Archive for abril \30\UTC 2009

Ainda sobre Sebald e os sonhos

quinta-feira, 30 abril, 2009

Como eu havia escrito no neste post, estou lendo Os Anéis de Saturno, de W.G. Sebald. Também mencionei um sonho bizarro envolvendo um livro de Woody Allen. Enfim, dias atrás, encontrei este trecho em que o autor de Austerlitz fala dos sonhos, logo após narrar como uma paisagem o fez recordar de uma ilusão noturna:

Provavelmente são lembranças soterradas que produzem a singlar supra-realidade do que vemos em sonho. Talvez seja, porém, algo diferente, algo nebuloso e sorrateiro que faz com que paradoxalmente no sonho tudo pareça muito mais claro. Um riacho se transforma em lago, uma brisa em tempestade, um punhado de póem um deserto, um grãozinho de enxofre no sangue de um fogo vulcânico. Que teatro é esse em que somos ao mesmo tempo poetas, atores, contra-regras, cenógrafos e público? Acaso para atravessar sonhos precisamos de mais ou menos lucidez do que essa que trazemos para a cama?

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Nada original

sábado, 25 abril, 2009

Em Outra Esquisitice Pessoal, afirmei que 90% de toda a literatura, não interessa a que gênero pertença, é ruim. Pois bem, eu bem desconfiava que não havia sido nem o primeiro e muito menos original ao dizer isso, só não esperava encontrar o verdadeiro autor desta afirmação tão cedo. O Fábio Fernandes publicou no (agora extinto) caderno Palavra da edição brasileira do Le Monde Diplomatique uma série de dois artigos sobre ficção científica. Do segundo veio este trecho:

Claro, dirão os cínicos (e estarão certos): ah, mas a maior parte disso [FC] é lixo literário. Ao que respondo concordando e citando outro luminar da ficção científica, Theodore Sturgeon, autor do clássico “More Than Human” (que já foi publicado no Brasil pela L&PM e infelizmente anda esgotado), autor de uma citação que ficou conhecida (lá fora, inclusive fora do métier science-fictional) como Lei de Sturgeon, que reza: “Noventa por cento de toda a ficção científica escrita é lixo; mas, se pararmos para analisar, noventa por cento de TUDO o que se escreve é lixo”.

O Dia do Livro, Sr. Amadeu, W.G. Sebald e Woody Allen

sexta-feira, 24 abril, 2009

Eu não sabia, mas ontem (23 de abril) foi o Dia do Livro. Se, assim como eu, você sempre imagina graças a quem e por que razões um dia qualquer acaba dedicado a alguma coisa, esta nota curta no UOL Educação pode dar algumas pistas: tradicionalmente, considera-se que, neste dia, em 1616, morreram tanto William Shakespeare quanto Miguel de Cervantes. Talvez para espantar a urucubaca intelectual, decidiu-se que este seria o Dia do Livro, na verdade, o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor, uma invenção da Unesco em 1995.

Não deixam de ser dignas de nota duas coisas que estão rondando a minha mente por estes dias. A primeira é a partida de Amadeu Rossi Cocco, de 92 anos, um belo-horizontino incrível e praticamente desconhecido do restante do país. Deixo que o Idelber, do Biscoito Fino e a Massa, descreva melhor :

Para quem mora em Belo Horizonte e gosta de livros, o nome Amadeu nunca precisou ser acompanhado por qualquer qualificativo, sobrenome, indicação de localização. Era um substantivo autosuficiente, como sinônimo de livraria de pérolas de segunda mão bem escolhidas.

Quando pequeno, adorava aquela loja estreita, abarrotada de estantes que iam até o teto; imaginava que segredos estariam escondidos nas prateleiras mais altas, acessíveis unicamente por uma escada que parecia frágil demais para qualquer um. Confesso ter visto o Amadeu pessoalmente uma única vez e não trocamos palavra – eu devia ter uns 15 anos – , embora eu tenha visitado seu sebo algumas vezes até anos atrás. Como meu dia-a-dia já passava longe da rua Tamoios, logo perdi o hábito de ver sua loja; mas permaneceu como referência, um lugar que eu sempre prometia a mim mesmo que visitaria mais uma vez. Talvez eu não volte; mesmo sem tê-lo conhecido, Amadeu fará muita falta.

É incomensurável o bem que ele fez ao mundo, à cidade de Belo Horizonte, nessas seis décadas dedicadas a aproximar-nos das obras desejadas. O homem alcançou a glória de, munido de um cubículo de livros, virar ponto de referência numa metrópole do Brasil, país onde se lê tão pouco: ah, ali na Tamoios perto do Amadeu. É a única livraria de BH da qual se pode dizer isso de verdade.

A segunda coisa que brinca na minha mente é o livro que leio de forma deseducada, displicente até: Os Anéis de Saturno, de W.G. Sebald. Sebald é, definitivamente, um autor para amantes da grande leitura. Cada parágrafo de Os Anéis de Saturno é uma descoberta delicadíssima, elaborada com esmero, unindo a memória pessoal à memória do mundo. Não há um roteiro estabelecido, muito menos uma trama: Sebald caminha por cidades, praias, estradas e entrelaça lembranças, curiosidades e história com uma erudição fascinante e acessível. A única constante em Os Anéis de Saturno é a impressão de que o narrador passeia por um mundo que já experimentou seu apogeu e agora exibe suas ruínas silenciosamente. Há uma melancolia suave, desprovida de ressentimento, e uma preocupação constante em escrever bem, de verdade, coisa que às vezes parece meio esquecida. Infelizmente, Sebald morreu trágica e prematuramente num acidente em 2001. Meu próximo livro dele será o elogiado Austerlitz .

Nota: Na verdade, lembrei-me de um terceiro e estranhíssimo fato. Bem sei que descrever os próprios sonhos é praticamente uma sentença de desinteresse para um post; perdoem-me, sei que este tem a ver com o título. Neste sonho, que me invadiu na noite de terça para quarta, sou um fugitivo. Não sei do que fujo; sei apenas que aluguei uma espécie de casa geminada do outro lado de uma grande cidade. Da janela, vejo o muro que cerca o modesto condomínio coroado pela cerca elétrica; do outro lado da rua, um lote vago com um out-door ilegível. Ao olhar para a cômoda ao lado da cama (todo o quarto tem a impessoalidade de um hotel, uma habitação provisória à qual sequer nos damos o trabalho de nos acostumar), vejo um livro, incrivelmente amassado, como se cada hóspede do lugar o tivesse lido mil vezes. É “Cuca Fundida”, de Woody Allen. O que Freud diria, meu Deus?

Sobre a identificação com os personagens

domingo, 19 abril, 2009

Não sou tolo a ponto de negar que um personagem com o qual me identifico se torna imediatamente mais atraente. É uma questão natural, até bastante tola. Também é verdade que tendemos a nos identificar com uma certa forma de projeção, uma versão ideal de nós mesmos em personagens de ficção. Raros são os casos em que nos reconhecemos num idiota, um canalha ou simplesmente um sujeito equivocado – lembro-me muito bem do impacto que o Travis de Paris, Texas teve sobre meu pai. Mas não consigo entender como apenas isso possa ser determinante na predileção por esta ou aquela obra – ou, dizendo de outra forma, como podemos rejeitar uma obra porque não concordamos com uma atitude de um personagem, mesmo quando ela é coerente com a sua personalidade.

Pensei nisso após assitir a O Curioso Caso de Benjamin Button e ler algumas reações a ele. Várias críticas foram feitas a uma ação específica do Benjamin de Brad Pitt (se você não assistiu e não deseja que uma das surpresas seja estragada, pule para o próximo parágrafo): quando ele, incapaz de lidar com sua condição singular, decide abandonar a mulher e filha. Provavelmente, eu não faria isso; não suportaria ficar distante de minha filha, mesmo que, eventualmente, eu viesse a me tornar mais jovem do que ela – a razão para Button se afastar. Vale dizer que Button é um sujeito comum que vive uma situação única, rejuvenescer fisicamente e envelhecer mentalmente. Ele não é um herói; na verdade, tem uma postura errática em relação a seus próprios conflitos, e não consegue resolver todos eles – o que há de mais humano a não ser isso?

O que me levou a questionar: Por que eu deveria exigir de um personagem de ficção a minha postura diante de alguma coisa? E, indo além, por que um personagem deveria corresponder às minhas expectativas de moral e correção? Infelizmente, parece-me que nem mesmo os criadores pensam assim. Em entrevista recente, Spielberg disse que hoje em dia não faria o personagem de Richard Dreyfuss abandonar a família para caçar luzes no céu em Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Lembro-me também e um crítico reclamar, em 1996, quando do lançamento de Pulp Fiction, que Tarantino havia criado personagens terríveis, antipáticos, com os quais não conseguimos nos identificar – e que isso era inadimissível!

Já disse neste blog que nada tenho contra a ficção que chamamos de best-seller. Isso não quer dizer que eu goste deste tipo de livro – geralmente, não – ou que não tenha um preconceito contra eles. Tenho sim e nenhuma vergonha em admiti-lo. Mas também não posso deixar de observar que criar personagens bacanas, gente fina, de bem, é o caminho mais curto para cair no gosto do público em geral. A maioria deles habita aquelas obras cheias de mensagens, boas intenções e propostas edificantes, feitas com o único propósito de agradar nosso lado mais suscetível (e vender horrores) ou fruto da ingenuidade de escritores que realmente acreditam que ficar dando lição de vida é arte.

André Gide tinha toda a razão quando disse que “não se faz boa literatura com boas intenções nem com bons sentimentos”. Boas histórias podem até ter redenção (Raskolnikov?), crescimento pessoal, ou atitudes moralmente defensáveis de seus protagonistas, mas nascem inevitavelmente do enfrentamento da condição humana – o que é um grande clichê, eu sei, mas serve bem aqui. Costumo brincar e dizer que a grande literatura universal (excluída a comédia, claro) é uma desgraceira só. Aquiles, Hamlet, Dom Quixote, Medéia, Fausto, Bentinho, Anna Karenina, os Bruden; é uma galeria de pobres-coitados, equivocados, loucos, canalhas, visionários, curiosos, perdidos, idealistas. Ou, em outras palavras: gente muito, muito interessante. Eu acredito que exista um certo fundo de verdade nesta brincadeira e, por outro lado, uma negação da idéia da arte como portadora de boas intenções. Não se faz grande arte como se fosse uma versão ficcional da auto-ajuda – logo, personagens idealizados não cabem nela.

Biblioteca instantânea

sexta-feira, 17 abril, 2009

Confesso que, em matéria de livros e coisas do gênero, esta é uma das iniciativas mais bizarras que já vi: segundo o blog Ciência Maluca, da revista SuperInteressante, é possível encomendar toda uma biblioteca nos EUA, pelo site WonderBook (o link está instável). Mas não vá pensando que a compra é ligada a gostos do comprador – livros policiais, romances históricos, cultivo de abóboras do Taiti, etc. A biblioteca encomendada é voltada para o lado, digamos, estético do livro, ou seja, é possível escolher entre estantes cheias de livros com ou sem bolor, com capas antigas ou novas, e assim por diante.

Talvez seja mais um passo rumo a visão do livro como um objeto de decoração – não é por menos que algumas edições recentes mais parecem destinados a nunca ser lidos, mas apenas adornar um sala ou escritório “culto”. Tudo bem que as edições disponibilizadas pela WonderBook sejam todas originárias de sebos e a um custo incrivelmente baixo, o que me faz imaginar que agora a biblioteca toda, e não apenas o livro, tornou-se item de decoração.

O Castelo Branco, de Orhan Pamuk

quarta-feira, 15 abril, 2009

A leitura de O Castelo Branco foi bastante atribulada; iniciei no hospital, durante a primeira internação de minha mãe, a interrompi por longos meses e retomei na última semana, avançando aos poucos, algumas páginas apenas por dia, geralmente no caminho para e do trabalho. Confesso que não gosto de ler assim; se fosse possível, dedicaria tempo integral a leitura de cada obra, o que é, naturalmente, impossível. É curioso que, mesmo assim, ou talvez exatamente por isso, conseguia submergir totalmente no universo de Pamuk durante os poucos momentos dedicados ao livro por dia.

Orhan Pamuk é um autor de que gosto bastante e este Castelo Branco foi uma breve e agradável surpresa. O livro é uma narrado como se fosse um manuscrito descoberto por um jovem estudioso; esta é apenas uma das brincadeiras intertextuais que o romance proporciona. Ele conta a história de um italiano tornado escravo de um intelectual na Istambul do império turco-otomano. Fisicamente muito parecidos, acabam, aos poucos, ganhando notoriedade como conselheiros do sultão, até que Hoja (o turco) convence o sultão da construção de uma formidável máquina de guerra que poderá levá-los tanto a ruína quanto ao fracasso absoluto.

Talvez a trama em si seja o aspecto menos importante de O Castelo Branco. Sua força está na caracterização dos dois personagens, no modo como suas personalidades se entrelaçam, no absoluto horror que a prespectiva de fracasso causa a Hoja – de certa forma, ele não chega a ser realmente um intelectual; tanto ele quanto o italiano talvez sejam apenas dois pseudos, notavelmente inteligentes, isso é claro, mas incapazes de organizar o conhecimento adquirido. Em outras palavras, não conseguem fazer ciência, mas técnica. Hoja é mais ambicioso, almeja o posto de astrólogo do sultão, dedica-se a interpretar os seus sonhos de forma a sempre lhe agradar; em determinado momento, o sultão percebe que muito do conhecimento adquirido por Hoja deve-se ao escravo infiel que não abre mão de suas crenças. Em boa parte do livro, Pamuk usa os dois personagens para discutir a identidade e a individualidade, o que seria um desastre em mãos menos habilidosas, mas atinge um clímax surpreendente e desconcertante no último capítulo. É preciso grande atenção para perceber que o autor fala não dos homens daquele tempo, mas também do nosso, de literatura e da identidade da própria Europa e Turquia.

Neste último trecho, ao receber a visita de um cavaleiro que se interessa por sua história, o personagem (não posso revelar qual deles; parte da graça está exatamente aí) narrador retoma a narrativa interrompida havia mais de dez anos. Destaco estes trechos, curiosíssimos:

Sim, concordou ele, devemos buscar o que é estranho e inesperado, como na minha história; sim, talvez fosse esta a única maneira de escapar da exaustiva monotonia deste universo; desde os anos tediosos da infância e da escola, ele sabia que tudo se repetia o tempo todo […]. Ficar procurando quem somos, pensar tanto tempo e com tanta intensidade sobre nós mesmos, só pode nos trazer infelicidade. E era isso que acontecia com os personagens da minha história: era por isso que nunca chegavam a ser eles mesmos, era por isso que aspiravam o tempo todo a ser outra pessoa. […] Pois, de tanto escrevermos histórias deste tipo, de tanto buscar o que era estranho em nós mesmos, nós também correríamos o risco de nos transformar em outras pessoas, e – Deus me livre! – nossos leitores também. Ele nem queria imaginar este universo terrível em que os homens só falassem de si mesmos e das suas peculiaridades, e onde os livros e as histórias só tratassem desse assunto!

Mas era justamente isso que eu queria! E eis por que, […] sentei-me à minha mesa e comecei a escrever este livro. A fim, talvez, de melhor imaginar meus leitores nesse universo terrível que há de vir, fiz todo o possível para incluir no livro tudo o que sabia sobre mim, mas também tudo o que sei sobre Ele, que eu já não podia distinguir de mim.

(Tradução de Sergio Flaksmann, com base nas traduções do turco para o inglês e o francês)

O Castelo Branco, ao que consta, é responsável por iniciar a crescente reputação de Orhan Pamuk como romancista (o livro é de 1979), mas também como um pensador independente, criticado e admirado. Já teve uma edição no Brasil, muito antes do Prêmio Nobel de 2006, mas a versão que li é posterior a isso.

A língua portuguesa na internet

terça-feira, 14 abril, 2009

Uma série de artigos interessantes (e breves) no UOL Tecnologia sobre as linguagens da internet:

As mil caras da língua portuguesa na internet
Isso significa que a lingua portuguesa está condenada?
Conheça o miguxês, o tiopês e o 1337
Tradutores para o internetês

Eu mesmo já cometi um erro crasso neste blog ao criticar o nome de uma comunidade no Orkut que, na verdade, era uma brincadeira escrita em tiopês. Eu faço parte da primeira geração da internet brasileira, do ICQ, IRCs, conexão discada, Internet Explorer 4 versus Nestcape Navigator e outras coisas da era cretácea da internet. De vez em quando, ainda escrevo um “vc” e “tb” sem perceber.

Outra esquisitice pessoal

sexta-feira, 10 abril, 2009

A editora do blog Stranger in a Strange Land, Safaa Dib, resumiu a aversão que muitas pessoas sentem por obras de ficção científica – ou fantasia:

Consigo compreender os leitores que se recusam a aventurar em obras de ficção científica. É um erro julgar que é para todos os gostos, porque não é. Um leitor de ficção científica precisa de estar disposto a descodificar os parâmetros que foram instituídos no mundo criado pela imaginação do autor. E precisa, acima de tudo, de uma mente aberta que se prepare para absorver, às vezes com dificuldade, a estranheza da história de modo a tentar compreendê-la.

Dentro do meu círculo de familiares e amigos, uma boa parte tem verdadeiro pavor de qualquer obra que tenha referências a, como ja me disseram, “coisas que não existem”. Mais ou menos o que eu sentiria se fosse obrigado a assistir a High School Musical ou a uma temporada inteira de Malhação – minha visão particular de inferno…

Como eu já disse antes, não leio FC há anos, embora continue assistindo a filmes do gênero. Na verdade, sempre me surpreendi com a minha pouca disposição para descartar gêneros inteiros de obras. Sempre que me perguntam que tipo de livro ou filme gosto, respondo genericamente, de uma forma até meio idiota: “gosto de bons livros/filmes/peças”. Penso que uns 90% de todas os obras de todos os gêneros sejam ruins. Falo sério – nem medianas, nem suportáveis; ruins mesmo. De onde tirei este número? Da capacidade que todos temos de gerar estatísticas sem a menor idéia sobre sua relação com o mundo real, claro.

De qualquer forma, me considero um sujeito muito estranho, porque, ao contrário da maioria das pessoas que conheço, não rejeito gêneros inteiros. E acho que 10% de obras medianas, suportáveis, boas, ótimas e excepcionais já são mais do que suficiente para uma vida inteira. E, voltando um pouco ao início do post, lembro-me de que a versão brasileira da Isaac Asimov Magazine, publicada nos anos 90, representa bem este percentual de boas obras dentro de um gênero específico. Acho que vou retirar a coleção lá do fundo do baú (literalmente) e reler pelo menos o excelente conto O Dom da Palavra, de Octavia Butler.

O mundo sem ninguém

sexta-feira, 3 abril, 2009

Li, em algum lugar, que o competente diretor Francis Lawrence pode voltar ao cenário apocalíptico de Eu Sou a Lenda (sim, o filme é bom, apesar do final e do CGI) em uma produção inspirada pelo livro The World Without Us, de Alan Weisman. Não o li, mas assisti ao impressionante especial do History Channel, Life After People, conhecido por aqui como O Mundo Sem Ninguém. Nele, cientistas extrapolam as já conhecidas consequências da ausência de atividade humana em um ponto do planeta (em Chernobyl, por exemplo) para todo o mundo e um período de 10.000 anos. O resultado é mórbido e fascinante.

Sem a constante manutenção que providenciamos todos os dias, nossas cidades rapidamente seriam retomadas por plantas e animais. Após alguns milhares de anos, nossa civilzação, tão intrincada e poderosa, não deixaria quase marca alguma no planeta: os prédios ruirão, o cimento desaparecerá, as pontes cairão. Nem mesmo o legado cultural deixaremos de nossa passagem por este mundo: armazenados em meios digitais e papel, nosso riquíssimo acervo intelectual e artístico está fadado a desaparecer poucas centenas de anos a frente. E não haverá nenhum Wall-e para ficar recolhendo nossas tralhas e dando-lhes algum sentido – aliás, nem tralhas sobrarão. A ironia final é que as únicas construções com alguma chance de sobreviver ao lento apocalipse da natureza são as mais antigas, erigidas em pedra, como a Muralha da China e o Coliseu – talvez uma das poucas obras modernas a sobreviver seria o Monte Rushmore. Sim, nosso mundo moderno é de uma fragilidade desconcertante.

Ainda mais curioso: é a simples fala de um personagem de histórias em quadrinhos que resume a perfeição o aspecto perturbador deste Life After People. No capítulo final da última aventura do Super-Homem, brilhantemente escrita por Grant Morrison e ilustrada por Frank Quietily, All-Star Superman 12, Kal-el (o nome verdadeiro do kriptoniano de azul que usa sunga vermelha por cima da calça) confronta uma última vez seu pai, Jor-el (sim, Marlon Brando no filme dos anos 70). Diante da destruição de seu planeta natal, o cientista diz:

Nossa arte, nossa história orgulhosa, nossos nomes… Apagados das telas da posteridade. Considere-nos uma civilização inteira de super-homens reduzida a poeira por um capricho da cosmologia. Aí, pense em como são preciosas e frágeis as pequenas coisas a que dá valor.

Surpresa!

sexta-feira, 3 abril, 2009

Pois bem: se não são os amigos para nos dar uma sacudida, quem faria isso? O blog anda modorrento, meio abandonado e mesmo assim ganhou um prêmio da minha mais nova amiga de infância Marie – e nem sei como agradecer. Na verdade, a melhor forma que encontrei foi essa: retomando o blog, colocando ordem nas coisas, respondendo a um monte de comentários que já estavam se acumulando… Como diz um outro site, agora vai!

Ah, e não deixem de visitar os blogs indicados lá – são todos de primeira, e ter sido colocado ao lado de tanta gente boa equivale a ser promovido.