Sobre a identificação com os personagens

Não sou tolo a ponto de negar que um personagem com o qual me identifico se torna imediatamente mais atraente. É uma questão natural, até bastante tola. Também é verdade que tendemos a nos identificar com uma certa forma de projeção, uma versão ideal de nós mesmos em personagens de ficção. Raros são os casos em que nos reconhecemos num idiota, um canalha ou simplesmente um sujeito equivocado – lembro-me muito bem do impacto que o Travis de Paris, Texas teve sobre meu pai. Mas não consigo entender como apenas isso possa ser determinante na predileção por esta ou aquela obra – ou, dizendo de outra forma, como podemos rejeitar uma obra porque não concordamos com uma atitude de um personagem, mesmo quando ela é coerente com a sua personalidade.

Pensei nisso após assitir a O Curioso Caso de Benjamin Button e ler algumas reações a ele. Várias críticas foram feitas a uma ação específica do Benjamin de Brad Pitt (se você não assistiu e não deseja que uma das surpresas seja estragada, pule para o próximo parágrafo): quando ele, incapaz de lidar com sua condição singular, decide abandonar a mulher e filha. Provavelmente, eu não faria isso; não suportaria ficar distante de minha filha, mesmo que, eventualmente, eu viesse a me tornar mais jovem do que ela – a razão para Button se afastar. Vale dizer que Button é um sujeito comum que vive uma situação única, rejuvenescer fisicamente e envelhecer mentalmente. Ele não é um herói; na verdade, tem uma postura errática em relação a seus próprios conflitos, e não consegue resolver todos eles – o que há de mais humano a não ser isso?

O que me levou a questionar: Por que eu deveria exigir de um personagem de ficção a minha postura diante de alguma coisa? E, indo além, por que um personagem deveria corresponder às minhas expectativas de moral e correção? Infelizmente, parece-me que nem mesmo os criadores pensam assim. Em entrevista recente, Spielberg disse que hoje em dia não faria o personagem de Richard Dreyfuss abandonar a família para caçar luzes no céu em Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Lembro-me também e um crítico reclamar, em 1996, quando do lançamento de Pulp Fiction, que Tarantino havia criado personagens terríveis, antipáticos, com os quais não conseguimos nos identificar – e que isso era inadimissível!

Já disse neste blog que nada tenho contra a ficção que chamamos de best-seller. Isso não quer dizer que eu goste deste tipo de livro – geralmente, não – ou que não tenha um preconceito contra eles. Tenho sim e nenhuma vergonha em admiti-lo. Mas também não posso deixar de observar que criar personagens bacanas, gente fina, de bem, é o caminho mais curto para cair no gosto do público em geral. A maioria deles habita aquelas obras cheias de mensagens, boas intenções e propostas edificantes, feitas com o único propósito de agradar nosso lado mais suscetível (e vender horrores) ou fruto da ingenuidade de escritores que realmente acreditam que ficar dando lição de vida é arte.

André Gide tinha toda a razão quando disse que “não se faz boa literatura com boas intenções nem com bons sentimentos”. Boas histórias podem até ter redenção (Raskolnikov?), crescimento pessoal, ou atitudes moralmente defensáveis de seus protagonistas, mas nascem inevitavelmente do enfrentamento da condição humana – o que é um grande clichê, eu sei, mas serve bem aqui. Costumo brincar e dizer que a grande literatura universal (excluída a comédia, claro) é uma desgraceira só. Aquiles, Hamlet, Dom Quixote, Medéia, Fausto, Bentinho, Anna Karenina, os Bruden; é uma galeria de pobres-coitados, equivocados, loucos, canalhas, visionários, curiosos, perdidos, idealistas. Ou, em outras palavras: gente muito, muito interessante. Eu acredito que exista um certo fundo de verdade nesta brincadeira e, por outro lado, uma negação da idéia da arte como portadora de boas intenções. Não se faz grande arte como se fosse uma versão ficcional da auto-ajuda – logo, personagens idealizados não cabem nela.

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