Archive for fevereiro \25\UTC 2009

Retorno, agradecimento e tristeza

quarta-feira, 25 fevereiro, 2009

Retorno ao blog finalmente após um hiato relativamente longo. Agradeço imensamente a todos os que torceram pela minha mãe, tanto aqueles que se manifestaram aqui quanto aos que o fizeram silenciosamente.

Encerro este post com imensa tristeza: infelizmente, ela não pôde se recuperar e não se encontra mais entre nós desde sábado, dia 21 de fevereiro de 2009.

A vida suspensa

quinta-feira, 12 fevereiro, 2009

Volto quando puder.

Meus poucos leitores, por favor, torçam por minha mãe.

Morre J.M.Simmel

quinta-feira, 5 fevereiro, 2009

Quem?

Nos anos 80, a Abril lançava nas bancas uma coleção de livros chamada Best-Sellers. Era aquela reunião já esperada de nulidades: Sidney Sheldon, Harold Robins, Robin Cook, et alli. Verdade seja dita: muita gente adquiriu hábito de ler ficção com estes títulos e com o finado Círculo do Livro. Aquelas histórias idiotas de mulheres que se estrepam e depois dão a volta por cima, com fartas doses de poder, sexo e cobiça pareciam saídas de porcarias como Dallas. Ok, eu admito que, quase um pré-púbere, folheava aqueles livros de impressão meio vagabunda atrás de descrições sem-vergonha de sexo entre os protagonistas, mas isso é mais ou menos como admitir que se assistia a filmes nacionais nas madrugadas televisivas: um percalço adolescente de mau gosto, porém perfeitamente natural, digamos. Enfim, deixemos as confissões íntimas de lado antes que eu revele que era louco pela senhorita Teschmacher, do ótimo filme Superman de 1978, e voltemos a Simmel.

Johannes Mario Simmel, austríaco, parecia-me, àquela época, um bom autor, e se destacava da pasmaceira vulgar dos Sheldons da vida. Eu já não o achava excepcional, mas um de seus livros (Por Quantos Ainda Vamos Chorar, um título medonho) me deu o mesmo prazer que um filme mediano de ação, espionagem e alguns toques de ciência seria capaz – em resumo, me ofereceu algumas horas de boa e bem urdida diversão. A sequência do massacre cometido por terroristas fantasiados de palhaços em um circo ficou na minha memória por algum tempo e o diálogo que os personagens travam sobre o Mozart de Milos Forman acabou me levando a assistir – e admirar – ao filme Amadeus. Hoje eu diria que Simmel unia o que havia de mais interessante em Michael Crichton (boa pesquisa) e Frederick Forsyth (guerra fria, espionagem). Mas há muito tempo deixei de ler tanto um quanto outro e talvez esta minha opinião, baseada em leituras tortas de 15 anos atrás, não seja lá muito exata. E, para ser franco, dificilmente os leria hoje, porque minha extensa lista de prioridades literárias já está lotada de nomes que considero muito mais importantes. Desculpe, Simmel.

Pois bem, J.M.Simmel morreu aos 84 anos, depois de vender mais de 73 milhões de cópias em todo o mundo, começar a carreira sendo comparado pelos críticos a Günter Grass e terminá-la como o autor austríaco mais popular do século passado, finalmente esquecido pela mesma crítica e pelo mesmo público sempre a espera do próximo Dan Brown da vida.

Entrevistas de John Updike

quarta-feira, 4 fevereiro, 2009

When I was a boy, the bestselling books were often the books that were on your piano teacher’s shelf.
John Updike (1932-2009)

Confissão rápida: Não li John Updike. Sim, é sério. Apesar de ter As Bruxas de Eastwick (eu me recuso a usar o título nacional: O Sabá das Feiticeiras) aqui perto, jamais li dele mais do que alguns contos e algumas entrevistas. Aliás, ele detestava entrevistas: À Salon havia declarado que entrevistas são a “form to be loathed; a half-form like maggots”. Contrariando-o, reuni neste post algumas de suas entrevistas encontradas com facilidade na web.

The Art of Fiction 43, da Paris Review, em formato PDF. Onde se descobre que Updike já quis ser animador na Disney. Aliás, toda a série The Art of Fiction é imperdível, ainda escreverei um post a respeito.

Na The Nerve: Interessante e curta, abordando desde descrença na modernidade a reflexões sobre sexo oral (hein?).

Na The Salon: Mais antiga, dividida em duas partes.

Via Ricardo Lombardi, estas duas, ótimas: Martin Amis para o The Guardian e na Humanities.

Para encerrar, uma coleção de resenhas de seus livros no New York Times, escritas por gente como John Banville, Margaret Atwood e Joyce Carol Oates.

A Short Story

terça-feira, 3 fevereiro, 2009

short_story

Do blog do Milton Ribeiro.

O juiz e as gostosas

segunda-feira, 2 fevereiro, 2009

Bons tempos aqueles em que, para escrever o que bem entendesse, um juiz recorria à ficção e não a própria sentença para isso. Recentemente, o ministro do STF, Eros Grau (neste caso, nome é destino), lançou um romance chamado Triângulo no Ponto, em que mistura uma trama política que se passa na época da ditadura (o que esperar de um ex-membro do partidão?) a descrições de cenas de sexo que, se levarmos em consideração o que fui divulgado por aí, poderiam muito bem concorrer ao prêmio Bad Sex in Fiction Award da Literary Review.

Agora, um juiz do Rio de Janeiro aproveitou a sentença a favor da idenização de um consumidor pela empresa fabricante de um aparelho de televisão defeituoso para tecer comentários sobre o Big Brother Brasil e futebol. Em qualquer outra situação, se alguém viesse conversar comigo sobre estes temas tão excitantes, eu bocejaria logo nas primeiras palavras do infeliz. Como se trata de um juiz e de uma decisão judicial, a coisa toma outro rumo, bastante ridículo:

“Na vida moderna, não há como negar que um aparelho televisor, presente na quase totalidade dos lares, é considerado bem essencial. Sem ele, como o autor poderia assistir às gostosas do Big Brother, ou o Jornal Nacional, ou um jogo do Americano x Macaé, ou principalmente jogo do Flamengo, do qual o autor se declarou torcedor?”

Não satisfeito, o distinto ainda completou:

“Se o autor fosse torcedor do Fluminense ou do Vasco, não haveria a necessidade de haver televisor, já que para sofrer não se precisa de televisão.”

A decisão pode ser lida na íntegra no site Última Instância. Eros Grau fez escola.

Vincent, de Tim Burton

domingo, 1 fevereiro, 2009

Já que falei sobre Edgar Allan Poe nesta semana que marcou o bicentenário de seu nascimento, nada mais apropriado do que trazer (obrigado, Guxta!) Vincent, o ótimo curta-metragem em stop motion criado por Tim Burton em 1982. Sim, eu adoro animações em stop motion em plena era digital. Para quem não conhece, é uma técnica que consiste em animar bonecos e cenários fotografando-os um quadro por vez, o que torna qualquer produção um desafio à paciência. Antes da predominância da computação gráfica, era a forma mais comum de se encenar batalhas entre homens e criaturas fantasiosas, naves espaciais, monstros.

Quem se lembra dos fantásticos filmes de Simbad, o Marujo, vai reconhecer a técnica. Estas (e inúmeras outras) produções foram obra da dedicação e genialidade de Ray Harryhausen, de quem ainda falarei neste blog. Atualmente, há dois grandes nomes desta técnica: Nick Park, criador de Wallace & Gromit, e Henry Sellick, parceiro de Tim Burton nos belíssimos O Estranho Mundo de Jack e A Noiva-Cadáver, e criador do menos conhecido James e o Pêssego Gigante. Sellick adaptou o livro de Neil Gaiman, Coraline, para o cinema recentemente – o filme chega aqui neste ano.

Tim Burton começou sua carreira trabalhando como desenhista e animador para os estúdios Disney. Evidentemente, seu gosto particular pelo gótico não se adequava ao padrão da casa do Mickey, o que levou seu curta Vincent, embora produzido lá, a ficar engavetado por longos e longos anos, depois de pronto. O curta conta a história de um menino de imaginação fértil, que acredita ser o ator de filmes de terror Vincent Price (homenageado por Burton em Edward Mãos de Tesoura) e adora a literatura de Edgar Allan Poe. Tim Burtom escreveu o poema e o próprio Price o declama no vídeo. Vale cada segundo a e cada verso:

Vincent Malloy is seven years old
He’s polite and always does as he’s told
For a boy his age, he’s considerate and nice
But he wants to be just like Vincent Price

He doesn’t mind living with his sister, dog, and cats
Though he’d rather share a home with spiders and bats
There he could reflect on the horrors he has invented
And wander dark hallways alone and tormented

Vincent is nice when his aunt comes to see him
But imagines dipping her in wax for his wax museum
He likes to experiment on his dog Abocrombie
In the hopes of creating a horrible zombie
So that he and his horrible zombie dog
Could go searching for victims in the London fog

His thoughts aren’t only of ghoulish crime
He likes to paint and read to pass some of the time
While other kids read books like “Go Jane Go”
Vincent’s favorite author is Edgar Allan Poe.

One night while reading a gruesome tale
He read a passage that made him turn pale
Such horrible news he could not survive
For his beautiful wife had been buried alive

He dug out her grave to make sure she was dead
Unaware that her grave was his mother’s flower bed
His mother sent Vincent off to his room
He knew he’d been banished to the tower of doom
Where he was sentenced to spend the rest of his life
Alone with the portrait of his beautiful wife

While alone and insane incased in his doom
Vincent’s mother burst suddenly into the room
She said, “If you want, you can go out and play
It’s sunny outside and a beautiful day.”

Vincent tried to talk but he just couldn’t speak
The years of isolation had made him quite weak
So he took out some paper and scrawled with a pen:
“I’m possessed by this house and can never leave it again.”

His mother said, “You are NOT possessed and you are NOT almost dead
These games you play are all in your head
You are NOT Vincent Price, you’re Vincent Malloy
You’re not tormented or insane, you’re just a young boy
You’re seven years old, and you are my son
I want you to get outside and have some real fun.”

Her anger now spent, she walked out through the hall
While Vincent backed slowly against the wall
The room started to sway, to shiver and creak
His horrored insanity had reached its peak
He saw Abocrombie, his zombie slave
And heard his wife call from beyond the grave

She spoke through her coffin and made ghoulish demands
While through cracking walls reached skeleton hands
Every horror in his life that had crept through his dreams
Swept his mad laughter to terrified screams
To escape the badness, he reached for the door
But fell limp and lifeless down on the floor

His voice was soft and very slow
As he quoted “The Raven” by Edgar Allan Poe:
”And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted… Nevermore.”