Os Anéis de Saturno, de W.G. Sebald

Já falei dele aqui, então serei um tanto breve – como aliás e infelizmente têm sido meus últimos posts, cada vez mais raros. É o primeiro livro de Sebald que leio e já estou com Austerlitz na lista das próximas leituras. Mas voltemos a Os Anéis de Saturno. Já virou lugar comum afirmar que o autor implode os limites entre ficção, memória, diário de viagem e reflexão sobre a história da Europa, mas o que faz é ainda mais interessante porque é capaz de criar uma prosa única, deliciosa e melancólica.

Em Os Anéis de Saturno , Sebald passeia por Suffolk, na costa leste da Inglaterra, e, enquanto passeia por lugares conecta-os a Thomas Browne, Joseph Conrad, a imperatriz viúva Tz’u-hsi, a história medonha da colonização do Congo Belga. Descreve a beleza das casas de antigas famílias arruinadas pela guerra, pela ambição ou simplesmente pelo tempo. Fala de cidades cujo auge se esgotou séculos atrás, do qual hoje resta apenas o passado já quase esquecido. Em Os Anéis de Saturno, a História e a vida íntima estão entrelaçados pela calamidade e pela certeza absoluta da transitoriedade. Ao resgatar episódios pouco conhecidos ao lado de eventos já destrinchados pelos historiadores, Sebald os coloca num mesmo patamar e os equipara a aparente inutilidade da nossa existência, a nossa ilusão de eternidade. As fotos que pontuam o livro são fascinantes; algumas completam o texto, outras, parecem contradizê-lo, mas têm uma mesma, digamos, textura, que perpassa toda a obra – em imagens e palavras.

São vários os momentos em que esta amargura conduzida por uma uma prosa belíssima, que justifica a afirmação da quarta capa, retirada do New York Times (“Este livro é como um sonho que você quer que dure para sempre”), nos dá pistas sobre a derrocada inevitável de qualquer pretensão, vida ou civilização. Da paisagem rural de Suffolk a cidade que é devorada lentamente pelas ondas agora libertas do mar à tempestate apocalíptica que devasta a natureza da região em que o autor residia. Mas talvez o episódio mais emblemático (ou o que mais me enterneceu) é o da família Ashbury. Graças a um cartaz pregado numa loja, Sebald vai se hospedar na antiga casa da família. A princípio, eles parecem entregues, todos eles, a alguma forma branda e delicadíssima de loucura, todos envolvidos em projetos que não teriam fim ou objetivo. Mas, depois de convidado a assistir a exibição dos slides com as fotos do passado dos Ashbury (“Gostaria de saber como as coisas eram aqui?”, pergunta-lhe um dos irmãos), entendemos que eles estão presos ao tempo; foram, como se diz aqui em Minas, ficando por aquela casa, sem maiores perspectivas, as posses acuadas pela própria história. O que parecia demência se mostra imediatemnte seu oposto: lucidez tardia, entristecida e resoluta. É de dar um nó na garganta quando o autor diz que vai partir e percebe que, sem notar, alimentou a esperança daquela solitária família de ter alguém mais na casa.

W.G. Sebald faleceu em 2001, num acidente, deixando, entre outros, os livros Os Anéis de Saturno, Os Imigrantes, Vertigo e Austerlitz.

3 Respostas to “Os Anéis de Saturno, de W.G. Sebald”

  1. A Pousada Acidental – Parte 1 « exercícios de ficção Says:

    […] ficcional do encontro narrado pelo escritor W.G. Sebald no seu livro Os Anéis de Saturno, do qual falei no meu blog Universo Tangente. Obviamente, desloquei a ação e introduzi outros elementos. O que se segue não passa de um mero […]

  2. Coração Tão Branco, de Javier Marías « Universo Tangente Says:

    […] relacionados: Os Anéis de Saturno, de W.G. Sebald Ainda sobre Sebald e os […]

  3. 2009: Finalmente menos é mais « Universo Tangente Says:

    […] relacionados: Os Anéis de Saturno, de W.G. Sebald Marley? Não, obrigado Topifaive Os melhores romances que ainda não […]

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