O Brasil de dois baianos

Não gosto do filme Tieta , de Cacá Diegues. Aliás, confesso que a obra de Jorge Amado já não me atrai há alguns bons anos. Também acho o refrão da música-tema, A Luz de Tieta, composta e interpretada por Caetano Veloso um equívoco (eta-eta-eta …) que destoa dos demais versos – um resumo afiado das misérias desta terra e do modo bastante singular da inveja tupiniquim:

Todo dia é o mesmo dia
A vida é tão tacanha
Nada novo sob o sol
Tem que se esconder no escuro
Quem na luz se banha
Por debaixo do lençol…

Nessa terra a dor é grande
A ambição pequena
Carnaval e futebol
Quem não finge
Quem não mente
Quem mais goza e pena
É que serve de farol…

[…]

Toda noite é a mesma noite
A vida é tão estreita
Nada de novo ao luar
Todo mundo quer saber
Com quem você se deita
Nada pode prosperar…

É domingo, é fevereiro
É sete de setembro
Futebol e carnaval
Nada muda, é tudo escuro
Até onde eu me lembro
Uma dor que é sempre igual…

[…]

Versos que acabaram por me lembrar do famoso poema satíritico Reprovações, do também baiano Gregório de Matos (1623-1693). Lembro-me de que era a única obra dele que estudávamos (mal) no ensino fundamental; acredito que hoje em dia, sequer é lembrado (corrijam-me se estiver enganado). Segue a transcrição:

Se sois homem valoroso,
Dizem que sois temerário,
Se valente, – espadachim,
E atrevido se esforçado.

Se resoluto, – arrogante,
Se pacífico, sois fraco,
Se precatado, – medroso,
E se não o sois, – confiado.

Se usais justiça, um Herodes,
Se favorável, sois brando,
Se condenais, sois injusto,
Se absolveis, estais peitado.

Se vos dão sois um covarde,
E se dais sois desumano,
Se vos rendeis, sois traidor,
Se rendeis, – afortunado.

Se sois plebeu, sois humilde,
Soberbo, se sois fidalgo,
Se sois segundo sois pobre,
E tolo se sois morgado.

Se brioso, tendes fumos,
E se não, sois homem baixo,
Se sois sério, descortês,
Se cortês, afidalgado.

Se defendeis, sois amigo,
Se não o fazeis, sois contrário,
Se sois amigo, suspeito,
Se não o sois, – afeiçoado.

Se obrais mal, sois ignorante,
Se bem obrais, foi acaso,
Se não servis, sois isento,
E se servis, sois criado.

Se virtuosos, fingido,
E hipócrita, se beato,
Se zeloso, – impertinente,
E se não, sois um pastrano.

Se não compondes, sois néscio,
Se escreveis, sois censurado,
Se fazeis versos, sois louco,
E se não o fazeis, sois parvo.

Se corado, figadal,
Descorado, se sois alvo,
Se grande nariz, judeu,
Se trigueiro, sois mulato,

Se honesto sois, não sois homem,
Impotente s sois casto,
Se não namorais, fanchono,
Se o fazeis, estragado.

Se andais devagar, – mimoso,
Se depressa, sois cavalo,
Mal encarado, se feio,
Se gentil, – efeminado.

Se falais muito, palreiro,
Se falais pouco, sois tardo,
Se em pé, não tendes assento,
Preguiçoso, se assentado.

E assim não pode viver
Neste Brasil infestado,
Segundo o que vos refiro
Que não seja reprovado.

Uma resposta to “O Brasil de dois baianos”

  1. ana luiza Says:

    Não gosto do cinema brasieiro. Raramente vi algo que prestasse. Ou é sexo ( gamal, delírio do sexo- João Batista de Andrade ex sec. de cultura; o olho mágico do amor- Kiko Martins; Te amo…Arnaldo Jabor……etc e tal)ou é a eterna louvaçõ da bandidagem: Bandido da Luz Vermelha, Lampião Rei do cangaço, Carandiru, Lucio Flavio-passageiro da agonia- Pixote. Desisti. Além disso o som é péssimo, tudo borrado e por vezes inaudível. Não sei por que razão o brasileiro não pode fazer um filme romântico . Não vejo nada atístco e criativo. Nada novo. Além disso, conseguem , em sua maioria, ser péssimos. roteiros péssimos.Não dá mais. Nã vejo mais.

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