O Ofício do escritor, por John Updike

Sou um rato de sebos. Além de comprar livros novos, estou sempre dando uma volta por livrarias de usados e observando aqueles saldões relativamente comuns aqui em BH. A Livraria Ouvidor, na Savassi, quase sempre coloca à venda um monte de títulos por preços ridículos bem na porta da loja. Verdade que a maioria absoluta pouco me interessa, mas comprei nas últimas semanas Os Anéis de Saturno, de Sebald, e a coletânea Bem Perto da Costa – Ensaios e Críticas, de John Updike, editado por aqui em 1991 pela Companhia das Letras.

É deste último que desejo retirar um trecho. Em 1978, Updike foi convidado a testemunhar perante a Subcomissão de Educação Seleta da Comissão sobre Educação e Trabalho do Congresso dos Estados Unidos – hein? – que versava, basicamente, sobre subsídios governamentais a atividade de escritores e demais, digamos, profissionais das humanidades. Seu breve, porém preciso, depoimento encerra-se com o seguinte parágrafo:

Se tento pensar nos autores que, no último século, mais brilhantemente iluminaram nosso senso de humanidade – que eu tomo como sendo o propósito final das humanidades – ,eu penso em Freud e Kafka, em Proust e Joyce, em Whitman e Henry James, e pergunto-me: quantos desses espíritos corajosos, estranhos e obstinados teriam obtido um subsídio de seus governos? Eu acredito que, com o passar do tempo, um governo pode vir a acalentar a herança cultural de uma nação, depois de seus criadores estarem seguramente mortos e em perspectiva. Mas, no presente vivo, como é que homens recebendo salários do governo poderão não pensar em termos de respeitabilidade, de otimismo socialmente benéfico, de um interesse amplo e não-controvertido? Como é que comissões de concessões de verbas poderão não se sentir atraídas pelo sociologicamente cativante e ludicamente comunitário? Como é que legisladores instados a distribuir o dinheiro dos impostos podem não pensar em “diretrizes” que insidiosamente vão se aproximado da censura? Se o dinheiro governamental tornar-se uma presença cada vez mais importante no financiamento das humanidades, não existe o perigo, pergunto respeitosamente, de os humanistas tornarem-se lobbyistas, e das estratégias da política substituirem as estratégias da mente?

4 Respostas to “O Ofício do escritor, por John Updike”

  1. léo e só Says:

    olá Marcelo.

    Certeiro esse pensamento de Updike. Sempre fico me perguntando que uma boa parte dos escritores adora levantar a bandeira da arte acima de tudo, mas primeio pensam realmente no tutu.

    è lógico que escritor tem que viver do que produz, e nada contra uma bolsa ou outra do governo, um prêmio. Mas no caso do escritor , ou melhor, artista brasileiro é sempre essa loucura falastrona: Dinheiro do governo e total liberdade criativa. Pura besteria.

    Po, é óbvio que o governo pode e tem que cobrar aonde vai o dinheiro.

    se fosse com a saúde seriam esse tipo de discussão daria a origem de saltos ornamentais.

    abs

  2. ANA Says:

    Marcel, sempre que existe dinheiro governamental em alguma atividade intelectual, o trabalho se torna dirigido para determinado fim. Lembra-se das esculturas e pinturas da URSS de Stalin?Lembra-se do Bolshoi estagnado porque ballet era coisa de burguês? Alias, há um filme russo , ” A montanha Azul” que retrata muito bem o tempo stalinista.
    Seria preferível que tivéssemos editores, galerias, dispostos a dar chances aos artistas que tanto editoras quanto galerias desconhecem.
    Mas há a ambição do lucro hoje somada à necessidade de sobreviver a uma crise.Então, tão cedo não teremos a liberdade que a criatividade tanto necessita.
    O cinema recebe verbas do governo. Mas alguns produtores compram casas e outros consomem a verba e não dizem onde foi parar. Os bons filmes são excessão.A independência está ligada à criatividade.
    E isso, nós não temos.
    Ana

  3. Marcelo Lopes Says:

    léo,

    Quanto tempo, hein? Infelizmente, é verdade isso que você diz. Recentemente, houve até um movimento que propunha para a literatura um tratamento estatal semelhante ao que é dispensado ao cinema nacional. Não me lembro mais do nome, assim que descobrir posto o link aqui.

    Abs!

    Marcelo.

  4. Marcelo Lopes Says:

    Ana,

    Não temos mesmo. Não apenas na prática, mas, especialmente, como valor, nos falta esta idéia de independência. Claro, ninguém está aqui pregando o sacerdócio artístico (por Deus…), mas é bastante óbvio que, onde há dinheiro estatal, há paralisia criativa.

    Abs!
    Marcelo.

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