconceito linguístico? O problema é outro…

Sim, eu reconheço e aceito que a língua é dinâmica, muda para adaptar-se a novas realidades culturais, muito embora também me sinta incomodado por algumas manias recentes – os arautos do novo português me chamariam de preconceituoso linguístico. E acostumei-me a idéia de que o mais importante é fazer-se entender, o que não deixa de ter seu lado libertador. Mas todo esse discurso sobre as diversas formas da língua portuguesa e a fúria contra a norma culta (uma expressão que parece remeter a barrocos e rococós) serve também para esconder uma realidade assustadora e simples: pouca, pouquíssima gente, sabe se fazer entender.

Não se fala aqui de analfabetismo, mas de uma incapacidade epidêmica de ler (ou ouvir, ou assistir) um pedaço qualquer de informação, extrair dali alguma coisa que faça sentido. Ficou famoso o caso dos estudantes brasileiros no exame Pisa que, após a leitura de um texto (estupidamente simples) narrando a visita de um paciente a seu médico, responderam à pergunta “quem atendeu o paciente?” com “a enfermeira”, que sequer fora citada na narrativa. Sim, eu poderia dizer que há algum fetiche oculto com enfermeiras aqui, mas não é o caso (*), ou melhor, espero que não seja o caso. Qualquer editor de blog sabe que boa parte dos comentários vem de gente que mal leu o post, apenas pinçou umas palavras e acredita ter entendido o que foi dito. E isso não é exceção.

Quem não consegue extrair informação de um texto, ou melhor, extrai muito pouca coisa, não consegue adicionar nada que preste ao seu repertório pessoal. Temos um universo de pessoas que constroem suas visões de mundo da forma descrita acima: pinçando, aqui e ali, apenas as informações mais simples e incompletas. Pedir a este indivíduo que defenda um ponto de vista é uma temeridade; o que ouvimos é apenas a afirmação repetitiva de uma opinião. É a geração “tipo assim”. Quem não consegue argumentar não vai muito longe – soando como um livro vagabundo de auto-ajuda-corporativa, afirmo sem hesitar que boa parte de nosso tempo de vida será gasto em negociações. Sim, negociamos com o tempo, o chefe, a companheira, os amigos, a equipe de trabalho, o garçom; negociamos o filme a que queremos assistir, o livro que desejamos ler, o tira-gosto que será servido, o programa de final de semana, o cronograma do projeto. Um mundo que não sabe negociar é um mundo mais pobre, assustador e sombrio. Transforma-se numa cacofonia amalucada de pessoas gritando suas opiniões sem esforço algum para elaborar uma argumentação, por mais simples que seja. É o Orkut.

Para se fazer entender, ninguém precisa saber análise sintática da oração e nem sou eu o tarado que vai defender isso, até porque acho que o que precisamos não é de ensino burocrático da língua; é de outra atitude. E ela tem de partir das escolas mesmo, porque, francamente, a maioria dos pais acredita que o filho é um gênio – mesmo quando não passa de um analfabeto funcional com um notebook no colo. Muito além da visão limitada e dominante da educação como mero passaporte para o mercado de trabalho, é preciso uma escola que incentive nos alunos o hábito de construir uma argumentação e defendê-la. Precisamos de professores que orientem, corrijam e fomentem o raciocínio, a discussão e a vitória da idéia bem formulada e defendida – e a língua é o instrumento para isso.

Estar disposto a abraçar a mudança é bom; abdicar da crítica a mudança é estupidez. A língua precisa mudar, ela tem que mudar; infelizmente, parece-me que estamos assistindo a um certo empobrecimento, disfarçado de tradução de uma suposta agilidade. Agilidade que, no fundo, pode ser apenas distúrbio de atenção.

(*) Nota breve e inútil: Spielberg é o culpado por esta deformação do meu caráter. Toda vez que ouço a palavra enfermeira, lembro-me imediatamente dos irmãos Brothers do desenho animado Animaniacs e seu bordão “Oláááááá, enfermeeeeiiiiiraaaaaaaaaaa!”.

Nota breve, mas nada inútil e a propósito: Que fim levou aquele projeto estapafúrdio do Aldo Rabelo que propunha a proibição do uso de estrangeirismos? Se esta estrovenga for aprovada, estaremos todos automaticamente owned .

2 Respostas to “Reforma ortográfica, miguxês, preconceito linguístico? O problema é outro…”

  1. Roberto Bechtlufft Says:

    Descobri seu blog ontem, não estranhe se surgirem alguns comentários sobre posts antigos…

    “acostumei-me a idéia de que o mais importante é fazer-se entender, o que não deixa de ter seu lado libertador.”

    Nesse caso, você está bem longe do preconceito lingüístico. Os “preconceituosos” são os que acham que todo mundo tem que falar exatamente como está na gramática. Se fugir um pouco, mesmo que você se faça entender, é porque você é um burraldo. Claro que isso não significa que sair tropeçando nas palavras para formar frases ininteligíveis seja algo a se incentivar.

    “soando como um livro vagabundo de auto-ajuda-corporativa”

    Eu prefiro chamar isso de “psicologia de botequim”🙂

  2. Marcelo Lopes Says:

    Roberto,

    Demorei a responder… E, bom, eu também descobri o seu blog ontem, então estamos quites!😀
    Eu uso o termo “auto-ajuda corporativa” para falar de livros como “O Monge e o Executivo”, “Quem Mexeu no meu Queijo?”, esses títulos cujo público-alvo principal é o gerente médio ou o cara que quer ser gerente…

    Abs!
    Marcelo.

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