O mundo sem ninguém

Li, em algum lugar, que o competente diretor Francis Lawrence pode voltar ao cenário apocalíptico de Eu Sou a Lenda (sim, o filme é bom, apesar do final e do CGI) em uma produção inspirada pelo livro The World Without Us, de Alan Weisman. Não o li, mas assisti ao impressionante especial do History Channel, Life After People, conhecido por aqui como O Mundo Sem Ninguém. Nele, cientistas extrapolam as já conhecidas consequências da ausência de atividade humana em um ponto do planeta (em Chernobyl, por exemplo) para todo o mundo e um período de 10.000 anos. O resultado é mórbido e fascinante.

Sem a constante manutenção que providenciamos todos os dias, nossas cidades rapidamente seriam retomadas por plantas e animais. Após alguns milhares de anos, nossa civilzação, tão intrincada e poderosa, não deixaria quase marca alguma no planeta: os prédios ruirão, o cimento desaparecerá, as pontes cairão. Nem mesmo o legado cultural deixaremos de nossa passagem por este mundo: armazenados em meios digitais e papel, nosso riquíssimo acervo intelectual e artístico está fadado a desaparecer poucas centenas de anos a frente. E não haverá nenhum Wall-e para ficar recolhendo nossas tralhas e dando-lhes algum sentido – aliás, nem tralhas sobrarão. A ironia final é que as únicas construções com alguma chance de sobreviver ao lento apocalipse da natureza são as mais antigas, erigidas em pedra, como a Muralha da China e o Coliseu – talvez uma das poucas obras modernas a sobreviver seria o Monte Rushmore. Sim, nosso mundo moderno é de uma fragilidade desconcertante.

Ainda mais curioso: é a simples fala de um personagem de histórias em quadrinhos que resume a perfeição o aspecto perturbador deste Life After People. No capítulo final da última aventura do Super-Homem, brilhantemente escrita por Grant Morrison e ilustrada por Frank Quietily, All-Star Superman 12, Kal-el (o nome verdadeiro do kriptoniano de azul que usa sunga vermelha por cima da calça) confronta uma última vez seu pai, Jor-el (sim, Marlon Brando no filme dos anos 70). Diante da destruição de seu planeta natal, o cientista diz:

Nossa arte, nossa história orgulhosa, nossos nomes… Apagados das telas da posteridade. Considere-nos uma civilização inteira de super-homens reduzida a poeira por um capricho da cosmologia. Aí, pense em como são preciosas e frágeis as pequenas coisas a que dá valor.

9 Respostas to “O mundo sem ninguém”

  1. Alessandro Martins Says:

    Há certamente uma ilusão de permanência na cultura humana. Somos vidas fugazes (individualmente e no conjunto), vivendo em um pálido ponto azul, como chamou Carl Sagan, certa vez, o nosso planeta.

  2. Marcelo Lopes Says:

    Alessandro, somos naturalmente iludidos pelo mundo que criamos, pela nossa cultura e nosso tempo. Não apenas achamos que nossa espécie durará para sempre, mas também nós mesmos, como indivíduos. Se até o pálido ponto azul (Carl Sagan, puxa, que saudade de Cosmos…) um dia encontrará o seu fim, o que dizer de nós mesmos?

    Abs!
    Marcelo.

  3. gustavo Says:

    muitooooooooooooo interesante o mundo sem ninguem mostra a força que a natureza tem sem a gente intervi nela
    muito bom

  4. Da Mona Lisa ao projeto Apolo « Universo Tangente Says:

    […] demais quando comparadas às escalas do universo ou mesmo do nosso minúsculo planeta. Já tratei disso em outro post, mas é impressionante constatar mais uma vez como o registro da passagem de nossa civilzação, […]

  5. Miriam Says:

    O mundo sem nnguém, ou melhor, sem humanos, seria o verdadeiro paraíso. A Natureza em toda a sua beleza e força. Animais livres e sem a exploração humana. Florestas se recompondo em todo o planeta, da destruição causada pelos humanos. Espero que tudo isso venha a acontecer realmente.

  6. Bruno Says:

    Miriam, um dia nosso sol morrerá, e, mesmo sem entrar em supernova, se expandirá e engolirá a Terra.
    A única chance de salvação para a vida na Terra é alguma ação de parte do ser humano.
    A sua ideologia se auto-derrota, pensando-se no homem não como senhor da natureza, mas como seu pastor. Que é o que ele realmente é.

  7. rosemeri Says:

    como faço para baixar esse filme?

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