Marley? Não, obrigado.

Antes que venham torrar a minha paciência (e virão, tenho certeza), já aviso que gosto, e muito, de animais. Especialmente cachorros. Coincidentemente, hoje mesmo comentei a facilidade que alguns cachorros têm para gostar de mim e o quanto eu acho isso bizarro. E não, não acredito em aura, energia positiva ou coisa parecida e muito menos que um animal seja capaz de detectar, de alguma forma, minhas boas intenções.

Já está óbvio que esta introdução toda é para falar sobre Marley e Eu, filme e livro. E também já deve estar bem claro que não tenho o menor interesse em nenhum dos dois. Confesso que sei, superficialmente, qual é a história e ela se enquadra naquela categoria historinha-cheia-de-mensagem-e-lição-de-vida que faço questão de evitar. Mas, a julgar por esta resenha aqui, há algo de novo em Marley, algo que eu não me lembro de ver nestas obras de auto-ajuda disfarçadas de ficção. Cito o autor da crítica, Erico Borgo:

O cachorro torna-se dessa maneira apenas um conforto visual, um facilitador, numa história que – seja qual for a mídia – julguei lamentável, de alguém conformando-se ao que outras pessoas esperam dele na vida.

Ao longo do filme, o personagem e autor do romance auto-biográfico passa de alguém que nutria sonhos a um sujeito enjaulado num cotidiano medíocre. Vai trabalhar como colunista (ele queria ser repórter), vai morar no bairro que detestava (pela segurança), recusa a oportunidade de uma vida…

Ora, onde foi parar aquele discurso meio bocó de todo filme/livro cheio de mensagem-e-lição-de-vida sobre a necessidade, a urgência, de “seguir os próprios sonhos”? Em que momento houve a troca deste verdadeiro mantra repetido a exaustão nos ouvidos e neurônios de toda uma geração por esta adequação conformada aos padrões mais óbvios e clichês da existência? Não deixa de ser uma mudança curiosa. Talvez receosos de ver as vendas de seus livros caírem porque os leitores descobriam o que descobririam de qualquer forma (que sonho é muito bacana, mas custa muito caro), os autores resolveram apostar no filão, digamos, na falta de palavra melhor, maduro: A vida é assim mesmo, o melhor que podemos fazer é encontrar nela as pequenas e verdadeiras alegrias e coisas do gênero.

Não, não estou defendendo que devemos todos regredir à adolescência e suas aspirações datadas; apenas realmente acredito que passamos a maior parte de nossas vidas negociando expectativas, reduzindo a maioria absoluta delas, adiando-as e, por fim, esquecendo-as nos momentos mais convenientes possíveis. Também acredito que alguns de nós mantêm certos valores(*) e projetos pessoais, mesmo que eles acabem tendo de esperar ou competir com outros projetos – a companheira, os filhos, etc. É um dilema do qual poucos têm consciência – a maioria apenas deixa que a vida lhes leve, como diria alegre e equivocadamente aquela música.

De qualquer forma, seria uma pretensão infantil afirmar que há algo de errado com a opção pessoal pelo conformismo ou pela segurança. Não há como negar que, felizmente, temos a liberdade essencial para fazer esta escolha. Como também não há nada de errado na opinião oposta. O problema é que o tal personagem principal de Marley e Eu não parece disposto sequer a negociar projetos; na verdade, parece mesmo ter entrado em sua própria história apenas para perder. Talvez ele descubra novos valores e realizações com a família (ah, eu disse que Marley é filme-família? Não precisava, claro) e acabe amadurecendo. Talvez apenas esteja se adequando. Mas, não deixa também de existir aquela desconfiança de que, no fundo, no fundo, o livro/filme seja apenas um afago bem carinhoso e irônico na cabeça de um público leitor sem paciência para se questionar ou se avaliar. Ele deseja apenas uma boa diversão com mensagens edificantes e final projetado para levá-lo às lágrimas. De preferência, com um cachorro simpático, bacana e lambão.

(*) Toda vez que cito a palavra “valores”, sou obrigado a me lembrar de Groucho Marx apresentando-se a um cavaleiro: “Estes são os meus princípios, senhor. Se não gostar destes, tenho outros.”

6 Respostas to “Marley? Não, obrigado.”

  1. ana luiza Says:

    O LIVRO ESTEVE EM MINHAS MÃOS. VEIO COM UM OUTRO ” OS HOMENS QUE NÃO GOSTAM DE MULHERES” , AQUELE SOBRE UM CÃO E ESTE UM LIVRO DE SUSPENSE.
    HÁ TANTA COISA POR LER.SEGUINDO OS PASSOS DE OTTO MARIA CARPEAUX, LEIO O QUE POSSO, NO TEMPO QUE TENHO…ENTÃO,POR QUE LERIA MARLEY? ALIAS, TENHO UMA GATINHA CHAMADA AMANDA, DOCE, CARINHOSA, DA RAÇA MAINE COON.MAS NÃO CREIO POSSA INTERESSAR UM LIVRO SOBRE ELA.
    TENHO DE FAZER ESCOLHAS. O TEMPO É POUCO E EU AINDA HÁ MUITAS OBRAS LITERÁRIAS PARA CONHECER.MARLEY NÃO É UMA OBRA LITERÁRIA…ENTÃO, SINTO MUITO,MAS DEVOLVI O LIVRO. ALIAS, DEVOLVI OS DOIS. PELA MESMA RAZÃO.
    ANA

  2. Daniel Says:

    O livro eu não li. O filme eu vi, porque gosto de cachorros, porque era dia de natal e não havia mais nada para fazer. Já havia lido essa crítica no omelete, então sabia mais ou menos o que esperar. O cachorro – na verdade, são vinte e dois cachorros, sim, vinte e dois, tomei o cuidado de pesquisar, mas parece que é um só – empurra o filme com a barriga, então até que não é insuportável. Quanto ao dono dele: a cada aparição sua, eu me lembrava que aquele sujeito com cara de salame, o Owen Wilson, havia tentado o suicídio em meados de 2007 ou 2008. E aos poucos se formou um contraponto interessante na minha cabeça: o personagem primeiro vencido e depois anestesiado e depois grato por ter sido anestesiado pelo cotidiano sendo vivido por um ex-suicida. E eu pensava: o que Owen Wilson pensou quando filmou isso? Lamentou não ter conseguido morrer? Resignou-se como o personagem? Sim, vão-se os dias em que ele filmou Tennenbauns. Isso deve um fardo ou um alívio?

  3. Marcelo Lopes Says:

    Ana,

    Este outro livro que vc menciona, “Os Homens que não Amavam as Mulheres”, tem uma história curiosa. O seu autor, Stieg Larsson, era um jornalista sueco que morreu de infarto em 2004. Este livro, que é o primeiro de uma trilogia de suspense chamada Millennium, se tornou um sucesso de vendas na Europa. E o sujeito nem pôde aproveitar a fama.

    Abs!
    Marcelo.

  4. Marcelo Lopes Says:

    Daniel,

    Aí está uma questão muito boa: O que se passava na cabeça de Owen Wilson não apenas enquanto filmava, mas quando aceitou o roteiro? Deve ser uma forma de auto punição, ou talvez ele tenha se resignado de vez em ser o ator de filmes como Marley. E já nem deve se lembrar dos Tennenbauns – ou, quem sabe, lembra-se com saudade?
    O cara é um mistério.
    Se for para assistir a algum filme canino neste início de ano, eu vou de Bolt…

    Abs!
    Marcelo.

  5. wanderwal de histolito Says:

    merda com açucar é melhor que esse filme!!!

  6. 2009: Finalmente menos é mais « Universo Tangente Says:

    […] relacionados: Os Anéis de Saturno, de W.G. Sebald Marley? Não, obrigado Topifaive Os melhores romances que ainda não […]

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