Kafka vai ao cinema, de Hanns Zischler

Descobri este pequeno livro por puro acaso, em um daquelas andanças sem compromisso por livrarias de que tanto gosto. Kafka vai ao Cinema, escrito pelo ator e diretor alemão Hanns Zischler, e publicado no Brasil pela Jorge Zahar, parte dos diários e cartas escritos por Kafka, em especial a sua trinoiva Felice e ao eterno amigo Max Brod, não para encontrar as influências do cinema em sua literatura, mas para oferecer um vislumbre da época, da Europa em o escritor vivera e enlaçá-las com a biografia do escritor de O Processo . Não consigo descrever o livro de forma melhor do que Paul Auster em sua quarta capa:

Um projeto lindo e doido que faz com que o leitor salte e rodopie dentro de uma das mentes mais originais do século XX. O livro de Zischler é uma pedra preciosa.

Graças a uma pesquisa intensa e obsessiva, que incluiu a recuperação de fotos de produção e filmes inteiros antes dados como perdidos, Zischler recheia o livro com imagens deliciosas, melancólicas, vivas. Cartazes de cinema, atores e atrizes desconhecidos por nós e ilustrações detalhadas levam o leitor não apenas de volta ao início do século passado, mas também a compartilhar algumas das impressões que este tempo causara a Kafka. O autor transmite habilmente a cultura nascente do cinema, sua incrível popularização na Europa e certa desconfiança intelectual que havia sobre o novo meio. Basta lembrar da belíssima sequência do Drácula de Bram Stocker, de Coppola, quando uma antiga câmera captura a imagem do Conde Vlad andando por Londres para entender que o cinema era uma espécie de diversão ligeira, leve e popular, que começava a desenvolver uma linguagem própria, a qual o público ia se acostumando e aceitando.

O próprio escritor registraria:  “Fui ao cinema. Chorei. Diversão ilimitada”. Este é o tom de Kafka vai ao cinema, uma visão sobre a vida de Kafka, a idéia sedutora de que o cinema foi, por algum tempo, e de forma bastante esporádica, um lugar para aquietar-se e se render a catarse que seus demônios pessoais lhe impediam de atingir fora das salas de exibição. Zischler afasta-se da tentação de vascular a obra de Kafka a procura de indícios, trechos, notas que indicassem explicitamente a influência do cinema em sua literatura:

Na prosa, a cinematogafia não foi transformada numa tema, nem como técnica nem como imagem; permaneceu estranhamente excluída, como se Kafka, em nítido contraste com muitos escritores de sua geração, duvidasse da possibilidade de ela ser convertida em literatura. Não se pode descartar de todo que as imagens cinematográficas, habilmente camufladas, tenham entrado no desespero farsesco de Karl Rossman [protagonista de América ou O Desaparecido, por exemplo; mas a comprovação disso, que entrementes assumiu a condição de uma quase certeza, não se encontra em lugar algum.

Não tive ainda tempo para comparar este livro ao Querido Franz, da polonesa Anna Bolecka – livro, aliás, que ainda preciso comentar aqui. Para quem não conhece, Querido Franz é um belíssimo romance epistolar narrado pelas cartas de Kafka para e de seus amigos e companheiras, em que a autora preenche lacunas e cria uma narrativa que se aproxima com carinho, curiosidade e algum assombro do arredio Franz. Ambos os livros cobrem o período mais prolífico do autor – de 1911 em diante, embora a última anotação sobre cinema seja de 1923, segundo Zischler – e ambos trazem de volta toda uma atmosfera (usando as mesmas palavras de Jorge Bastos na orelha de Querido Franz) que já não existe mais. Se Bolecka o faz por meio das cartas,  Zischler, se vale do cinema:

Ir ao cinema é ficar perto do esquecimento, levado pela esperança de transformação. Ninguém vai ao cinema para se tornar mais sensível, experiente e culto, ainda que pense estar fazendo isso. Todos querem ser arrebatados para a terra de um milagre inexorável. Entram no cinema ainda escuro, como num lugar em que se pode contar com a ocorrência de um excesso. – Franz Böckelmann, Ins Kino (Ir ao Cinema), 1994, como citado no livro por Hanns Zischler.

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Uma resposta to “Kafka vai ao cinema, de Hanns Zischler”

  1. ana luiza Says:

    Não li o livro.Desconheço o filme. O que li ,recentemente, foi um velho volume que tenho já amarelado “carta a meu pai”.
    Geralmente aprecio muito diáros e correspondências.Salvo, claro, algumas coisas que costumam aparecer no mercado e que não valem a pena.
    Vou procurar. Depois te falo.
    Abraços
    Ana

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