O Castelo de Vidro, de Jeannette Walls

Ainda mais clichê do que a orientação de não se julgar um livro pela sua capa (ou pela sua presença na lista dos mais vendidos), é ter de confirmar o ditado. O Castelo de Vidro, da jornalista norte-americana Jeannette Walls, parece equivocado desde o título. Na verdade, a edição brasileira da Nova Fronteira se esforça em vendê-lo como um destes livrinhos recheados por mensagens positivas e lições para a vida. Felizmente, ele não é nada disso.

Sua autora, uma jornalista reconhecida nos EUA, sempre se esquivou quando precisava falar de seu passado, sua família e origens. Ao escrever este relato, ela decidiu desnudar completamente sua história sem uma gota sequer de autopiedade, mas com algum humor, desassombro, lucidez e uma admiração legítima pelos pais absolutamente singulares. Rex Walls era um gênio auto-didata, ateu, inescrupuloso, charmoso e alcóolatra. Dizia o tempo todo que a civilização havia afastado o homem da natureza e admirava os nativos norte-americanos. Certa vez, levou os filhos ao zoológico para acariciar um guepardo. Mary Jo Walls era uma artista, pintora, católica, professora liberal, que acreditava que as crianças não podiam ter sua criatividade tolhida, mas era totalmente alheia às necessidades mais básicas na criação dos quatro filhos – Lori, a mais velha, Jeannette, Brian e Maureen.

Não fixavam residência por muito tempo em uma cidade (geralmente, alguma pequena e miserável localidade no interior do país), compravam carros que sempre os deixavam na mão e, com uma frequência desconcertante, passavam fome, quando os bicos e pequenos golpes do pai não lhe rendiam muito dinheiro. As crianças aprenderam logo a se virar de todas as formas possíveis, o que as tornou ainda mais unidas que a maioria dos irmãos, especialmente Jeannette e Brian. Depois de muitas aventuras (como gostava de dizer o pai), estabeleceram-se em Welch, uma cidadezinha de mineradores que parecia viver em um estado de constante decadência, onde Rex nascera. Logo apreensão do pai em voltar para Welch seria justificada: a cidade exerceu uma atração doentia nele, que fincou as raízes na casinha mais pobre possível, a beira de um abismo. Concluídos os estudos, os irmãos logo partiriam para Nova York – onde Lori acreditava que uma pessoa diferente como ela poderia apenas ser mais um, Jeannette poderia seguir seus estudos e tornar-se jornalista e Brian seguir sua vida. O que os três (Maureen toma outro rumo) não poderiam imaginar é que, anos depois, seus pais se mudariam para lá e escolheriam viver como sem-teto.

Jeannette conta tudo isso em episódios relativamente curtos, com detalhes vívidos. Desde o início, fica patente sua admiração pelo pai, seu intelecto privilegiado e charme, e não esconde o fato de ter sido sempre sua favorita. Sua narrativa oscila de certa inocência nos primeiros capítulos (e seu vocabulário usado acompanha isso, de forma bastante sutil, sem afetação) ao sarcasmo amoroso com que ela e seus pais passam a se tratar no fim da história, já em Nova York, tendo ambos de lidar com as diferenças de valores que encarnam. O título, não muito bom, refere-se ao projeto jamais concluído de Rex Walls, uma admirável casa de vidro para a família que seria descrita, neste início de século XXI, como auto-sustentável. Aliás, o fracasso material é uma constante na história dos Walls; todo o tempo, eles parecem fazer alguma conquista palpável somente para vê-la desmoronar depois – como o Natal, cuidadosamente planejado e arranjado.

É um bom livro, com aquela prosa direta de uma jornalista talentosa, sem gorduras ou trechos sem função na narrativa. Embora algumas passagens pareçam querer emocionar deliberadamente o leitor, é impossível se desviar da sinceridade de Jeannette. É claro que, pessoalmente, o livro revelou-se curioso para mim: meu pai parecia uma mistura entre Rex Walls e o pai de Paul Auster no também autobiográfico A Invenção da Solidão. Ele também era ateu, tendo se tornado agnóstico após meu atribulado nascimento. E minha mãe também era católica e poderia ter sido uma grande pintora, se não tivesse parado de estudar para se dedicar a manter a família ainda na adolescência. Herdei dele o interesse pelo universo e pela física; dela, a habilidade no desenho que preciso voltar a desenvolver.

Sim, esqueça a capa e pode se deliciar com O Castelo de Vidro – duro, engraçado, triste e sincero.

16 Respostas to “O Castelo de Vidro, de Jeannette Walls”

  1. lidianne andrade Says:

    Este foi um livro que adorei! e gostei de visitar seu blog, viu? beijos!

  2. Marcelo Lopes Says:

    Lidianne,

    Que bom que gostou do blog!
    E o livro é muito bom mesmo, foi uma bela surpresa.

    Abs!
    Marcelo.

  3. Elidiane Muniz Says:

    Encontrei este livro por acaso e foi uma verdadeira descoberta,
    estou adorando conhecer esta história que entre muitas coisas nos mostra a importancia da leitura, o que eu acredito que foi o que deu força para essas crianças e para a Jeannette Walls se tornar esta jornalista tão importante que é hoje.
    Adorei seu blog…bjs

    • Marcelo Lopes Says:

      Elidiane,

      De fato: Jeanette e a irmã foram, de formas distintas e por assuntos também diferentes, “fisgadas” pela leitura e pela literatura. E mais tarde ela escreveu este ótimo livro, cuja sinceridade incomoda e fascina.
      Obrigado pelo elogio!

      Abs!
      Marcelo.

  4. Renata Says:

    Esse livro pra mim também foi uma enorme supresa,primeiro que eu sempre o via nas prateleiras e nunca tinha muita coragem de comprá-lo.Acho que também como você já tenha dito,a capa não é nada boa.Pareçe algo como uma narrativa de mensangens de auto-ajuda,sei lá,mas enfim:o livro te arremata o peito,chega até ser incomodo em certos trechos,com uma pitada de humor ,sem ser escrachado pra não virar uma comédia.
    O que me deixou de impressão,porque também não o vejo como lição de vida,mas sim estupefata de como o ser humano pode ter vidas completamentes diferentes,que pra ela coitada,estou dando um desconto enorme,ter passado por isso tudo.
    Bjs!Adorei o espaço e falei bobeira demais.xau!

    • Marcelo Lopes Says:

      Renata,

      Fico feliz que você gostou do espaço – esteja a vontade para voltar sempre!
      Você tem toda a razão: mesmo nos momentos mais difíceis, quando o leitor acredita que não há como piorar, Walls mantém uma certa ironia, um humor tão natural que parece mesmo nascer de quem passou por apuros assim. Mas é a inteligência dela que leva o livro a um outro patamar, bem mais alto.
      Leitura de primeira, traída pela capa equivocada.

      Abs!
      Marcelo.

  5. Letícia Says:

    Nunca fui muito ligada a internet, mas pesquisando sobre livros interessantes li seu comentário sobre o Castelo de vidro.. adorei… e resolvi deixar esse recado…esse foi um livro que amei ler.. é intrigante e instigante como as pessoas lidam com as adversidades.. a autora me emocionou tanto, não no sentido de piedade mais de admiração… pois a história dela não é triste é maravilhosa e até fantástica.. como ela lidou com isso.. e no que ela transformou.. que história.. que pai.. que mãe..que pessoas complexas.. me peguei vários momentos imaginando como eles funcionavam…
    bjim

  6. Bah Says:

    Li o livro O Castelo de Vidro de Jannette Walls e confesso que fiquei mais impressionada do que comovida. Como pode existir pais tão desumanos assim? Somos responsáveis pelas crianças que concebemos e achei que essas foram criadas totalmente abandonadas.
    Também escrevi um livro: AS meninas da Carlos Goulart e os meninos também. Retrata exatamente o contrário.
    Mas… fiquei feliz que elas deram a volta por cima e superaram a falta de amor, ternura e carinho dos pais (o que graças a Deus ru e meus oito irmãos tivemos de sobra.
    Um beijo

    • Marcelo Lopes Says:

      Bah,

      A mais estranha ironia sobre os pais da Jeannette Walls é a seguinte: a irresponsabilidade deles é o que que permitiu aos filhos desenvolver um comportamento independente, que, por sua vez, lhes permitiu exatamente sobreviver aos pais!
      Seja como for, também agradeço por não ter tido pais como os dela – embora eu tenha reconhecido alguns leves traços nos meus.

      Abs!
      Marcelo.

  7. Laura Says:

    Eu sinceramente acabei de ler o livro hj as 15:45.
    Fiquei simplismente encantada cm ele, e não queria q acabasse…
    eu podia ficar imaginando ‘Brian, Jeannette, e o velho Rex Walls.’ enquanto ficava sentanda na cadeira no meu serviço atras de um balcão…
    Chorei algumas vezes, com as brigas cm o seu pai, e o modo de cmo ela era guerreira i ia em busca do seus sonhos, e de alguma forma ajudar sua familia…
    eu simplismente ‘Amei’ de uma coragem que ela não possuia ela foi simplismente brilhante e intolerante em relatar a sua real historia..

    • Marcelo Lopes Says:

      Laura,

      É um relato sensacional, triste, doloroso e brilhante. Eu também gostei muito do livro e fico feliz em ver que ele teve um impacto tão intenso em outros leitores, como você.

      Abs!
      Marcelo.

  8. elke Says:

    oi acabei ontem de ler O CASTELO DE VIDRO ,estou muito emocionda com a historia da jannette.Quando eu acabei, fiquei com muita vontade de conhece-la.Quando eu estava lendo eu tinha que parar de ler um pouco para respirar porque tava dificil acreditar que tudo aquilo que eu lia era verddade.Adorei muito este livro a historia da jannette e sua familia ainda esta na minha memoria.
    bjs!

  9. zilda oliveira batista Says:

    Impressionante !!! incrivel a estoria de vida dessas pessoas , em idade tão tenra , essas crianças passaram por tantas coisas absurdas , que , a gente nem imagina .
    É gratificante saber que todos deram a volta por cima , e tornaram-se pessoas maravilhosas , nos dão a maior lição de vida e como a superação nos enche de vontade de lutar cada dia mais …
    Porisso acredito cada dia mais , que , todo ser humano é digno de qualidades , basta acreditar ….
    Amei a estoria de vida deles , é um tapa na cara de muita gente …..

  10. Arilson Soeiro Says:

    Pela sua sinceridade, o Castelo de Vidro foi uma agradável surpresa, algumas de suas passagens nos levam a pensar, que estamos lendo partes de nossas vidas.Nós filhos, dependendo da situação, rotulamos nossos pais como heróis ou bandidos. Na verdade o ¨heroísmo¨ dos pais Walls, repousa exatamente em sua maluquice e irreponsabilidade, pois, jamais abriram mão delas, e, foram tais fatores que fizeram com que os filhos, logo sentissem a necessidade de serem independentes, e, trilhassem caminhos opostos aos dos pais.

  11. Bah Says:

    OI Marcelo Lopes. Você não gostaria de ler meu livro “AS MENINAS DA CARLOS GOULART E OS MENINOS TAMBÈM”?Acho que você vai gostar. Obrigada pela sua resposta. Um abraço.
    Bah

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