O império dos nerds

Voltando ao tema dos nerds, que comemoraram nesta segunda-feira seu dia internacional de orgulho (coincidindo com o Dia da Toalha), descreverei uma ideia bastante herética e (acredito) até mesmo ofensiva a alguns. Somos quase todos nerds. Ao menos, aqui no Bananão, com certeza. Embora, após minha mal-feita defesa, você pode chegar a conclusão de que o nerdismo é uma prática espalhada por quase todos os países.

O que define um nerd ou geek? O consenso geral diz que o sujeito, para ser digno da alcunha de nerd tem que, antes de qualquer outra coisa, ser um especialista apaixonado em alguma área do conhecimento. Não precisa ser algo realmente relevante (embora o seja para ele); pode ser tanto a genealogia dos elfos em O Senhor dos Anéis quanto mecânica quântica. Será considerado mais nerd aquele cidadão cujo traquejo social se resumir a marcar presença muda e quase sempre solitária em algum evento, como uma festa na empresa em que trabalha. Mas, veja bem, esta característica não é essencial a definição nerdística. O importante mesmo é ser um especialista absoluto em alguma coisa, capaz de longas discussões que parecem absurdas a quem observa de fora. E, claro, é preciso ter uma paixão desmedida por este objeto de estudo, a ponto de levá-lo a se reunir em grupos com seus próprios códigos e jargões,  frequentar fóruns e outras searas da internet e, em casos mais extremos, a se vestir de forma padronizada ou até fantasiosa, como se apelasse a uma identificação absoluta com sua obsessão.

Certamente, você está pensando em alguma convenção de trekkers onde desfilam sujeitos barrigudos em uniformes que mal caberiam no William Shatner em sua adolescência ou em uma japonesa vestida de Sailor Moon posando para as câmeras de fãs; talvez num bando de universitários discutindo a teoria das cordas na Caltech ou geeks brigando num fórum, tentando chegar a alguma conclusão sobre qual a melhor distribuição Linux. Você não está enganado, claro. Tudo isso faz parte do universo nerd, e é bem provável que não tenha entendido algumas das coisas que citei. Desculpe-me, mas eu pensei em algo levemente diferente: um bando de torcedores do Atlético Mineiro, Cruzeiro, Flamengo ou qualquer grande time.

Vejamos. Eles fazem parte de uma turma (imensa, é verdade) com seu próprio código, regras e piadas internas. Assim como os fãs de Star Wars (cujo ícone é o cineasta Kevin Smith) e os de Star Trek, vivem fazendo piada uns com os outros; a maior parte do tempo, amigavelmente, mas conflitos bizarros não são incomuns. Para alguém como eu, afastado do futebol, acompanhar uma calorosa discussão sobre a escalação das seleções brasileiras de 1970 e 1982 é algo tão hermético quanto tentar entender trekkers debatendo as diferenças e semelhanças entre vulcanos e romulanos. Os torcedores também se vestem de forma absurda, exibindo uniformes estranhíssimos em qualquer lugar sem se importar com o que os outros digam ou pensem a seu respeito, exatamente como os fãs que se encontram em eventos vestidos como a Princesa Leia de biquini ou o Alucard de sobretudo e chapéu vermelhos. O grande templo do nerdismo futebolístico é o estádio (e a TV, em segundo lugar); o do nerdismo clássico é a convenção de fãs (e a internet, em segundo lugar).

Agora, abstraia o futebol, já que nós, brasileiros, temos a mania de pensar que o mundo só pensa naquela bolota preta e branca: O basquete nos EUA, o beisebol no Japão, críquete na Índia, surf no Havaí. Ainda antes da cultura pop do século XX, da obsessão pela ciência e/ou pela tecnologia, o esporte foi e é o grande formador de sujeitos obcecados e apaixonados por um estilo, um time, um atleta.

Pois é, talvez você não saiba, mas é um nerd também. Bem-vindo ao clube.

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