Archive for maio \27\UTC 2009

O império dos nerds

quarta-feira, 27 maio, 2009

Voltando ao tema dos nerds, que comemoraram nesta segunda-feira seu dia internacional de orgulho (coincidindo com o Dia da Toalha), descreverei uma ideia bastante herética e (acredito) até mesmo ofensiva a alguns. Somos quase todos nerds. Ao menos, aqui no Bananão, com certeza. Embora, após minha mal-feita defesa, você pode chegar a conclusão de que o nerdismo é uma prática espalhada por quase todos os países.

O que define um nerd ou geek? O consenso geral diz que o sujeito, para ser digno da alcunha de nerd tem que, antes de qualquer outra coisa, ser um especialista apaixonado em alguma área do conhecimento. Não precisa ser algo realmente relevante (embora o seja para ele); pode ser tanto a genealogia dos elfos em O Senhor dos Anéis quanto mecânica quântica. Será considerado mais nerd aquele cidadão cujo traquejo social se resumir a marcar presença muda e quase sempre solitária em algum evento, como uma festa na empresa em que trabalha. Mas, veja bem, esta característica não é essencial a definição nerdística. O importante mesmo é ser um especialista absoluto em alguma coisa, capaz de longas discussões que parecem absurdas a quem observa de fora. E, claro, é preciso ter uma paixão desmedida por este objeto de estudo, a ponto de levá-lo a se reunir em grupos com seus próprios códigos e jargões,  frequentar fóruns e outras searas da internet e, em casos mais extremos, a se vestir de forma padronizada ou até fantasiosa, como se apelasse a uma identificação absoluta com sua obsessão.

Certamente, você está pensando em alguma convenção de trekkers onde desfilam sujeitos barrigudos em uniformes que mal caberiam no William Shatner em sua adolescência ou em uma japonesa vestida de Sailor Moon posando para as câmeras de fãs; talvez num bando de universitários discutindo a teoria das cordas na Caltech ou geeks brigando num fórum, tentando chegar a alguma conclusão sobre qual a melhor distribuição Linux. Você não está enganado, claro. Tudo isso faz parte do universo nerd, e é bem provável que não tenha entendido algumas das coisas que citei. Desculpe-me, mas eu pensei em algo levemente diferente: um bando de torcedores do Atlético Mineiro, Cruzeiro, Flamengo ou qualquer grande time.

Vejamos. Eles fazem parte de uma turma (imensa, é verdade) com seu próprio código, regras e piadas internas. Assim como os fãs de Star Wars (cujo ícone é o cineasta Kevin Smith) e os de Star Trek, vivem fazendo piada uns com os outros; a maior parte do tempo, amigavelmente, mas conflitos bizarros não são incomuns. Para alguém como eu, afastado do futebol, acompanhar uma calorosa discussão sobre a escalação das seleções brasileiras de 1970 e 1982 é algo tão hermético quanto tentar entender trekkers debatendo as diferenças e semelhanças entre vulcanos e romulanos. Os torcedores também se vestem de forma absurda, exibindo uniformes estranhíssimos em qualquer lugar sem se importar com o que os outros digam ou pensem a seu respeito, exatamente como os fãs que se encontram em eventos vestidos como a Princesa Leia de biquini ou o Alucard de sobretudo e chapéu vermelhos. O grande templo do nerdismo futebolístico é o estádio (e a TV, em segundo lugar); o do nerdismo clássico é a convenção de fãs (e a internet, em segundo lugar).

Agora, abstraia o futebol, já que nós, brasileiros, temos a mania de pensar que o mundo só pensa naquela bolota preta e branca: O basquete nos EUA, o beisebol no Japão, críquete na Índia, surf no Havaí. Ainda antes da cultura pop do século XX, da obsessão pela ciência e/ou pela tecnologia, o esporte foi e é o grande formador de sujeitos obcecados e apaixonados por um estilo, um time, um atleta.

Pois é, talvez você não saiba, mas é um nerd também. Bem-vindo ao clube.

Hoje é o Dia do Orgulho Nerd!

segunda-feira, 25 maio, 2009

Dessa eu não sabia: inventado na Espanha em 2006 (Dia Del Orgullo Friki), o Dia do Orgulho Nerd espalhou-se obviamente pela internet e agora é comemorado até no Brasil. A data foi escolhida porque há 25 anos estreava o primeiro (que na verdade é o quarto, sejamos nerds) filme de Star Wars nos EUA, o que, de certa forma, é um marco inaugural do nerdismo contemporâneo.  Por isso, tire aquela red shirt de Star Trek do armário, chame os colegas para uma maratona de episódios de The Big Bang Theory e veja este clipe (dica do meu amigo Alex).

Mais TV e menos internet?

sábado, 23 maio, 2009

“Essa juventude tem que parar de só ficar pendurada na internet. Tem que assistir mais rádio e televisão”

Foi o recado dado pelo ministro das comunicações, Hélio Costa, no 25o. Congresso Brasileiro de Radiodifusão. Pausa para o Dr. Plausível, por favor:

HAHAHAHAHA

É isso: além de governados por gente que viaja o mundo com os cinco meses de salário que pagamos como impostos anuais, eles estão – convenientemente – desconectados da realidade. Enquanto um ministro das comunicações nega a internet, o senador Eduardo Azeredo deseja fazer da mesma rede um big brother e obrigar os provedores a ser cúmplices do estado que a todos vigia.

Os Anéis de Saturno, de W.G. Sebald

quinta-feira, 21 maio, 2009

Já falei dele aqui, então serei um tanto breve – como aliás e infelizmente têm sido meus últimos posts, cada vez mais raros. É o primeiro livro de Sebald que leio e já estou com Austerlitz na lista das próximas leituras. Mas voltemos a Os Anéis de Saturno. Já virou lugar comum afirmar que o autor implode os limites entre ficção, memória, diário de viagem e reflexão sobre a história da Europa, mas o que faz é ainda mais interessante porque é capaz de criar uma prosa única, deliciosa e melancólica.

Em Os Anéis de Saturno , Sebald passeia por Suffolk, na costa leste da Inglaterra, e, enquanto passeia por lugares conecta-os a Thomas Browne, Joseph Conrad, a imperatriz viúva Tz’u-hsi, a história medonha da colonização do Congo Belga. Descreve a beleza das casas de antigas famílias arruinadas pela guerra, pela ambição ou simplesmente pelo tempo. Fala de cidades cujo auge se esgotou séculos atrás, do qual hoje resta apenas o passado já quase esquecido. Em Os Anéis de Saturno, a História e a vida íntima estão entrelaçados pela calamidade e pela certeza absoluta da transitoriedade. Ao resgatar episódios pouco conhecidos ao lado de eventos já destrinchados pelos historiadores, Sebald os coloca num mesmo patamar e os equipara a aparente inutilidade da nossa existência, a nossa ilusão de eternidade. As fotos que pontuam o livro são fascinantes; algumas completam o texto, outras, parecem contradizê-lo, mas têm uma mesma, digamos, textura, que perpassa toda a obra – em imagens e palavras.

São vários os momentos em que esta amargura conduzida por uma uma prosa belíssima, que justifica a afirmação da quarta capa, retirada do New York Times (“Este livro é como um sonho que você quer que dure para sempre”), nos dá pistas sobre a derrocada inevitável de qualquer pretensão, vida ou civilização. Da paisagem rural de Suffolk a cidade que é devorada lentamente pelas ondas agora libertas do mar à tempestate apocalíptica que devasta a natureza da região em que o autor residia. Mas talvez o episódio mais emblemático (ou o que mais me enterneceu) é o da família Ashbury. Graças a um cartaz pregado numa loja, Sebald vai se hospedar na antiga casa da família. A princípio, eles parecem entregues, todos eles, a alguma forma branda e delicadíssima de loucura, todos envolvidos em projetos que não teriam fim ou objetivo. Mas, depois de convidado a assistir a exibição dos slides com as fotos do passado dos Ashbury (“Gostaria de saber como as coisas eram aqui?”, pergunta-lhe um dos irmãos), entendemos que eles estão presos ao tempo; foram, como se diz aqui em Minas, ficando por aquela casa, sem maiores perspectivas, as posses acuadas pela própria história. O que parecia demência se mostra imediatemnte seu oposto: lucidez tardia, entristecida e resoluta. É de dar um nó na garganta quando o autor diz que vai partir e percebe que, sem notar, alimentou a esperança daquela solitária família de ter alguém mais na casa.

W.G. Sebald faleceu em 2001, num acidente, deixando, entre outros, os livros Os Anéis de Saturno, Os Imigrantes, Vertigo e Austerlitz.

Que livro nacional você seria?

quinta-feira, 21 maio, 2009

Vi no Bípede Falante um daqueles testes que povoam a internet. Como o tema me interessou, acabei respondendo às perguntas (algumas são bem óbvias, e você percebe exatamente para onde as respostas apontam) e resultado foi: Memórias Póstumas de Brás Cubas! Seguido de A Paixão Segundo GH e Antologia Poética de Drummond.

Sim, eu sei que é uma bobagem, mas é uma bobagem bacaninha. E então, se você fosse um título da literatura nacional, qual seria?

Gripe, de Gina Kolata

quinta-feira, 14 maio, 2009

Em tempos de gripe suína (opa, a OMS não quer que usemos o termo para não estrangular o mercado de carne e produtos derivados do porco…), lembrei-me de um ótimo livro, lido alguns anos atrás: Gripe, da jornalista Gina Kolata. É um livro de não-ficção, nada de tramas abiloladas sobre epidemias mortais que são detidas no último instante graças a tenacidade de um cientista que desafia os militares e centros de pesquisa – quem nunca leu ou assistiu a isso antes? Gripe é, ao mesmo tempo, um relato da gripe espanhola do início do século XX e de outras epidemias que a precederam e uma investigação rigorosa sobre a possibilidade de novas doenças causarem uma catástrofe comparável ao hoje quase esquecido massacre de 1917, em que morreram milhões. A leitura é bastante assustadora, especialmente por revelar a fragilidade de nossos sistemas de saúde, estatais ou privados, frente a uma ameaça que boa parte da comunidade científica tem como quase certa de nos atingir novamente algum dia. Gina Kolata se embrenha no jargão científico com clareza e se faz entender perfeitamente. Talvez até bem demais, porque confesso ter ficado bem abalado com a leitura deste Gripe.

Não custa nada lembrar que enquanto a nova gripe vai levando algumas poucas dezenas de vidas, outras doenças que já deveriam estar erradicadas ou, ao menos, melhor controladas, continuam matando aos milhares todos os anos – dengue, malária, tuberculose…

Certa herança nerdista

sexta-feira, 8 maio, 2009

Meus pais não me deixaram heranças materiais – e confesso que isso jamais me interessou, de fato. Poderia dizer que me legaram a educação, mas seria apenas um clichê óbvio. A estreia do novo Star Trek lembra que uma boa parte de minha nerdice deve-se a influência deles. Minha mãe era fã da série original, do triunvirato canônico (uau) Kirk, Spock e McCoy, mas também gostava da Nova Geração do início dos anos 90, de Picard, Data e Riker. Já meu pai era mais conservador; para ele, havia um único Star Trek, o original e ponto. Na minha infância, eu assistia a série clássica, na pré-adolescência a Nova Geração e já adolescente, a Deep Space Nine. Mas jamais pude me considerar um fã ardoroso da série (nerdice tem limite); daí que vejo com bons olhos a reinvenção por J.J.Adams, o maluco que criou Lost. Não, você não me verá em convenções de fãs, vestido com uniforme amarelo bem menor do que minha barriga e fazendo o cumprimento vulcano. Estarei bem normal, na fila no cinema, para ver um filme de Jornada na telona pela primeira vez – antes, só na TV.

Neste post, eu falei de duas esperanças cinematográficas nerds para 2009. Eu já reconhecia que o remake de O Dia em que a Terra Parou seria uma bomba; na verdade, sequer me senti animado a vê-lo em DVD. Fui surpreendido por Watchmen e Presságios. Agora, depois de ver o excelente trailer de District 9, coloquei o filme do ex-quase-diretor-de-Halo na listinha de promessas nerds para o ano. De qualquer forma, convém não acreditar muito nas minhas capacidades premonitórias: eu disse que Wall-E e Batman – O Cavaleiro das Trevas disputariam o Oscar de melhor filme (pode rir, eu mereço) e, bom, todo mundo sabe a asneira que foi pensar numa coisa dessas. Ao menos, desta vez, com o novo Star Trek, o número de resenhas positivas cresce dia após dia; se eu errar feio, não estarei sozinho.

Coisas que eu gostaria de ter dito – 6

terça-feira, 5 maio, 2009

Existem alguns textos que parecem ter sido escritos única e exclusivamente para que concordemos com eles, do primeiro ao último parágrafo. É o caso deste Os Comedores de Lixo, de João Pereira Coutinho, publicado na Folha Online de 09/03, de onde cito um trecho:

Pessoalmente, nada tenho a dizer: sobre Jade Goody [britânica participante de um reality show que faleceu recentemente, vítima de câncer] e muito menos sobre a tv que filma a sua decadência física. Mas estranho que, no meio da gritaria, ninguém tenha dito o básico. E o básico não está na moribunda, muito menos na tv que filma a moribunda. O básico está numa população anônima de milhões de britânicos que permitem a existência desse caso, consumindo-o com voracidade mórbida. O fenômeno Jade Goody, e a repugnante vontade de o filmar até ao limite, não existiria se as audiências não existissem.

Como o próprio autor diz, parece algo óbvio, mas nãó é bem assim. Vale (e muito) a pena ler o restante do curto e preciso texto.

Chegou!

terça-feira, 5 maio, 2009

Finalmente tenho em mãos História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux. É uma obra monumental, escrita por ele ao longo de apenas dois anos (o que dá uma idéia de sua cultura e impressionante) e posteriormente revisada para uma última edição datada de 1977, um ano antes de sua morte. No ano passado, a Editora do Senado Federal decidou imprimir novamente esta edição, agora em quatro volumes e não em 7 ou 9, como antes fora feito. Não sou de fazer propaganda de preços, mas o valor é muito baixo pelo que a coleção oferece: apenas cinquenta reais por volume. Para se ter uma idéia, já vi exemplares em sebos quatro vezes mais caros – a coleção toda sairia por oitocentos reais!

Agora, só preciso arrumar um espaço nas minhas duas estantes abarrotadas para acomodar os anabolizados volumes da obra de Carpeaux. Assim que for lendo, posto um ou outro comentário – isso daria para encher mais uns dois ou três anos de blog.