O Dia do Livro, Sr. Amadeu, W.G. Sebald e Woody Allen

Eu não sabia, mas ontem (23 de abril) foi o Dia do Livro. Se, assim como eu, você sempre imagina graças a quem e por que razões um dia qualquer acaba dedicado a alguma coisa, esta nota curta no UOL Educação pode dar algumas pistas: tradicionalmente, considera-se que, neste dia, em 1616, morreram tanto William Shakespeare quanto Miguel de Cervantes. Talvez para espantar a urucubaca intelectual, decidiu-se que este seria o Dia do Livro, na verdade, o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor, uma invenção da Unesco em 1995.

Não deixam de ser dignas de nota duas coisas que estão rondando a minha mente por estes dias. A primeira é a partida de Amadeu Rossi Cocco, de 92 anos, um belo-horizontino incrível e praticamente desconhecido do restante do país. Deixo que o Idelber, do Biscoito Fino e a Massa, descreva melhor :

Para quem mora em Belo Horizonte e gosta de livros, o nome Amadeu nunca precisou ser acompanhado por qualquer qualificativo, sobrenome, indicação de localização. Era um substantivo autosuficiente, como sinônimo de livraria de pérolas de segunda mão bem escolhidas.

Quando pequeno, adorava aquela loja estreita, abarrotada de estantes que iam até o teto; imaginava que segredos estariam escondidos nas prateleiras mais altas, acessíveis unicamente por uma escada que parecia frágil demais para qualquer um. Confesso ter visto o Amadeu pessoalmente uma única vez e não trocamos palavra – eu devia ter uns 15 anos – , embora eu tenha visitado seu sebo algumas vezes até anos atrás. Como meu dia-a-dia já passava longe da rua Tamoios, logo perdi o hábito de ver sua loja; mas permaneceu como referência, um lugar que eu sempre prometia a mim mesmo que visitaria mais uma vez. Talvez eu não volte; mesmo sem tê-lo conhecido, Amadeu fará muita falta.

É incomensurável o bem que ele fez ao mundo, à cidade de Belo Horizonte, nessas seis décadas dedicadas a aproximar-nos das obras desejadas. O homem alcançou a glória de, munido de um cubículo de livros, virar ponto de referência numa metrópole do Brasil, país onde se lê tão pouco: ah, ali na Tamoios perto do Amadeu. É a única livraria de BH da qual se pode dizer isso de verdade.

A segunda coisa que brinca na minha mente é o livro que leio de forma deseducada, displicente até: Os Anéis de Saturno, de W.G. Sebald. Sebald é, definitivamente, um autor para amantes da grande leitura. Cada parágrafo de Os Anéis de Saturno é uma descoberta delicadíssima, elaborada com esmero, unindo a memória pessoal à memória do mundo. Não há um roteiro estabelecido, muito menos uma trama: Sebald caminha por cidades, praias, estradas e entrelaça lembranças, curiosidades e história com uma erudição fascinante e acessível. A única constante em Os Anéis de Saturno é a impressão de que o narrador passeia por um mundo que já experimentou seu apogeu e agora exibe suas ruínas silenciosamente. Há uma melancolia suave, desprovida de ressentimento, e uma preocupação constante em escrever bem, de verdade, coisa que às vezes parece meio esquecida. Infelizmente, Sebald morreu trágica e prematuramente num acidente em 2001. Meu próximo livro dele será o elogiado Austerlitz .

Nota: Na verdade, lembrei-me de um terceiro e estranhíssimo fato. Bem sei que descrever os próprios sonhos é praticamente uma sentença de desinteresse para um post; perdoem-me, sei que este tem a ver com o título. Neste sonho, que me invadiu na noite de terça para quarta, sou um fugitivo. Não sei do que fujo; sei apenas que aluguei uma espécie de casa geminada do outro lado de uma grande cidade. Da janela, vejo o muro que cerca o modesto condomínio coroado pela cerca elétrica; do outro lado da rua, um lote vago com um out-door ilegível. Ao olhar para a cômoda ao lado da cama (todo o quarto tem a impessoalidade de um hotel, uma habitação provisória à qual sequer nos damos o trabalho de nos acostumar), vejo um livro, incrivelmente amassado, como se cada hóspede do lugar o tivesse lido mil vezes. É “Cuca Fundida”, de Woody Allen. O que Freud diria, meu Deus?

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